Pagu: pioneira também dos quadrinhos

Sempre admirei demais Pagu. Sua entrega ao que acreditava foi uma grande inspiração na minha adolescência, quando eu era ativista política e dedicava todo meu tempo livre para mudar o mundo. Patrícia Galvão foi escritora, jornalista, diretora de teatro e desenhista, além de militante política combativa. Nasceu em 1910 e ficou conhecida por sua relação com os modernistas de São Paulo, se tornando uma das figuras importantes do movimento. Seu trabalho como quadrinista não foi a sua obra mais marcante, mas é importante o registro de sua passagem pela nona arte por conta da grandeza da sua história. Não por acaso ela foi escolhida para batizar o primeiro selo de quadrinhos feitos somente por mulheres.

Pagu
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Aqui eu abro um parêntese sobre minha motivação em olhar para o passado: revisitar a história dessas mulheres lutadoras que nos antecederam dá uma perspectiva completamente diferente ao presente. Vez em quando eu vejo meninas jovens (já não sou mais tão jovem, então me permito falar assim) dizendo que são as primeiras a lutar pela liberdade das mulheres e conseguir resultados melhores, ou coisas do tipo, e isso me dói muito, principalmente por não ser verdade. Vivemos um momento de especial retrocesso agora, em que vemos a representatividade das mulheres chegar a zero novamente nos altos círculos do poder. Eu, por exemplo, tive que lutar para que meu pai não tivesse o direito de me agredir e até de me matar sem que nada acontecesse com ele, porque eu já era adolescente quando começou a valer o Estatuto da Criança e do Adolescente. Então precisamos entender o contexto histórico de cada mulher lutadora que nos antecedeu e celebrar suas conquistas para não esquecer que passos são dados um de cada vez.

Tenha até pesadelos, se necessário for. Mas sonhe.
Pagu

 

As tiras de Pagu

No inicio dos anos 1930, Pagu lançou o jornal “O Homem do Povo”, ao lado de seu companheiro Oswald de Andrade. A publicação teve apenas oito edições, pois foi proibida na Era Vargas. Ela dirigiu a publicação, ilustrou e fez tiras para cada uma das edições e escreveu sua coluna “Mulher do Povo”. O site Lady’s Comics publicou todas as tiras conhecidas de Pagu, as oito feitas para este jornal

As tiras Malakabeça, Fanika e Kabelluda contam a história de um casal rico que não teve filhos e começa a morar a a sobrinha pobre, a Kabelluda, que protagoniza cenas de subversão e contestação dos valores morais da sociedade do início do século XX (mas que poderiam falar sobre os tempos atuais também). Mostram bem a veia política da autora, que não era de meias palavras.

A história em Quadrinho chamada: Malakabeça, Fanika e Kbelluda, descreve situações de Kbelluda, a sobrinha pobre de Malakabeça e Fanika, um casal que não teve filhos.
A história em Quadrinho chamada: Malakabeça, Fanika e Kbelluda, descreve situações de Kabelluda, a sobrinha pobre de Malakabeça e Fanika, um casal que não teve filhos.

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Seu trabalho como desenhista teve inspiração nas obras modernistas, em Tarsila do Amaral principalmente. Seus desenhos ilustraram a Revista de Antropofagia, entre outras publicações da época, e alguns deles foram publicadas no livro “Croquis de Pagu: e outros momentos felizes que foram devorados reunidos” e podem ser vistos no site Viva Pagu.

Croquis de Pagu
Croquis de Pagu

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Modernistas e a miliância política

Pagu se aproximou dos modernistas de São Paulo aos 18 anos, quando passou a integrar o Movimento Antropofágico. O apelido pelo qual ficou conhecida foi dado pelo poeta Raul Bopp como uma contração das duas primeiras sílabas do seu nome (ele achava que o nome dela era Patrícia Goulart e não Patrícia Galvão).

Se filiou ao Partido Comunista em 1930 e em uma greve dos estivadores de Santos, em 1931, foi a oradora em uma das assembleias dos trabalhadores e presa por isso pela polícia política de Getúlio Vargas. Ela é considerada, por esse episódio, a primeira mulher presa por motivação estritamente política no Brasil. Esta foi a primeira de 23 prisões.

Em 1933, deixou o Brasil e acabou presa em 1935, em Paris, por ser comunista estrangeira e com documento falso. Passou cinco anos na cadeia e decidiu, após sair em liberdade, se desfiliar do Partido Comunista e defender um socialismo de linha trotskista.

Pagu
Pagu

 

Literatura e teatro

Autora de diversos romances, alguns lançados com pseudônimos, Pagu dava o tom político também no seu trabalho de ficção. O romance “Parque industrial”, sob o pseudônimo de Mara Lobo, foi autopublicado em 1933 (ela foi pioneira na publicação independente também!). Este é considerado o primeiro romance proletário brasileiro. O livro “Famosa Revista” foi lançado em 1945, em parceria com seu segundo marido, Geraldo Ferraz. Também escreveu contos policiais sob o pseudônimo King Shelter. que eram lançados pela revista “Dectetive”, dirigida por Nelson Rodrigues.

Nos anos 1950, começou a se dedicar ao teatro, após frequentar a Escola Dramática de São Paulo. Traduziu peças e produziu espetáculos principalmente em Santos. Uma das peças que traduziu e dirigiu foi “Fando e Liz”, de Fernando Arrabal, que serviu de estreia para Plínio Marcos no teatro (essa peça também foi adaptada para o cinema por Alejandro Jodorowsky, para quem quiser conhecer).

Pagu
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Jornalismo

O Brás Jornal foi o primeiro a publicar textos de Pagu, quando ela ainda era adolescente. Além dos jornais e boletins que produziu, também escreveu para Diário de Notícias, A Noite, Diário de São Paulo, entre outros. Seu último texto foi o poema “Nothing”, publicado no jornal A Tribuna, de Santos, em 23 de setembro de 1962. Ela faleceu pouco tempo depois, em dezembro do mesmo ano, após tentar, sem sucesso, um tratamento contra o câncer em Paris.

 

Saiba mais

Existe muita informação sobre Pagu na internet. O site Viva Pagu, feito para comemorar seu centenário, é uma fonte interessante e reúne fotos, textos, desenhos, todos do acervo do Centro de Estudos Pagu Unisanta, dirigido pela pesquisadora Lúcia Teixeira.

O documentário Eh Pagu, eh! (1982), de Ivo Branco, pode ser visto na internet e também é possível encontrar no youtube o filme biográfico Eternamente Pagu (1987), de Norma Bengell. E tem o verbete na wikipedia, claro.

 

Nothing
Nada nada nada
Nada mais do que nada
Porque vocês querem que exista apenas o nada
Pois existe o só nada
Um pára-brisa partido uma perna quebrada
O nada
Fisionomias massacradas
Tipóias em meus amigos
Portas arrombadas
Abertas para o nada
Um choro de criança
Uma lágrima de mulher à-toa
Que quer dizer nada
Um quarto meio escuro
Com um abajur quebrado
Meninas que dançavam
Que conversavam
Nada
Um copo de conhaque
Um teatro
Um precipício
Talvez o precipício queira dizer nada
Uma carteirinha de travel’s check
Uma partida for two nada
Trouxeram-me camélias brancas e vermelhas
Uma linda criança sorriu-me quando eu a abraçava
Um cão rosnava na minha estrada
Um papagaio falava coisas tão engraçadas
Pastorinhas entraram em meu caminho
Num samba morenamente cadenciado
Abri o meu abraço aos amigos de sempre
Poetas compareceram
Alguns escritores
Gente de teatro
Birutas no aeroporto
E nada.
Pagu/Patricia Rehder Galvão
Publicado n’A Tribuna, Santos/SP, em 23/09/1962

 


Os artigos aqui publicados são de total responsabilidade de suas autoras e editoras.

Roberta AR

Gosto de escrever (o que acabou virando trabalho) e de café. Participo da cena de quadrinhos independentes desde 2007, atuando principalmente na divulgação e na produção. Também sou zineira e escritora.