Viúva-Negra #1 – Uma de nós

Natasha Alianovna Romanova (ou Romanoff)  AKA Viúva Negra: – Ex-espiã da KGB, terror do ocidente na Guerra Fria, agente dupla, agente da S.H.I.E.L.D, ex-integrante dos Campeões, integrante dos Vingadores, uma das melhores espiãs do universo das HQs, uma das melhores e mais bem criadas personagens da Marvel. Criada por Stan Lee, em parceria com Don Rico e o ilustrador Don Heck, apareceu pela primeira vez em 1964, auge do período histórico de disputas estratégicas e conflitos indiretos entre os Estados Unidos e a União Soviética, onde os dois lados brigavam pela hegemonia política, econômica e militar no mundo. Sua estréia se deu na revista Tales Of Suspense, que também publicava histórias do Homem de Ferro. É importante lembrar que, nessa época, a grande maioria dos enredos de HQs em geral,  girava em torno do tema Guerra Fria: tramas políticas, espionagem, corrida armamentista, corrida espacial. Foi justamente nos anos 60/70, que grandes personagens e grupos foram criados tendo como  base a conjuntura da época, tais como: Quarteto Fantástico, X-Men, o próprio Homem de Ferro. Foi em uma dessas histórias que ela apareceu, basicamente como um dos casos de Tony Stark, mas ela era boa demais pra ser só mais uma namorada sidekick do ególatra gladiador dourado.

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Uma coisa meio fetiche/gótica suave esse uniforme, plmdds

Logo depois de Tony, Nat se envolveu com Gavião Arqueiro, e por causa deste “amor vagabundo” (Hawkeye era um bandido “reformado” por quem Natasha se apaixona) trai sua amada URSS e se instala nos EUA (ohhhh, violino toca música romântica e a gente vomita).

Foi somente nos anos 70, quando apareceu em The Amazing Spiderman, que ela ganhou uma repaginada de visual e mais espaço nas histórias. Usa finalmente o característico uniforme preto colante, o cinto dourado e os braceletes com os “ferrões” da Viúva: uma rajada de alta freqüência eletrostática de até 30 mil volts, capaz de desestabilizar um humano superpoderoso a uma distância de até 40 metros. Visual esse desenvolvido e executado pelo grande Romitão, John Romita e que é conhecido por nós até hoje.

Romita Sir. Obrigada pelo presente.
Romita Sir. Obrigada pelo presente.

A personagem chegou a ganhar histórias próprias em 72, com a revista Amazing Adventures, revista esta, aliás, onde também eram publicadas histórias dos Inumanos, escritas por Jack Kirby, mas como o machario da época não aceitou uma mulher tão foda sendo protagonista de HQ, as vendas desabaram. Obviamente, o golpe no frágil ego masculino ao ver que uma mulher poderia ser tão poderosa e capaz quanto um herói foi muito maior que a descarga de 30 mil volts da Viúva, e ela acabou voltando ao status de sidekick-caso- amoroso-whatever, dessa vez do Demolidor, parceria  que deu muito certo até metade dos anos 70, quando finalmente ela foi integrada à equipe dos Vingadores, de onde o grande público a conhece.

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No cinema, principalmente no filme “Vingadores: A Era de Ultron”, os roteiristas dão uma pincelada rápida sobre o que viria a ser a verdadeira origem de Natasha Romanova: ela teria sido uma das muitas crianças russas que eram aliciadas e treinadas de forma cruel e espartana  pelo governo, a fim de se tornarem soldados ultra-treinados e espiões na Guerra Fria, programa esse chamado de “Sala Vermelha” nas HQs. Um tie-in da série televisiva Agent Carter, também corrobora para essa origem: como a série se passa nos anos 50, final da Segunda Guerra e começo da Guerra Fria, é revelado que décadas antes de Natasha, a União Soviética desenvolvia o Projeto Viúva-Negra, treinando garotas desde a infância para se tornarem assassinas profissionais a serviço da Rússia. Uma delas é Dottie Underwood, interpretada por Bridget Regan, na série.  Dottie teria sido, portanto, a primeira Viúva Negra. Tem mais coisa aí no meio, como ela ter sido parceira do Soldado Invernal (Bucky Barnes)  mas, enfim, esse é um resumão.

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Todo esse textão sobre a origem da Viúva para dizer: Viuva Negra #1, lançamento do selo “Nova Marvel” lançada recentemente pela Panini (R$ 22,90 preço de capa) já chegou às bancas e comics shops e é do caralho. Escrita por Nathan Edmonson (que não fez muita coisa até agora, fora The Activity pra Image, Bandoleiro para a DC e Justiceiro e Ultimate Comics Iron Man, pra Marvel) e MAGISTRALMENTE desenhada por Phil Noto (IMHO um dos MELHORES DESENHISTAS DE MULHERES DAS HQs), o volume engloba as e edições 1 a 6 da revista Black Widow do selo All New Marvel Now! Point One, lançada ano passado nos EUA.

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O enredo narra os trabalhos free-lance de Natasha como espiã e assassina profissional, em seu tempo livre entre as missões dos Vingadores, reforçando sua personalidade ambígua e complexa. Movida pela culpa por ter sido agente de massacres promovidos pela KGB nos anos 80/90, Natasha se envolve em pequenos, mas, complicados casos para angariar dinheiro e garantir o bem-estar das vítimas sobreviventes dessas chacinas, muitas vezes arriscando sua própria vida para isso,

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No desenrolar das histórias, vemos uma mulher fascinante. Uma agente espetacular, quase suicida, focada, fria, pragmática, mas totalmente real. Ela não é uma Mary Sue. Não é perfeita, impecável, bela, recatada e do lar. Ela é gente como a gente. Sente frio, fome, medo. Sente falta de levar uma vida normal. Falta de conversar trivialidades, de ter amigos. Ela calcula errado a distância que deveria atirar.  Cai em emboscadas. Quebra um braço. Acredita em informações erradas. É uma mulher que abraça as consequências de escolhas feitas e faz delas seu modo de vida. Tão forte e tão frágil. Não é assim que somos todas?

“ É esse tipo de predadora que sou. Conflituosa, mortal, solitária. Essa é minha natureza imutável” – Viuva Negra- Black Widow #6

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Vale a leitura, vale como item de colecionador. Isso sem falar na arte impecável de Noto, linda, aquarelada, respeitosa, fora do lugar-comum. Nada de peitos, bundas ou posições ginecológicas. Dá até um quentinho no coração.

(Capas alternativas de: Milo Manara (mas tá decente! Juro!) Jeff Scott Campbell, Scottie Young (cute!) Frank Cho e JG Jones.

Ah e se você quiser ler uma graphic novel com a melhor história sobre a origem da Viúva recomendo “A Mais Fria das Guerras” de Gerry Conway e George Freeman. É maravilhosa.

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Os artigos aqui publicados são de total responsabilidade de suas autoras e editoras.

Gabriela Franco

Jornalista especializada em cultura pop, produtora, cineasta e mãe da Sophia e da Valentina Criadora do MinasNerds.