Mesas inclusivas para mães que jogam RPG

Eu me lembro bem daquele dia. Eu estava feliz. Muito feliz. Feliz feito um passarinho com uma batata frita. Como todos os anos, maio-junho era época de Encontro Internacional de RPG. Rever amigos e conhecidos que só se via uma vez por ano. Comprar livros e ficar ostentando. Fuçar no leilão de livros usados. Olhar as mesas de jogo, discutir sistemas. Ver uns boards. Aquelas coisas todas de convenção.

Mas aquele EIRPG tinha algo diferente de todos os outros antes. Ele aconteceu oito dias depois do meu filho nascer. E esse meu filho de oito dias de idade estava lá com a gente, eu, o pai dele, nossos amigos.

Algumas pessoas acharam o máximo. Algumas pessoas entenderam que se aquele era um espaço importante para nós, era natural que o pequeno fosse apresentado ao mundo ali. Algumas pessoas entenderam que eu continuava sendo uma jogadora de RPG convicta e que nada no mundo poderia mudar isso, e portanto era natural que eu estivesse ali, do jeito que dava, e o jeito que dava era carregando o filho junto.

Mas eu também ouvi uma grande quantidade de barbaridades. Esse foi o dia em que descobri que mães não são bem vindas nos lugares, que crianças são vistas como um estorvo e sistematicamente excluídas da vida em sociedade – o que por consequência exclui as mães também. E fui descobrindo como às vezes coisas simples poderiam evitar isso.

Meu filho vai fazer onze anos neste maio e conhece RPG desde que era um bebê brincando com seu D4 de pelúcia. Ele tem seus próprios interesses e vivências, mas ultimamente tem se interessado pelo assunto, e eu acho isso ótimo.

E já que todo mundo anda nessa onda de “eu amo minha mãe”, que tal pensar seu grupo de RPG como um ambiente onde mães com crianças não sejam excluídas? Lá vão algumas observações simples para pensar:

-Não veja a criança como um problema.

Esse parece até bobo, mas não é não. Mudar a perspectiva com que pensa em um assunto faz muita diferença na forma como lidamos com aquilo. Ter uma criança por perto na hora de jogar pode ser complicado? Pode. Mas até ai, a forma como o livro foi estruturado dificultar na hora de montar personagem também é complicado. Acertar as datas possíveis para todo mundo é complicado. Achar aquele suplemento no meio da estante com trezentos livros é complicado.

Mude a perspectiva. A gente faz centenas de adaptações para o jogo funcionar, e nem mesmo repara nelas. Esqueci a ficha e anotei no caderno os status. O dado estava ilegível e pintei os números com esmalte. A mesa precisa ser mudada de lugar porque está batendo sol na gente. Não rolou jogar na casa de ninguém e fomos para uma praça.  O bebê estava nervoso e ficou passando de colo em colo durante o jogo. Essa presença vai ser só mais um detalhe para adaptar junto com essa centena de outras coisinhas que vamos ajustando.

-Pense em qual horário e local vai funcionar melhor para a mãe.

Quando meu filho era bebê, a gente jogava a noite porque ele ficava dormindo. Isso era possível porque o jogo acontecia na minha casa. Cada criança e cada mãe vai ter dinâmicas de horário diferentes, e o mundo não vai acabar se por um ano ou dois o grupo levar isso em conta na hora de marcar o jogo. A mãe precisa sair da casa dela e ir para o local de jogo? Pegar ônibus cheio com criança pequena é mais complicado, será que não dá para ajustar o horário para evitar isso? Dá para pensar esquemas de carona para facilitar? O pai da criança não está no grupo de jogo, dá para marcar as sessões no dia dele ficar com o filho, ou em um lugar onde ele possa ficar em um ambiente próximo com a criança enquanto a mãe joga? Que horário e dia da semana funcionam melhor para encaixar na rotina da criança?

E testar várias opções até achar a melhor – ou fazer de vários jeitos diferentes porque não existem respostas únicas.

Pensar no tempo de duração da sessão de jogo, ou em como ter pausas durante sessões muito longas, também é importante. Crianças tem um tempo de atenção curto, então de tempos em tempos vai ser preciso dar uma atenção extra e talvez variar o ambiente. Nada muito diferente do amiguinho fumante que precisa de um cigarro no meio do jogo, sabe.

-Como organizamos o espaço?

A gente chama o jogo de RPG de mesa, mas a mesa não é a única opção. Eu tenho dois grupos de jogo. Um funciona com uma mesa bem tradicional. O outro usa uma lousa na parede para descrição de mapas e combates e jogamos espalhados por sofás, as planilhas presas em pranchetas. Quando o filho era pequeno, dava para deixar ele brincando no chão no meio dos jogadores.

Pensar em diferentes formas de organizar o espaço onde o jogo acontece torna mais fácil que a mãe consiga prestar atenção no jogo e manter um olho no filho. Todo mundo em volta de uma mesa é só uma possibilidade e talvez não seja só a criança que se saia bem em variar o jeito como ocupamos o espaço. De todo mundo no chão da sala sentado no tapete até com a mesa no quintal, é bem legal para todo mundo usar diferentes espaços.
Sempre: pense no espaço da criança, no espaço que a criança vai usar durante o jogo. Do mesmo jeito que prepara o espaço para os jogadores, ajeite o espaço para a criança.
-É preciso uma aldeia para criar uma criança

Seres humanos são animais gregários. Uma das coisas que isso significa é que nossos filhotes hiper dependentes foram pensados para o cuidado coletivo. Não foram feitos para um casal cuidar, menos ainda uma mãe sozinha. Filhotes devem ser cuidados pelo bando.

Aprender a segurar um bebê ou ajudar a trocar uma fralda, distrair uma criança ou ajudar a alimentar não tem relação nenhuma com ter filhos ou querer ter filhos. É uma questão de solidariedade básica e deveria ser conhecimento geral. Cuidar da criança durante o turno da mãe não deve ser nada demais. Percebeu que a criança está nervosa ou a mãe está atrapalhada para dar conta? Faça a pergunta mais simples e mais amada do Brasil: “o que eu posso fazer para ajudar?”

Rapidinho você vai perceber que tem coisas que não precisa perguntar, pode direto oferecer. “Deixa que eu seguro ele enquanto você rola os dados”. “Aqui, vem desenhar sentado do meu lado para a mamãe jogar.” e por aí vai.
E não dê nada, nada, nada para a criança consumir sem o aval da mãe. Não questione as escolhas dela sobre o que a criança come ou não, e entenda que existem crianças com alergias alimentares. “Ah mas ele ficou com vontade!” já levou muita criança para o hospital.

 -Leve em conta a presença da criança

Olha, isso vale não só para as crianças, mas ajuda um bocado com namorades e outras criaturas não jogadoras que estarão presentes na hora do jogo. Lembre que elas existem, não vão estar jogando e que vão estar com um humor melhor se aquele tempo for divertido para elas também.

Teve uma época que uma amiga namorou um cara que jogava comigo. Ela esticava um colchão, puxava um Stephen King e uma pilha de snacks, e de vez em quando dava risada das nossas piadas. Conheci quem gostava de cozinhar enquanto as pessoas jogam, quem combina de ver um filme. E tem quem se diverte assistindo o jogo.
Mas o fato é que se a pessoa se sente incluída, ela fica mais confortável e todo mundo fica melhor. O mesmo vale para as crianças. Descobrir o que elas gostam de fazer ou o que precisam para se distrair e colaborar para isso. Dependendo da idade ou da criança, fazer uma ficha simplezinha e deixar ela jogar com o grupo (na rua de vocês também tinha os “café com leite” no meio do pega-pega?), rolar dados, pintar desenho, desenhar os personagens.


Às vezes a gente se pega pensando no futuro dos nossos hobbies. Garantir a inclusão de crianças é uma das grandes formas disso acontecer. Nos dois Encontros de Mulheres RPGistas, organizados pelas Minas de Moria, que aconteceram em SP, havia a “Toca dos pequenos”, que permitia que não só as mães pudessem aproveitar o encontro em paz, mas também colocava as crianças para jogar, uma iniciativa que vale a pena conhecer e levar em conta.

Eu sei que parece até absurdo esse tipo de postagem. Mas infelizmente ainda é necessário. Quando chegar um tempo onde a exclusão social de crianças e mães for passado, essas coisas serão óbvias. Mas por enquanto, vamos insistir nelas até que se tornem naturais.


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