RPG e Violência Simbólica

Eu assumo que estava evitando o tema. Enrolando, mesmo. Tentando achar um jeito de falar do assunto, que é um grande elefante no meio da sala quando o tema é RPG. O que me motivou a até que enfim falar disso foi uma situação banal que funcionou bem dentro de uma mesa de jogo onde participo.

cavaleiros e damas

Minha personagem decidiu que aquela era uma boa hora para tomar o primeiro porre de sua vida. Consciente disso ou não, o mestre tem feito um ótimo trabalho em mostrar que diferentes reinos do cenário lidam com o fato dessa personagem ser agênera de formas diferentes. No reino de onde vem, isso é visto de forma natural. Em outros reinos, causou um estranhamento aqui e ali com a dificuldade individual de algumas pessoas que veem tudo de forma binária. Por conta do título de nobreza da personagem, em alguns reinos assumem que ela é um homem e recebe todos os privilégios dessa presunção. Nesse reino, a personagem foi constantemente confundida com uma mulher (ele foi designado homem ao nascer se você realmente acha que isso faz diferença). De briga de taverna a passar por situações de machismo sutil, minha personagem estava mesmo era mais preocupada/feliz com o fato de que uma outra personagem do grupo, um ninja todo fechadão e que até então só aparentava irritação com as tentativas de amizade da minha personagem, demonstrou incômodo e um certo senso de proteção para ela diante dessas situações (proteção do ponto de vista psicológico, porque fisicamente ela é a personagem mais forte). Quer dizer, como assim aquelas pessoas podiam verbalizar e agir daquela forma? Minha personagem estava quase fazendo a dancinha feliz da empatia com as reações do ninja. Então decidiu que depois de terem se divertido no Festival o máximo que era possível, apagar de tanto beber no meio de uma guarnição de soldados desconhecidos não seria um problema.

A situação se desenrolou de um jeito que foi sensível, e não apagou o quanto o ambiente é hostil para minha personagem, sem causar nenhum desconforto. O ninja (ainda que muito incomodado por se ver tão próximo dela) carregou minha personagem para o quarto quando percebeu os olhares que ela recebia enquanto estava desacordada, saiu fechando a porta atrás de si, e ela dormiu, com seu voto de castidade imperturbado. O mestre frisou que quando acordou, ela se deu conta do perigo absurdo que tinha corrido e de como as coisas poderiam ter acabado mal, mas ao mesmo tempo, o quanto ela podia contar com os comiga, acordei e não sei onde tômpanheiros de aventura.

Essa cena durou dois minutos, não mais que isso. O mestre, antes da primeira aventura, quando eu demonstrei preocupação com o machismo inerente ao cenário, disse “eu não mestro para deixar ninguém desconfortável”, e tem levado isso a sério. Minha personagem é agênera e bi-romântica, temos uma personagem homossexual e pelo menos uma outra bi, e uma personagem mulher que se passa por homem ao melhor estilo Diadorim, e tudo vai bem. É uma aventura leve, divertida e cheia de bom humor.

O problema é que em qualquer encontro onde mulheres falam de RPG e trocam experiências, essa vivência, que deveria ser a óbvia, não é a que mais aparece. Pelo contrário. Em um número assustadoramente alto de mesas de jogo, minha personagem teria corrido um perigo real de ser estuprada. Não só por NPCs, mas pelos personagens de outros jogadores também. Essa situação se repete de forma assustadora. Personagens femininas e personagens de jogadoras mulheres são assediadas, estupradas e vítimas de feminicídio nas mesas de jogo.

Por conta dessa discrepância, entre como eu sei que as coisas podem ser feitas de um jeito decente e como muitas vezes elas acontecem de forma agressiva, que afasta muitas mulheres do jogo por ser um ambiente hostil, que eu decidi por fim falar desse assunto.

Você já ouviu falar em Violência Simbólica?

Tem um filósofo francês chamado Pierre Bordieu. Esse moço fala o seguinte: a sociedade cria padrões sociais que as pessoas absorvem e acham que são naturais, porque embora sejam padrões construídos, eles estão cercando as pessoas desde que elas nascem e começam a conviver com a sociedade onde estão inseridas. Esse poder se sustenta por ser invisível. O Bordieu vai dizer o seguinte: “O poder simbólico é, com efeito, esse poder invisível que só pode ser exercido com a cumplicidade daqueles que não querem saber que lhe estão sujeitos ou mesmo que o exercem”.

Esse poder se manifesta através dos sistemas simbólicos que formam a sociedade: arte, língua, religião, crenças e valores… Esse poder simbólico serve para a integração da sociedade, mas é uma ferramenta de dominação – a velha história do plural masculino no português, onde você apaga a presença feminina, ou a dificuldade em verbalizar nessa língua o fato de que para minha personagem o gênero não é um fator aplicável. Porque a classe dominante vai forjando os valores simbólicos que são impostos.

Então a gente tem esse monstrinho nocivo. A violência simbólica. Que é essa possibilidade de agredir alguém não no mundo físico, mas impondo coisas no nível simbólico. Agredindo não a entidade física, mas o “mundo das ideias” que compõe uma pessoa.

O RPG é um jogo todo fundamento no campo simbólico. Nossos personagens se constroem com símbolos culturais e elementos que coletamos do mundo físico e dos mundos fictícios que nos envolvem. E são também manifestações simbólicas da nossa psique.

Eu não sou um lobisomem violento e com sede de sangue que justifica suas ações por acreditar em um ideal, mas quando eu jogo, esse lobisomem é minha metáfora para elementos internos ou minha catarse (a forma como eu expurgo alguma coisa que não quero em mim). Ele tem uma potência psíquica quase junguiana, e um bom jogo se sustenta em lidar com isso de uma forma que é segura e confortável para todos os envolvidos.

Assim como a criança coloca de forma simbólica no seu faz de conta os elementos que ela está tentando lidar na realidade e não dá conta, ou como seu cérebro constrói sonhos onde usa os símbolos do seu inconsciente para lidar com as coisas que estão fervendo na sua cabeça, o RPG vai dar espaço para construções dos seus símbolos pessoais.


Vamos deixar uma coisa entendida: quando eu falar de violência aqui, não estou falando de quantos pontos de dano e níveis de vitalidade um personagem perdeu em combate. Estou falando de humilhação, estupro, assédio, agressões verbais, papéis sociais forçados.

Então, coloquem na cabeça de uma vez por todas: a violência sofrida por um personagem é uma violência que a jogadora está sofrendo. Porque embora a jogadora não seja sua personagem, os símbolos que estão ali em ação fazem parte dela.

E quando um jogador descreve, em detalhes que beiram o sadismo, como está estuprando sua personagem, essa violência, ainda que não seja física, é uma violência real. Uma violência real que vai perseguir a vítima muitas vezes por anos. E eu cansei de ver minas que desistiram de jogar por conta de repetidas agressões desse tipo.

Existe um conceito que eu acho incrível, e que tomei contato pela primeira vez através da maravilhosa cartilha composta pela Cecília Reis, chamado Sangramento. Sangramento é exatamente esse espaço emocional que escapa do jogo e vem pro mundo real, e que pode acontecer de forma positiva (e vamos falar disso outra hora) ou negativa. Me lembro de uma situação de violência simbólica contra uma personagem minha que me fez levantar, chorar, e sair de uma mesa de jogo. Eu tinha dezoito anos e hoje, com trinta e três, ainda me arrepia a nuca lembrar daquilo. Não foi uma agressão sexual, mas foi uma agressão fundamentada no fato de minha personagem ser uma mulher que não se submetia ao mundo masculino. Essa submissão forçada, que quebrava toda a construção da minha personagem, que colocava ela em uma posição inferior aos outros personagens, me machucou de verdade. Refletiu uma situação que estava pautada na minha realidade: a dificuldade daquele grupo de jogo em lidar com o fato de que eu não me prendia aos papéis esperados de uma mulher.

Dica: a violência simbólica que acontece dentro do jogo quase sempre significa que a relação dentro do grupo de jogo fora da ficção é pautada por outras violências psicológicas, preconceitos manifestos e agressões sutis e não tão sutis. Muitas vezes, aquilo que começa como agressão simbólica, se não for notada, se os outros jogadores não tomarem uma atitude, se torna agressão física. Relatos disso não faltam.

Ah, mas e os jogos de horror pessoal?

Eu sou uma narradora de Vampiro. Mais do que qualquer outro jogo, minha zona de conforto narrando histórias é arrancando dos meus jogadores aquele senso de horror psicológico que nos faz questionar a nós mesmos. Uma coisa que eu aprendi foi antes de começar uma campanha, elencar com os jogadores que tipo de sentimentos e temas eles estavam dispostos a lidar e que assuntos não deveriam ser postos em pauta. Posso brincar com um medo leve, mas não vou explorar uma fobia. Palavras de segurança quando uma aventura ia ter um componente forte sempre foram uma regra. Mas acima de tudo, eu tenho o orgulho de ter causado pavor, medo, cagaço, questionamentos, desespero e tudo que se espera de um bom terror psicológico sem nunca ter usado violência sexual como pauta. E sempre, sempre, criando mecanismos de proteção para que mesmo depois de uma situação muito tensa, os jogadores não saissem sem conversar sobre o assunto e trabalharmos juntos qualquer desconforto. E quando eu pesei na mão – porque não sou perfeita e porque as vezes acontece algo inesperado, um gatilho desconhecido ou algo assim – eu estava lá no telefone às três da manhã para ouvir, ajudar, e pronta a pedir desculpas, mudar atitudes e melhorar.

É responsabilidade de quem mestra segurar as rédeas e não permitir que os jogadores agridam uns aos outros. E ao mesmo tempo é responsabilidade compartilhada de todos que os limites sejam respeitados. Temos regras para todo tipo de coisa. Regras de convivência são parte de um jogo cooperativo. Se o mestre está agredindo uma jogadora, você tem que apontar isso, sim. Se um dos jogadores está fazendo isso, é seu papel impedir isso sim. Chamar a atenção de alguém para os limites do bom senso deveria ser algo básico.

Esse tema é longo, e tem muito mais para ser dito. Este é o início de uma conversa. E eu conto com o feedback de todas para continuarmos.


Os artigos aqui publicados são de total responsabilidade de suas autoras e editoras.