Da bancada para o escritório

Por Ana Paula de Almeida Aranha

 

Desde muito cedo havia decidido que queria seguir carreira acadêmica. Me encantava imaginar estar num laboratório rodeada de bancadas, geladeiras e vestida de jaleco. Pois assim foi. Entrei para faculdade de Ciências Biológicas, segui para um mestrado em Biotecnologia e finalizei com um Doutorado na mesma área. Passei anos respirando os ares acadêmicos, aprendi a ler e escrever artigos científicos; minha vida era norteada por congressos científicos e pedidos de bolsas. Durante muitos anos segui esta paixão. Até que um dia me dei conta de que não conseguia mais me projetar dentro de um laboratório de pesquisa.

Em paralelo a essas duvidas, surgiu uma oportunidade na minha vida pessoal de ir morar na França. Pronto, era o que eu precisava para solucionar meus questionamentos. Cheguei na cidade de Lyon decidida a entrar para indústria farmacêutica. Ou seja, fiz 2 mudanças de uma só vez, sai do país e mudei de carreira! Com um diploma de doutorado embaixo do braço e conhecimento da língua francesa, o que mais precisava para encontrar o emprego dos meus sonhos? Se somente esses dois critérios fossem suficientes… Enfim, eu estava longe de imaginar que o caminho era tortuoso. Hoje 8 anos depois, já passei por 3 empregos diferentes, fiz um MBA e durante essa trajetória, encontrei pessoas muito valiosas.

Ao aceitar o convite de escrever nesta coluna, também aceitei o desafio de refletir de maneira pragmática sobre meu caminho até aqui. O curioso dessa história é que hoje me dou conta que nem sempre estava consciente de todas as opções que tinha e que minhas decisões foram tomadas levando em consideração uma mistura de experiências passadas e intuição. Refletindo sobre esses anos passados no exterior e em como lidei com essa transição, acredito que fiz escolhas certas com as informações que tinha no momento.

Meu foco nesse texto é falar um pouco da minha experiência na transição da carreira acadêmica para indústria farmacêutica. São dois mundos que ainda no Brasil são muito distantes um do outro. Cada um com suas vantagens e inconveniências. Cada um com seu jeito de ser.  

Meu objetivo final era trabalhar a partir da Europa com os produtores locais de vacinas em países em desenvolvimento. Achava que meus anos passados no Instituto Butantan na área de pesquisa deviam ser valorizados. E isso nem sempre é fácil; saber valorizar suas experiências quando há uma diferença grande entre os dois setores. Também é muito importante capitalizar essas experiências. Capitalizar as experiências é saber usá-las ou adaptá-las na hora certa com as pessoas certas. O conhecimento está lá, mostrá-lo de maneira eficaz e com o vocabulário correto e adaptado à situação e à área é imprescindível.

Quero deixar claro que as experiências que vivi são relatos sob minha perspectiva e que provavelmente outras pessoas terão outras experiências, outras facilidades e/ou outras dificuldades. Trabalhando para o setor privado aprendi expressões típicas de escritórios, ou seja entrei no molde.

Fazendo essa transição entre a pesquisa e a indústria o que eu aprendi ao longo desses anos foi:

  • Dominar o indioma: saber a língua não é suficiente, expressões e códigos implícitos e inerentes a todos os setores de atuação existem. Conhecer essas expressões ou códigos podem ajudar na hora de uma entrevista, numa reunião ou simplesmente durante uma conversa telefônica.
  • Currículo: pode parecer trivial, mas saber escrever um currículo nos modelos do setor requer tempo, requer muitas correções. Guardo até hoje meus primeiros modelos de currículos que mandei; a diferença com o que faço hoje é gigante.
  • Decifrar o que há por trás de uma descrição de vaga: entender o que significa exatamente o título da vaga faz você ganhar tempo. Cada setor tem suas próprias expressões ao designar a mesma vaga. Entender também os tipos de contratos que existem e como a profissão é regulamentada, também fazem parte da transição de carreiras.
  • Rede de contato: ter uma rede de contato e saber usá-la são primordiais. Isto não quer dizer que basta ter uma rede de contatos que o resto funciona. Longe disso. Uma boa rede de contatos te permite saber onde há vagas, antes que sejam publicadas e se demarcar digitalmente falando em relação a outro candidato que não esta conectado. Portanto, crie um perfil on-line. Há vários sites de redes profissionais disponíveis. Avalie aquele que mais corresponde ao que você procura, observe como as outras pessoas se descrevem, qual o tipo de foto ela coloca no perfil e também se há recomendações publicadas. Tudo isso faz parte da imagem digital que será observada pelo recrutador.  
  • Conhecer o setor privado: somente aquele que trabalhou no setor público sabe o quão diferente é a realidade entre esses dois mundos. A passagem de um setor para outro pode ser traumatizante. Reuniões semanais, deadlines curtos, estresse, adaptação aos diferentes modos de gestão humana e participação de projetos formatados, tudo isso faz da rotina diária do setor privado.
  • Estudar: pode parecer estranho, mas quando iniciei na indústria farmacêutica tinha impressão de que não sabia nada, de que nunca havia estudado. Muita calma nessa hora, procure identificar o porquê deste sentimento. Às vezes é apenas a maneira como as coisas são explicadas; o vocabulário muda, as expressões mudam. No entanto, não tenha medo de perguntar e muito menos medo de estudar, transforme-se num autodidata.
  • Flexibilidade e adaptação: essas duas características me ajudaram e muito a encarar os desafios iniciais. Ser flexível não significa aceitar tudo, significa ser compreensível e aberto suficiente a idéias e rotinas novas. Adaptar-se requer tempo, paciência e quando você menos espera, aquilo que antes demandava esforço parece mais fácil e dá mais prazer. A fase de adaptação nem sempre é atingida, e isto significa, ao meu ver, que as coisas não estão bem e é necessário fazer uma avaliação do porquê.
  • Definir um objetivo: quando estava nos meus questionamentos, tive muita dificuldade (e ainda tenho) em definir qual era o meu objetivo. Sabia que queria ir para indústria farmacêutica, mas não sabia o que queria fazer. Sabia que queria manter contato com setor de vacinas. Sabia que gostava de estabelecer relações entre as pessoas. Foi então que descobri a área de “Public Affairs”. Uma área relativamente nova na indústria farmacêutica, uma mistura de gerenciamento entre as relações políticas, econômicas e social com o foco, no meu caso, em vacinas. Leia, pesquise, pergunte, se interesse. Só assim você saberá identificar melhor o seu objetivo. E nunca se esqueça, nada é para sempre. O teu objetivo pode mudar, então fique sempre atento aos sinais externos e principalmente aos seus sinais internos.
  • Nem sempre você vai conseguir chegar no seu objetivo inicial: é o meu caso… talvez por ser uma área muito especifica e portanto muito restrita, o acesso é difícil. Não há milhões de vagas, requer muita experiência, e principalmente uma capacidade de comunicação de alto nível. Mas o que importa é identificar essas características e saber avaliá-las.

 

O que você tem hoje é suficiente para a vaga dos sonhos? E se você tentasse adaptar o sonho a aquilo que é real, aquilo que você pode capitalizar imediatamente?

 

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Ana Paula de Almeida Aranha

Vaccine Project Manager, Lyon, França.

PhD: Biotechnology 

MBA: Management and Marketing for Health Industries 

 

 

 

Revisão de texto: Helen Miranda 

Imagem de destaque: composição feita com imagens processadas pelo site  https:/www.powerpuffyourself.com/#!/en  e com figuras do site  http://www.servier.com/Powerpoint-image-bank


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Isabelle Tancioni

Sou veterinária, cientista, hipster, Tiki, nerd, geek. Gosto de comics, música, cartoons, animais, plantas.