O sexo biológico não pertence a uma estrutura binária

Por Isabelle Tancioni e Cecifavodemel

 

Um médico australiano relatou que uma paciente grávida estava preocupada com resultados que indicavam que seu futuro filho era portador de alguma alteração genética. Surpreendentemente, o bebê não apresentava nenhuma anormalidade e verificou-se que a mãe era portadora tanto de células XX, que indica sexo biológico feminino e também células XY, que indica sexo biológico masculino. Foi assim que esta mulher recebeu a notícia que parte de seu corpo carrega células do sexo biológico masculino. Em outro caso, cirurgiões descobriram que um indivíduo cisgênero de 70 anos, pai de 4 filhos, tinha um útero.

Para explicar este e outros acontecimentos, um artigo especial foi publicado na revista Nature. A reportagem contém opiniões de diversos cientistas que acreditam haver uma grande diversidade na definição do sexo biológico das pessoas e que este não se encaixa em sistema de estrutura binária. Em outras palavras, o sexo biológico não é resultante de um sistema tão simples como pensávamos previamente. Isso pode decorrer devido a ambiguidades entre as mensagens originadas pelos cromossomos e as mensagem emitidas pelas gônadas sexuais. Uma a cada 100 pessoas pode apresentar transtornos do desenvolvimento sexual (em inglês, DSDs, disorders of sex development). Um dos cientistas Eric Vilain (clínico e diretor do centro para biologia baseada em gênero da Universidade de Califórnia, Los Angeles) disse que:

Transtornos do desenvolvimento sexual são biologicamente um espectro.

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A origem da complexidade do sexo biológico

 

No início de desenvolvimento, o embrião é portador de estruturas que desenvolverão tanto o aparelho sexual feminino quanto masculino. Ativação de certos genes promovem o desenvolvimento das gônadas sexuais (testículos, que produz testosterona ou ovário que produz estrógeno).

Hormônios como a testosterona, por exemplo, atuam no desenvolvimento de outras estruturas do aparelho reprodutor masculino e faz com que estruturas do aparelho feminino desapareçam. Inicialmente acreditava-se que o sexo feminino era resultante da falta da produção de testosterona. Posteriormente, cientistas verificaram que o sexo biológico feminino não era obtido como resultado de um processo passivo e sim, ativo. Mais de 25 genes já foram identificados como genes que atuam no balanço entre o sexo biológico feminino e masculino, como o sistema que promove o desenvolvimento de estruturas como ovário e suprime o desenvolvimento de testículos, por exemplo. Alteração na atividade destes genes podem refletir transtornos do desenvolvimento sexual.

O mais interessante é que esse processo não acontece só durante o desenvolvimento do embrião. Camundongos fêmeas que tiveram um gene que controla o desenvolvimento o função do ovário desativado na fase adulta apresentaram em suas gônadas sexuais, células de sertoli, isto é, continham células do aparelho reprodutor masculino, ao invés de células da granulosa que estão associadas ao desenvolvimento do óvulo.

A complexidade do sexo biológico também engloba casos de pessoas que podem ser compostas de células distintas geneticamente. Por exemplo, uma pessoa pode conter células XY e também células que só contenha X, devido a perda do cromossomo Y em algumas células durante processo de desenvolvimento embrionário. Ainda há casos raros de pessoas que são uma combinação de células de dois embriões de sexos biológicos diferentes. Interessantemente, existem casos descritos em que mães carregam células de seus filhos e filhos possuem células de suas mães (também conhecidos como microquimera). No entanto, não se sabe como a presença destas células afetam o organismo.

 

A desconstrução do sistema binário

 

Há necessidade de expansão dos horizontes sobre assuntos ligados ao sexo biológico e gênero, principalmente por vivermos em um sistema onde todos os nossos documentos, como certidão de nascimento, não pode conter contradições.

Fico feliz em ver mais pesquisas e comprovações que apontam pra questões das quais já se fala há muito tempo mas são ignoradas como teorias sem fundamento. Por outro lado é triste notar que mesmo diante de fatos novos ainda existe um apego enorme a padrões antigos com justificativas do tipo “sempre foi assim e vivemos bem, pra que mudar?”

Mas quem se encaixa nesse “vivemos bem”? Muitas pessoas talvez sim, outras acreditam que sim mas simplesmente se conformam com a pressão e imposições sociais.

Enquanto conseguimos ganhar terreno na questão de identidade de gênero, a questão de sexo ainda é extremamente binária e impositiva. Ainda se espera que os corpos sejam padronizados segundo o binarismo, vide quantas pessoas perguntam logo de cara se uma pessoa trans é operada… e no meu caso que não pretendo muitas vezes a negativa acarreta comentários desrespeitosos disfarçados (ou não) de opiniões.

Imagine então pra alguém cuja o corpo naturalmente sai do padrão binário, que sofre antes de ter consciência, intervenções cirúrgicas para se adequar e muitas vezes essa adequação não condiz com a identidade de gênero dessa pessoa.

Então é importantíssimo acordarmos pra estes fatos, é importantes que possamos entender e nos desprender das correntes da imposição binária, não gerando uma imposição contra quem se encaixa no binário, mas libertando quem não se encaixa.

 Fonte:

http://www.nature.com/polopoly_fs/1.16943!/menu/main/topColumns/topLeftColumn/pdf/518288a.pdf

Revisão de texto: 

Helen Miranda e Tamiris Santos Pessoa.

Imagem de destaque: Cecifavodemel


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Isabelle Tancioni

Sou veterinária, cientista, hipster, Tiki, nerd, geek. Gosto de comics, música, cartoons, animais, plantas.