A ficção científica e o futuro

Texto da Lady Sybylla para o MinasNerds


A ficção científica costuma, com frequência, ser associada ao futuro. É uma visão comum para muita gente e há um certo fundo de verdade nisso. Ao olharmos os filmes e séries de TV, por exemplo, muitos deles nos mostram um ambiente do futuro, com carros voadores, naves espaciais, clones e robôs. Séries como Continuum, Defiance e Star Trek reforçam esse estereótipo.

Mas nem tudo o que é ficção científica tem o futuro como seu palco. E os enredos steampunk? Como fica o futuro do passado? Ou o passado futurista? Como podemos classificar essa ficção científica baseada nas tecnologias a vapor como o futuro?

Person of Interest é uma série de ficção científica em que uma inteligência artificial consegue identificar criminosos ou vítimas com antecedência; porém, ela se passa no agora, no hoje, neste momento, com a tecnologia à nossa disposição. Não é sobre o futuro, assim como Stargate, que tem boa parte de sua mitologia baseada no passado e em alienígenas que posam de deuses.

O futuro é mutável, maleável, tal como a argila na mão do oleiro. A forma como o desenhamos e pensamos em previsões acaba sendo diferente em cada época. Futurólogos, no século XIX, imaginaram uma Paris no século XXI com balões, dirigíveis e potentes telégrafos. De Volta Para o Futuro pensou num 2015 com tênis que se autoamarravam, hologramas e pizzas em miniatura que precisavam de hidratação para crescer. Blade Runner pensou numa Los Angeles em 2019 com androides tão parecidos conosco que são necessários longos e exaustivos testes para identificar um.

O futuro é mutável, maleável, tal como a argila na mão do oleiro. A forma como o desenhamos e pensamos em previsões acaba sendo diferente em cada época.

A ficção científica não tem obrigação de prever o futuro. Há quem diga que sua função é evitá-lo. Nenhum gênero literário ou forma de expressão artística tem obrigação de prever o que quer que seja. Essa errônea constatação fez muita gente torcer o nariz para a ficção científica, alegando que não há mais nada para se falar dentro dela, já que o futuro chegou. Nós nem arranhamos o futuro, porque ele é impossível de ser alcançado. Sempre teremos novas fronteiras, sempre teremos novos desafios e novos temas para tratar na FC. Não existem temas chatos, existem autores chatos.

E pense em todos os enredos que mostravam o futuro dentro da ficção científica. Você gostaria de viver na Matrix? Ou naquela Los Angeles poluída e superpopulosa? Se Arthur C. Clarke conseguiu falar de satélites em órbita com propriedade, isso é uma particularidade de sua narrativa e da observação acurada das tendências tecnológicas da época, não uma previsão. Admirável Mundo Novo nos dividiria de acordo com aspectos biológicos e psicológicos, em castas dopadas por soma, nas quais o amor e a gravidez são abomináveis. Ainda bem que esses futuros nunca se concretizaram!

Não existem temas chatos, existem autores chatos.

Talvez, em vez de falar do futuro, devêssemos falar de arrojo tecnológico. Uma sociedade vitoriana com computadores de madeira e aviões a vapor está tratando de um arrojo tecnológico baseado no conhecimento e nas técnicas disponíveis na época, antecipando o maquinário que temos hoje. E o arrojo depende da época em que se vive ou escreve algo.

A ficção científica tem que nos entreter, espantar, intrigar e chocar. Previsão do futuro é para futurólogos e profetas. Como disse Ursula K. LeGuin, a função do romancista é mentir.


Lady Sybylla é geógrafa, professora, escritora e mestra em Paleontologia. Fã incondicional de ficção científica e capitã da Frota Estelar, Escreve no site Momentum Saga.


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