Pesquisa mostra ligação entre Zika “brasileiro” e malformações congênitas

O vírus Zika já foi assunto de nossa coluna aqui e sua etiologia foi muito bem explicada pela nossa colaboradora Paula Mello. Trata-se de um arbovirus (família Flaviviridae) identificado pela primeira vez em Macacos Rhesus em 1947 na floresta de Zika na Uganda. Até o inicio do século 21 não houve registro de infecções significativas causadas em humanos. Porém, em 2007 foi registrado um surto de febre, erupções cutâneas e conjuntivite atribuídos a uma cepa asiática do Zika vírus aliado já aliado ao vetor, o mosquito Aedes aegypti. Em 2013, o vírus chega ao Brasil e se espalha para outros países da américa latina.

 

A cepa brasileira do vírus Zika tem sido amplamente associada à malformações congênitas e doenças neurológicas como a microcefalia e a síndrome de Guillain-Barré, porém ainda faltam evidências científicas que confirmem essa associação. A pesquisa mais recente, publicada esta semana na revista Nature, sobre os efeitos do Zika reforça a correlação entre o vírus e os casos de microcefalia. O trabalho foi liderado por brasileiros de três laboratórios, dois no Brasil, da Profa. Patrícia Beltrão e Prof. Jean Pierre Peron e o laboratório em que eu trabalho aqui nos Estados Unidos do Prof. Alysson Muotri.

 

Neste trabalho os pesquisadores utilizaram em modelos animais e modelos baseados células-tronco, que também já discutimos aqui. Para o modelo de células-tronco, cientistas utilizaram o que chamamos de neuroesferas ou “mini-cérebros” (nome popular utilizado pela mídia). Neste modelo, células-tronco pluripotente induzidas são diferenciadas em progenitores neurais que quando colocados em suspenção, formam esferas que contém diferentes células do cérebro.

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Neuroefesras ou “mini-cerebros”

Em observação semelhante à que havia sido reportada, por outro grupo de pesquisa brasileiro, do Prof Stevens Rehen, em Abril deste ano utilizando o Zika vírus africano, as neuroesferas infectadas com o Zika vírus brasileiro mostraram massiva morte celular e uma diminuição significativa em seus tamanhos. Porém, ainda faltavam dados que traduzem com mais precisão os sinais clínicos observados nos bebês infectados pelo vírus. Por isso, resultados da publicação da Nature foram decisivos, uma vez que mostraram os efeitos causados pelo vírus em modelos animais.

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Para experimentação animal, os cientistas utilizaram duas linhagens de camundongos, conhecidos como SJL e C57BL/6. Camundongas grávidas de ambas linhagens foram infectadas intravenosamente com cepas do Zika vírus brasileiro. Analise morfológica e histopatológica dos filhotes de SJL mostraram uma série de malformações congênitas, incluindo diminuição corporal generalizada, sinais de microcefalia, defeitos cerebrais e morte celular. Já os filhotes de C57BL/6 não mostraram nenhum sinal de anormalidade fetal. Os pesquisadores suspeitam que este resultado se deve a uma melhor resposta imunológica desses camundongos.

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De qualquer forma, os resultados apresentados confirmam que o Zika vírus brasileiro possui a capacidade de ultrapassar a barreira hemato placentária e fornecem mais evidencias da ligação entre o vírus e as malformações congênitas.

 

O que falta?

 

Ainda não se sabe exatamente qual mecanismo o vírus Zika usa para infectar e matar células cerebrais. Só com um conhecimento mais detalhado das vias intracelulares de atuação do vírus poderemos desenvolver terapias eficazes contra essa infecção.

 

Muitos estudos têm sido publicados recentemente sobre o Zika, mostrando empenho dos cientistas nacionais e internacionais. Este esforço coletivo têm se traduzido em importante conhecimento sobre os efeitos desse vírus. Os esforços agora serão também direcionados ao desenvolvimento de vacinas e possíveis tratamentos.

 

REVISÃO

Isabelle Tancioni

 

REFERÊNCIAS

http://www.nature.com/nature/journal/vnfv/ncurrent/full/nature18296.html

http://science.sciencemag.org/content/early/2016/04/08/science.aaf6116


Os artigos aqui publicados são de total responsabilidade de suas autoras e editoras.

Helen Cristina Miranda

curiosa de nascença/ cientista de profissão