Confissões de N-b.Cutie

N-b.Cutie (avatar)
Sim, eu sou esse panda.

“OLÁ. Sou N-b.Cutie. E quem será N-b.Cutie? Sinto lhe informar, nem eu sei.”

Cá estou eu, inerte numa quase escuridão: a única claridade vem das letras roxas piscando no fundo branco de uma tela fria. E a pergunta ‘quem é N-b.Cutie?’ não para de crescer na minha mente… Sabe, gosto muito de filmes de terror. E uma particularidade da qual nunca me esqueci desde a primeira vez que ouvi foi a frase: “We are Legion, for we are many” (Tradução livre: Nós somos Legião, pois somos muitos). Era uma daquelas possessões bizarras, populares ao gênero, onde o indivíduo estava possuído não só por um demônio, mas sim por um punhado deles. Chega a ser engraçado estar me lembrando disso bem agora, no exato momento em que estou querendo me apresentar a vocês. Mas a verdade é que essa frase diz muito. Entenda: eu não sou um, mas sim muitos. Uma miríade de “EUs” viajam dentro de mim, construindo tudo o que vejo e vivo, sendo o que eu preciso a cada situação. Não sei dizer QUEM sou, simplesmente porque nunca fui UM SÓ.

Festa-estranha-com-gente-esquisita feelings a parte… É por esse motivo que me destaco aqui hoje: para te convidar a entrar em uma viagem juntamente comigo e todos os meus EUs. Uma viagem de autoconhecimento e, principalmente, de representatividade. Quero compartilhar com vocês minha vida, desde meu passado conturbado e silenciado, ao meu presente cheio de questionamentos e dúvidas e, finalmente, ao meu futuro repleto de muitas lutas… Só que meu foco principal não é falar só de mim, pois isso será uma conversa, um diálogo entre você e eu. Quando eu dar as caras por aqui, será para nossa conversa, nosso momento. Você poderá participar enviando confissões: relatos, medos, apelos, identificações, agradecimentos… Qualquer confissão que gostaria de ter compartilhada com um mundo de outros seres tão perdidos e sozinhos como eu e você. Quero nos agrupar, nos fazer reconhecer, nos fazer ouvir e, acima de tudo: nos fortalecer! Vamos crescer juntos?

Sobre mim, quero que tenha em mente que N-b.Cutie pode ser aquela pessoa estranha que sentou ao seu lado no ônibus reclamando do cobrador que deu troco errado. Ou talvez aquele ser idoso simpático que tentou puxar assunto na fila da padaria. E quem sabe, aquele indivíduo pintoso que passou na sua frente outro dia e te jogou A piscadela mais sexy naquela balada de sexta à noite.

Perceba: N-b.Cutie tem um motivo de ser. N-b vem do termo “não-binário”, um indivíduo que não tem gênero definido. Pode ser mais um, pode ser mais o outro. Pode ser os dois igualmente e pode ser nenhum. Pode ser um agora, pode ser outro depois. Pode ser mais de um, pode ser mais do outro, mas ainda assim pode ser nenhum também: tudo ao mesmo tempo. Não seguimos estereótipos, não somos o padrão.

Desde os primórdios o ser humano sentiu essa necessidade de classificação. Uma necessidade (que me é estranha, vale dizer) de classificar tudo e todos. Digamos que precisávamos, de acordo com nosso quadro evolutivo, de uma divisão mais clássica inicialmente. Porém hoje em dia já podemos dizer que isso não é tão mais verdade assim. Atingimos um momento do pensar (também filosófico) em que questionar isso já nos é natural. Algumas pessoas questionam e problematizam mais do que as outras, isso é real. Contudo, a palavra “conformismo” já não faz parte do nosso dia-a-dia. Hoje, queremos entender o porquê e queremos ser ouvidos e queremos também melhorar nossas condições de vida. Assim, para corresponder à ideia do N-b, decidi adotar o Cutie, que é um termo positivo e agradável, mas também: indefinido. É uma palavra que pode ser usada para qualquer pessoa, independente de gênero. Lindo, não? E assim nasceu: N-b.Cutie.

Um pouco da minha motivação de estar aqui escrevendo pra vocês hoje e propondo toda essa revolução e diálogo é… Cansei de fingir. “Só isso”. Socialmente, temos sobre nossos ombros tantas regras e expectativas, tantas fórmulas e estereótipos a serem seguidos. São inúmeras celas e algemas as quais nós mesmos nos isolamos e prendemos… Chega! Dei meu grito de independência (até onde minhas asas podem chegar).

CONFESSIONS

Então, chegado é o nosso momento de confissões do dia. Colocarei a seguir, trechos de uma conversa com umx amigux queridx. Outra pessoa trans n-b que não precisa ser identificadx.

N-b Cutie: Se na minha infância os tempos estivessem como hj… E eu tivesse acesso à informação e conhecido pessoas que conheço hj. Mta coisa, mas mta coisa mesmo teria sido diferente.

Anonymous: Você quer dizer da sua questão trans, né?

N-b Cutie: Sim! Acho que eu seria completamente diferente hj. Teria me poupado mta coisa… Mas tb teria me rendido mtas outras lutas. Mas acho que teria amadurecido bem mais rápido alguns pontos que só estou questionando agora. Sabe?

Anonymous: Sei sim! Mas acho essas informações interessantes a serem discutidas na idade que tu tem hoje, sabe? Você amadureceu o suficiente para ENTENDÊ-LAS.

N-b Cutie: Sim, isso é verdade. Não sei se vai fazer sentido pra vc o que eu vou falar agora… Mas no meu caso, acho que eu cada vez mais me identificar como não-binario acontece pq tive de silenciar um lado e estimular o outro? Tipo… Da mesma forma que temos um lado feminino e um masculino (e isso acredito já ser de concordância geral), quando criança eu tive de aprender a ser “menina”. Conversando com outro amigues outro dia… Não só entendi isso, como essa pessoa me ajudou a ver até onde isso se estendeu… Já que essa pessoa me conhece há alguns anos e nós sempre tivemos um relacionamento mto íntimo. Hj me recordo de situações e conversas e vejo o quanto eu me esforçava pra ser algo que eu não era, pq tinha medo de alguém apontar pra mim e gritar “fraude”!!! Isso é tão real que se estende até pra minha vida profissional. Sabe aquela expressão “I’m a mess!”?

Anonymous: Sim, super entendo. Acho que todes nós já passamos por aquela fase das máscaras, de tentar não pensar em coisas, se esforçar pra sermos pessoas as quais não somos na verdade. E também, o processo de você se identificar com um gênero binário ou não binário diferente do imposto, não é algo do dia pra noite, é um processo demorado, sabe? De aceitar que você não é cis como tu sempre QUIS SER, de que você vai além dos estereótipos. 

N-b Cutie: Pois é. Sábado passado, depois que sai do trabalho, fui pra casa de um cara. Quando cheguei, ele me perguntou se eu queria trocar de roupa. Eu falei que não tinha levado nada. Aí ele falou que me emprestava. Me arranjou uma regata modelo machão e um shorts que mais parecia um bermudão em mim. Quando coloquei e me vi refletide no espelho, entrei em pânico! As roupas eram obviamente masculinas. Uma pessoa tida como “normal” sentiria algo como um pequeno desconforto, uma vergonha por estar usando “roupas do sexo oposto”. Daria uma risada e pronto. Mas eu fiquei em pânico por alguns minutos e não quis sair do quarto. Negociando a situação por alguns momentos, acabei saindo de lá e no final fiquei na casa dele até domingo à tarde com aquela mesma roupa. Logo no domingo de manhã, antes de eu ir embora, ele me chamou pra ir na padaria. Disse um “não” quase histérico. Isso me fez pensar: qual foi o problema?! Pq fiquei daquele jeito? Pq aquilo me incomodou tanto? Então descobri: meu pânico todo era simples… Tinha medo de alguém apontar pra mim e soltar um “O que é aquilo? Menino ou menina?” ou um “Nossa, como ela parece um garoto!”. E sabe pq? Pq eu passo a maior parte do meu tempo tentando esconder, enterrar e afogar meu lado masculino. Vivo aquele estereótipo da mulher ideal. Me esforço tanto em usar vestidos,  cor de rosa e lilás… Pq eu PRECISO parecer feminina… Tá entendendo o nível da paranóia?

Anonymous: Super entendi a paranóia. Então migues, isso você vai ter que trabalhar dentro de ti, sabe? Tipo, não sei como te ajudar, mas eu compreendo. Muita coisa foi imposta à você, sabe? Isso é muito normal.

N-b Cutie: É… Muita coisa foi imposta e é imposta até hj, né. HJ mesmo ouvi: “Mas eu mando em vc. Mando em vc também, EU mando em vcs duas!” Do meu pai, sobre eu e a minha mãe. A conversa rolou em tom de brincadeira, só que pra mim não foi e no fundo eu sei que ele pensa assim. Ele havia dito pra minha mãe que mandava nela e ela tava lá falando com ele, os dois rindo. Eu entrei na cozinha e minha mãe disse “tá vendo filhA, olha o que seu pai tá aí falando.” E meu pai solta um: “Sua mãe não tá querendo aceitar que eu mando nela. Mas é claro que eu mando nela, não é?” E eu: “Não, vc não manda nela não.” Aí ele jogou essa que coloquei aí em cima… E eu só respondi “Não manda não. Não manda em ninguém. Nós somos pessoas e como tal somos donas de nós mesmas. Não somos nenhum cachorro ou gato pra vc achar que manda.” Como eu disse… Pra ele foi zoação… Mas pra mim foi mto sério, tanto é que minha mãe só falou um “Pois é” bem baixinho e eu saí da cozinha tão rápido quanto entrei. Mas isso é pra vc ver o que eu tenho que ouvir e passar no dia-a-dia. Eu nunca vou poder falar abertamente nada do que eu realmente sinto, pq senão eu perco a minha família… E perco vcs, minhas migues. Pq se meu pai sequer imaginar esse tipo de conversa, ele vai querer me impedir de conversar com vcs. Quem dirá sair e conviver com vcs.Vai rolar o papo “isso é influência desses freaks que vc cham a de amigos”.

Anonymous: Eu acho assim, migues, cê tem que pensar que, mano, você é quase UMX IRMX MAIS VELHX pra mim e tipo, você ainda deixa essa coisa da relação com a sua família te afetar de um jeito onde me parece que você é dependente não só da casa deles, mas num quesito super emocional, sabe? Você tem que ser quem você quiser ser! Ninguém pode mandar em você e NEM SEQUER comandar você.

N-b Cutie: Eu sei. Mas é foda quebrar um ciclo, sabe? Pra mim já foi difícil admitir que sofro abuso psicológico familiar. Foi uma verdade que tive de trabalhar mto pra conseguir admitir. Daí a mudar… É difícil mudar um relacionamento no qual eu nasci e já estou do mesmo jeito a tantos anos. Os meus pais são da geração passada. Meus pais têm idade pra serem pais dos SEUS pais. E quer queira, quer não queira… Isso reflete e mto em quem eles são e em quem eles queriam que eu fosse. Entenda: eu já bato de frente em mta coisa com eles. E questiono diariamente. Mas infelizmente uma coisa eu não consigo mudar. Toda vez que eu tento bater de frente com eles, sou sempre eu quem sai perdendo. Não adianta, não importa o que eu diga, não importa o que eu faça: eu NUNCA tenho razão, NUNCA é o suficiente, NUNCA tá bom. E ainda tem um agravante: meus pais são velhos. Tipo, idosos mesmo. Vc já tentou discutir e mudar a cabeça de uma pessoa que tá ficando gagá? Parece zoeira e exagero da minha parte, mas acredite, é uma realidade bem tensa. Não tô de brincadeira… Isso piora/agrava ainda mais os estereótipos dos dois. Tanto da minha mãe, quanto o do meu pai. Meu pai é o típico chefe de família machão e minha mãe a esposa passiva e sobrecarregada. Eu tenho mto exemplo do que é errado no mundo, dentro da minha própria casa… E vc sabe mto bem como é: por mais que a gente queira fazer e acontecer, o mundo não ajuda. Tô nessas desde meus 14 anos… Nesse desespero de ganhar minha independência. Mas vc, em contrapartida, teve mto discernimento de ir atrás de informação e ajuda… Eu tô vivendo dentro dessa prisão e dessa espiral de abuso a mto tempo… Na minha época não havia essa manifestação linda, essa luta, essa facilidade de encontrar irmxs e perceber que vc não é uma aberração, que tem mta gente igual à vc. E isso faz mta diferença! Fora as bostas pelas quais eu já passei. Das confianças desmerecidas… Das esperanças que no fim foram inúteis… De toda merda que já tive de engolir, por falta de… sorte? Talvez.”

Divisória

Amigues, o intuito aqui é botar pra fora aquilo que tá entalado. Sem vergonha, sem pudores, sem Have you confessedpapas na língua e sem frescura. Precisávamos de um ambiente seguro e amigável para sermos nós mesmos: aqui podemos e devemos dizer o que sentimos e pensamos! Ganhamos hoje esse cantinho especial aqui na coluna Nerdiversidade, nesse coletivo maravilhoso que é o Minas Nerds. Eu, N-b.Cutie, estarei esperando e-mails sempre. Seremos amigues anônimos! Vamos usar desse espaço pra expor pro mundo tudo aquilo que temos dentro de nós! Se confesse comigo…

Email: nb-cutie@minasnerds.com.br

Os artigos aqui publicados são de total responsabilidade de suas autoras e editoras.

N-B.Cutie

Umx nerd não binárix que tenta se encaixar nesse mundo cheio de padrões e estereótipos... Alguém apenas tentando sobreviver dia a dia, lutando para não desaparecer: assim como você. E-mail: nb-cutie@minasnerds.com.br Venha pro meu confessionário... <3