O terror dos cientistas

 

A vida na ciência por vezes me remete a filmes de terror. Talvez por que eu goste tanto de pop culture quanto de ciência, talvez porque ambos me divirtam em diferentes níveis, ou talvez seja pura procrastinação. De qualquer forma fiz aqui uma compilação (pra quem curte listinhas), de algumas das coisas que mais aterrorizam a vida acadêmica de qualquer cientista, alunos de pós-graduação (mestrado, doutorado), postdocs e pesquisadores em laboratórios de todo o mundo. Espero do fundo do meu cérebro que vocês, em suas vidas acadêmicas, sejam poupadas dos itens abaixo, mas convenhamos a chance de que isso realmente aconteça é estatisticamente significativa (p<0,05).

 

  • Experimentos com resultados contraditórios. Nos labs em que trabalho aqui nos EUA a gente tem um ditado: “The only thing worse than having no data is having uninterpretable data” ou “A única coisa pior que não ter resultados é ter resultados “não-interpretáveis”. Depois de uma batalha que parecia infindável, de experimentos “time-point”, muito macarrão instantâneo e horas e horas de bancada seus experimentos finalmente indicam que sua hipótese está correta, você se enche de esperança. No entanto, aquele experimento que você faz só pra confirmar ou complementar a sua história te da um resultado oposto ao esperado, um dado que não faz o menor sentido na história que você queria montar. Seu único desejo é que ele desapareça pra você poder seguir com a sua vida.

 

  • p>0,05. Depois de meses de trabalho naquele experimento complicadíssimo, finalmente atingir o “n” que você precisa para as análises estatísticas, ai você faz a análise e obtém p=0,051 e sim, isso já aconteceu comigo.

 

  • Ser “scooped”. Não sei com nós ainda não inventamos uma tradução para o português de “scooped” visto que este medo é o mais clássico em ciência. Para ser “scooped”, basta ser cientista. Se você teve um idéia as chances de outra pessoa no mundo ter a mesma idéia ou uma bem parecida é considerável. Daí você passa anos e anos trabalhando aquela hipótese e quando está escrevendo seu artigo cientifico, alguém publica na sua frente. Começa então a busca por novidades pra incluir no seu trabalho e fazer limonada desses limões.

 

  • Perder aquele experimento importantíssimo por falha técnica. Em um dos meus projetos daqui, eu gero uma célula que demora 45 dias pra obter. Bem, 45 dias e uns 5 mil dólares. Pois bem, obtive as células, extrai proteínas, co-imunoprecipitei, corri um gel, até aqui tudo ok! Entreguei pro meu colaborador fazer a analise proteômica e…. quando ele colocou no aparelho a coluna pela qual ele passou minha amostra estourou e ele perdeu tudo. Dá-lhe começar tudo outra vez.

 

A verdade é que algo semelhante já aconteceu com você ou com colegas seus de laboratório. Mas aí entra uma das características dos bons cientistas, resiliência. É essa nossa teimosia em querer continuar pesquisando, investigando, estudando, mesmo quando a ciência só quer mesmo saber de nos passar rasteira. Mas como eu sempre digo para meus colegas de profissão, principalmente os que estão começando: Se o maior problema da sua vida é o experimento que não deu certo, é porque a vida está muito boa!

 

E você já foi aterrorizado por algum desses episódios?

 

Revisão: Isabelle Tancioni


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Helen Cristina Miranda

curiosa de nascença/ cientista de profissão