Os Dois Lados da Guerra Civil

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Um pouco antes de Guerra Civil estrear os cinemas um tesouro maravilhoso caiu no meu colo. Era o livro “Os Dois Lados da Guerra Civil – Análise Histórica e Filosófica do Maior Conflito entre Super-Heróis” – De Adriano Marangoni, Bruno Andreotti, Iberê Moreno, Mauricio Zanoli, do Quadrinheiros (www.quadrinheiros.com), lançado pela Editora Criativo.

Chamei de tesouro e não foi à toa. Para quem gosta de filosofia, política e história, e melhor: tendo como base uma das maiores sagas da Marvel, no caso, Guerra Civil, o livro é um banquete.

Ele analisa a construção narrativa da história, as contingências sociopolíticas e econômicas responsáveis por sua origem, contextos editoriais e históricos, motivação de seus criadores, desdobramentos de narrativas paralelas e seu impacto em todo o universo Marvel.

Na abordagem histórica, por exemplo, os autores analisam o quanto o clima de apreensão, insegurança e tensão provocado pelo ataque de 11 de setembro ao World Trade Center, nos EUA, influenciou a criação da histórica luta entre Homem de Ferro e Capitão América.

Através do fato, os autores fazem um paralelo entre segurança versus liberdade, mostrando como a postura ideológica de cada herói aborda conceitos como Estado, tolerância, preconceito e controle, traçando comparações inclusive com a Guerra Civil Americana (1861-1865), que acabou moldando a identidade e o senso de patriotismo daquele país e também, batizando o quadrinho.

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Quadrinho é coisa de criança…

Quanto mais o livro se aprofunda em análises comparativas, mais interessante a própria saga fica e a vontade de relê-la de cabo a rabo, agora, com toda a bagagem de conhecimento apresentada pelo livro, é certa. Mas o pulo do gato da publicação é que você não precisa ter lido os quadrinhos para compreender o livro, o que o torna abrangente e acessível a qualquer público.

A questão da postura de cada herói e o time que escolhem é constantemente revista, outro ponto levantado é o papel dos mesmos com relação ao Estado, a lógica e coerência de cada um, na legalidade e fora dela e até que ponto é direito do Estado intervir nas ações desses seres que, na própria história, foram chamados de “pessoas de destruição em massa” (uma clara alegoria à fala do então presidente George W Bush, por ocasião da Guerra do Iraque) desenvolvendo assim uma discussão sobre qual seria a função dos heróis no contexto de uma verdadeira guerra, por exemplo.

Os capítulos dividem-se em : Quem é Quem na Guerra Civil: onde os personagens mais importantes são apresentados com uma minibio, criadores e artistas e papel na trama, Segurança X Liberdade, que apresenta justamente a influência de 11/11, a caça às bruxa e restrições de liberdade apresentadas pelos EUA após o atentado e como isso influenciou a criação da saga,  Guerra Civil e o Brasil- Legitimidade de leis brasileiras, a questões morais de nossa sociedade e porque possuímos certas leis que simplesmente não funcionam, Intolerância e Preconceito – Respostas emocionais e preconceituosas àqueles que, na saga, destoam dos padrões normativos Guerras Civis e Ideologia – O que faz uma questão ideológica acabar em guerra?Análise com base em teorias de pensadores como John Locke, Montesquieu e Jean Jaques Rousseau. Para Quem eles Trabalham? -Se super-heróis existissem, eles estariam sob supervisão do Estado? O pepel do heróis é igual ao do vigilante sem lei? Mídia e Opinião Pública – Radicalismos e censura nos meios de comunicação,  a luta selvagem por cair nas graças da opinião pública presentes na saga e na mídia real dos dias de hoje.

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Segundo Bruno Andreotti do Blog Quadrinheiros, um dos autores, a dualidade dos heróis gera um engajamento maior por parte dos leitores: “A grande sacada da Guerra Civil foi não ter apresentado um dos lados como “certo” e outro como “errado”. Você tem um problema, que é o Incidente de Stamford e a Lei de Registro, e duas posturas definidas. O Homem de Ferro apoiando o registro para garantir a Segurança e o Capitão América contra para proteger a Liberdade. Sem dúvida essa dualidade e a convocação à escolha de um dos lados gera um engajamento maior por parte do leitor, pois ele assume um dos lados e se envolve mais na narrativa. Talvez esse seja um dos elementos que explique o sucesso da saga.”

Também perguntamos para ele como foi pesquisar sobre a aproximação de Guerra Civil com a realidade brasileira, um dos capítulos mais interessantes do livro:  “Foi muito interessante aproximar a Guerra Civil com a realidade brasileira. Nós aqui temos uma relação muito ambígua com a questão da legalidade, que perpassa toda a saga da Guerra Civil. Temos uma desconfiança do Estado, temos uma sensação que o Estado sempre está contra o cidadão, por isso há uma tentativa generalizada de burlar leis e regras, o famoso “jeitinho”. Por outro temos uma crença de que, se há alguma solução, ela passa pelo enrijecimento e cumprimento das leis. Essa ambiguidade está presente na Guerra Civil. O Capitão não apoia a Lei de Registro pois entende que o Estado não deve intervir em decisões que são pessoais, o Homem de Ferro a apoia por julgar que deixar certas decisões nas mãos do indivíduo pode levar a desastres com o de Stamford. Acho que uma hq que merecia ser lida e relida atualmente é Transmetropolitan, do Warren Ellis. Ela lida com questões como a mídia, democracia e opinião pública, que também estão presentes na Guerra Civil e são abordadas no livro. Nada mais atual para o nosso contexto político.”

Os Dois Lados a Guerra Civil é um livro imprescindível para quem acha que a arte sequencial ultrapassa os limites do papel ou digitais e reflete nosso comportamento social em todos os âmbitos. Vai agradar cientistas políticos, historiadores, sociólogos ou simplesmente leigos que se interessem por esses temas. E ah, claro: amantes de histórias em quadrinhos de heróis.

Um grande livro, um estudo primoroso e embasado em profundas ferramentas teóricas que analisam questões éticas e comportamentais do mundo dos super-heróis, que acaba sendo um reflexo do nosso próprio mundo. Pois é, quadrinhos não são coisa de criança.

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Os Dois Lados da Guerra Civil – Análise Histórica e Filosófica do Maior Conflito entre Super-Heróis – Adriano Marangoni, Brunoo Andreotti, Iberê Moreno, Mauricio Zanolini – 1ª Edição – Editora Criativo.
Preço: R$ 34,90 – Nas melhores livrarias do gênero.


Os artigos aqui publicados são de total responsabilidade de suas autoras e editoras.

Gabriela Franco

Jornalista especializada em cultura pop. Criadora do MinasNerds. "Out here, everything hurts. You wanna get through this? Do as I say."