O sexismo por trás do termo relógio biológico

O termo relógio biológico vem logo associado com a figura de despertador que quando acionado faz seus ovários explodirem. É uma expressão que nos acompanha desde sempre e ganha maior peso quando estamos a desenvolver e focar em nossas carreiras e nos assola quando atingimos 35 anos. Interessantemente, esse termo surgiu nos anos 70, em um texto escrito no Washington Post, com o título de “The Clock Is Ticking for the Career Woman” (os ponteiros do relógio não param para as mulheres com carreira).

O aparecimento do termo se deu quando as mulheres almejaram por suas independências, invadiram o mercado de trabalho, tiveram controle sobre a gravidez não desejada com a introdução de métodos contraceptivos, desvinculando a sexualidade com a concepção. Como mencionado no texto publicado neste mês no The Guardian:

A função cultural da expressão relógio biológico contrariam os efeitos da liberação da mulher.

É fato que nosso repertório de óvulos decai com a idade, essa redução é gradual até os 35 anos e geralmente a partir dessa idade essa queda se torna mais abrupta. Embora o peso do relógio biológico só se refere ao corpo da mulher, a fertilidade do homem também decai com a idade. De acordo com a Sociedade Americana de Medicina Reprodutiva, 40% dos casais com problemas de infertilidade estão vinculados com disfunção reprodutiva dos homens, 40% associada às mulheres e 20% têm causa desconhecida. Os fatores que determinam infertilidade para mulheres são associados a problemas estruturais do aparelho sexual feminino, ausência de ovulação, infecção, entre outros, para os homens, condições que afetam a formação ou movimento dos espermatozoides e outras causas podem afetar a fertilidade masculina. Enfim, homens e mulheres podem apresentar inúmeros problemas que causam infertilidade, mas quem leva todo o peso é a mulher.

Inicialmente o termo relógio biológico tinha como referência o ritmo circadiano que está associado a coordenações e adaptações das funções biológicas de acordo com ciclo dia e noite. Nas décadas dos anos 70 e 80, o significado do relógio biológico se vinculou a fertilidade feminina e assim esse termo foi duramente incorporado culturalmente, criando um alto grau de ansiedade entre as mulheres. Com isso, o lado sexista da ciência reforçou o significado do termo relógio biológico utilizado pela mídia para se referir as desvantagens de ser mulher e seguir carreira.

Por outro lado, as técnicas que visam assistir a reprodução humana mudaram radicalmente a vida de pessoas que tinham dificuldades de terem filhos. Foi nos no final dos anos 70 que ocorreu a gestação do primeiro bebê de proveta. O desenvolvimento da fertilização in vitro revolucionou a área de reprodução humana e o Dr. Robert G. Edwards foi agraciado com o prêmio Nobel de Medicina em 2010.

A ciência tanto auxiliou a difusão da expressão relógio biológico como um peso entre as mulheres, como também ajuda as mulheres que priorizam a profissão e optam tardiamente pela maternidade. Graças aos avanços científicos, hoje uma mulher pode ovular e liberar mais que 1 óvulo por vez, óvulos podem ser congelados e guardados, possibilitando uma reserva extra de óvulos que podem ser fecundados posteriormente, embriões podem ser fecundados in vitro e sequenciados para análises de testes genéticos, estes ainda podem ser congelados para depois serem depositados no útero. Certamente, ganhamos mais tempo. O lado negativo, tudo isso custa muito caro. Mesmo que o problema de fertilidade seja masculino, a mulher terá que se submeter a tratamentos hormonais e procedimentos invasivos, que podem acarretar riscos para saúde da mulher. Técnicas de fertilização in vitro podem custar entre 10.000 a 14.000 reais, já o preço médio de congelamento de óvulos custa de 6.000 a 10.000 reais. Além disso, a maioria dos planos de saúde não cobrem tais procedimentos.

Para equilibrar essa diferenças entre gêneros, empresas como Google, Facebook e Citibank se comprometem a pagar pelos custos de congelamento de óvulos das funcionárias. O lado positivo é que a mulher não precisa se desesperar para encontrar o parceiro ideal e ainda pode adiar a decisão da maternidade quando estiver com sua carreia mais solidificada e desenvolvida. Definidamente, as mulheres ganharam algum tipo de poder sobre a manutenção do repertório dos óvulos, evitando arrependimentos futuros. Como resultado, há mais equilíbrio entre as diferenças de gêneros, porém as mulheres ganharam mais responsabilidades: o planejamento sobre o futuro de seus óvulos, um peso a mais nas costas, pois deve ser estudado cuidadosamente, uma vez que são procedimentos caros e invasivos.

Somos mulheres e devemos desconstruir conceitos que nos fazem um mero relógio biológico. Conhecer a origem do termo nos auxilia a entender como alguns conceitos têm que ser reciclados.

Revisão de texto: Helen Miranda 

Imagem de destaque: composição feita com figuras do site  http://www.servier.com/Powerpoint-image-bank

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Isabelle Tancioni

Sou veterinária, cientista, hipster, Tiki, nerd, geek. Gosto de comics, música, cartoons, animais, plantas.