Sobre seguir em frente, e esbarrar com a arrogância da imprensa jovem.

Plantando para colher no futuro

Quando comecei a me aventurar nesse universo de cosplay de comics, a Marvel ainda nem tinha lançado seu primeiro Homem de Ferro. Isso quer dizer que não era algo muito popular na época, e não eramos exatamente muito bem recebidos nos eventos (sim, muito fã de anime literalmente zoava quem fazia comics como indigno de ser cosplayer, mas não procurem entender o caso). Tive alguma dificuldade para conseguir qualquer coisa na época, pois os fãs de comics em geral mal faziam cosplay, e os cosplayers mal conheciam as comics, mas eu procurava esforçadamente por pessoas que pudessem compartilhar desse mesmo gostinho e mostrar aos jovens que não tinha absolutamente nada de anormal e juntar a galera de comics aos eventos de cultura nerd, afinal eramos todos fãs de quadrinhos, seja ocidental ou oriental!

Os eventos perceberam primeiro o potencial que os cosplayers de comics poderiam ter, antes mesmo do público, e começaram a nos chamar no formado grupo ComicsCosplayBr para propagar um pouco a cultura dos quadrinhos ao público jovem, e nos conectar com os fãs mais antigos. Mas a verdade é que nunca entrei nesse universo pelo cosplay, desenhar e trabalhar com pessoas relacionadas ao universo de quadrinhos sempre foi algo presente em minha vida. Paralelo ao hobbie, eu já fazia matérias, lançava colunas e cobria alguns eventos fora do colan colorido. Eu observava como funcionavam os eventos lá fora, e me perguntava quanto tempo demoraríamos para fazer o mesmo no Brasil? As prés, as comic cons, os encontros de grandes grupos cosplays, tudo isso era algo que como fã eu desejava, e notei que eu mesma teria que ir atrás para conseguir algo enquanto ninguém tinha começado a fazer isso por aqui.

xmen
Pré com James McAvoy (Foto: Manuela Scarpa/Photo Rio News) via revistaquem

Quantos e-mails… enviei e-mail pra muita gente, repetia, e aguardava a resposta que nunca vinha, como qualquer dono de blog e site de quadrinhos passou e ainda passa. Criei o primeiro concurso cosplay voltado pra esse público (com o auxílio de diversos amigos, obviamente), fui para vários jornais e eventos promover o hobbie. Curiosamente consegui antes entrar em cabine de imprensa do que convencer as produtoras a fazer algo para os fãs numa pré-estreia! Com os anos (e pode coloca pelo menos 10 nessa conta), fui conseguindo meus contatos e amigos no meio, e algumas conquistas foram chegando naturalmente, enquanto eu sempre me focava em criar para todos algo que gostaria que fizessem por mim. Deu trabalho, mas tive a chance de conhecer muita gente bacana, até que finalmente pude trocar a vida de cabines pelas prés, afinal é sempre muito mais divertido estar com os fãs gritando do que levando tudo a sério numa cabine (que aliás, tem que ser assim lá).

Essa semana foi a vez de irmos a pré de Guerra Civil, e sempre agradecerei aos organizadores que nos deram essa oportunidade. No entanto, enquanto estava me arrumando no banheiro do shopping, ouvi uma conversa no mínimo curiosa… duas jovens entraram revoltadas no banheiro, esbravejando contra a condição “terrível” que eram obrigadas a passar. Elas diziam que nunca lhes davam a oportunidade de entrar nas cabines de imprensa, que eram pessoas que trabalhavam a sério com o jornalismo e que era ridículo que aquele bando de cosplayers (insira um tom de nojo nessa parte) fossem chamados para as cabines e elas não (note que era uma pré, não uma cabine)! E pior, eles iam pra Comic Con num dia que só devia ser delas, trabalhadoras sérias do meio! Cogitou até mesmo fingir que era cosplayer pra conseguir vantagens. Não preciso dizer o asco que senti daquela conversa, né? Anos batalhando por um espaço, experiência em cabines escrevendo matérias, chamando a galera para prés, reunindo fãs, e encontro essa moça tentando diminuir o pessoal em troca de exaltar a si mesma como mais importante num dia que sequer era dedicado à imprensa.

“Seje menas”

O caso me lembrou dos diversos e-mails, do esforço, o preconceito, as ofensas, dos anos que caminhei até ali para encontrar uma juventude que prefere diminuir quem consegue algo ao invés de ir atrás pelos seus próprios pés. Cosplayers não são menos que nenhum fã, são fãs como qualquer outro, mas com roupas coloridas e passando calor a beça. Eles são os leitores do “trabalho sério” dessas pessoas, e consomem o mesmo jornalismo que paga as contas delas. Não estão acima de ninguém, e nem abaixo, mas ainda vejo membros da imprensa (e não é a primeira vez que presencio isso) tentando menosprezá-los. Se você está lendo essa matéria e é da imprensa, por favor, não seja arrogante e saiba que o cosplayer também teve um trabalho duro para chegar lá, lembre que ele é seu leitor, talvez até seu colega de trabalho, seu entrevistado, seu amigo, um ser humano como outro qualquer. Não caiam nessa armadilha, e aprendam a agregar as pessoas ao invés de afastá-las. Você não é tão diferente delas quanto pensa…

Hoje sigo em frente, um pouco cansada mas muito orgulhosa de tudo que fiz.

 

 

Imagem de capa via.


Os artigos aqui publicados são de total responsabilidade de suas autoras e editoras.

Dandi

Ilustradora, designer, cosplayer, gamer, fissurada em RPG e cinema. facebook.com/DandiCosplayer/