Alice Através do Espelho

O texto não tem spoilers do filme!

Em 2010, há seis anos, Alice no País das Maravilhas estreava nos cinemas. O filme, dirigido por Tim Burton, deu muito certo nas bilheterias, mas dividiu opiniões entre os críticos. Ao mesmo tempo que o estilo de Burton e a releitura do clássico de Lewis Carroll chamaram a atenção de muitos, outras pessoas consideraram o roteiro e os personagens fracos.

Apesar de Tim Burton ainda participar do filme como produtor, a direção de Alice através do espelho agora é de James Bobin. Esse novo longa é uma continuação direta dos eventos do primeiro filme, portanto é preciso pelo menos saber o que acontece no anterior para assistir ao novo.

O filme começa logo com uma cena de ação: três anos depois de suas aventuras no País das Maravilhas, Alice Kingsleigh (Mia Wasikowska), capitã do navio The Wonder, está voltando para Inglaterra após uma longa viagem. Aqui vemos o quão forte e madura Alice está, conseguindo fazer uma manobra aparentemente impossível para escapar dos piratas que perseguem seu navio. Quando ela chega à Inglaterra, descobre que Hamish (Leo Bill), seu quase noivo do primeiro filme, está agora controlando a companhia do pai e que sua mãe teve que ceder a várias condições impostas por ele para manter uma condição financeira estável. O problema é que uma das condições é que Alice devolva seu navio e passe a ser secretária da empresa.

Obviamente Alice não está nada contente com isso e acaba indo parar de novo no País das Maravilhas, mas lá as coisas também não estão muito boas. O Chapeleiro Maluco (Johnny Depp) encontra uma possível prova de que sua família, supostamente morta pela Rainha Vermelha (Helena Bonham Carter), ainda está viva e quer tentar encontrá-la, mas ninguém acredita nele, portanto o Chapeleiro começa a ficar deprimido, enfraquecido e a ponto de morrer. Para salvá-lo, Alice decide voltar no tempo e tentar impedir que a família dele morra.

O roteiro de Linda Woolverton é cheio de ideias boas, mas falha em executá-las, que é mais ou menos o mesmo problema que o primeiro Alice teve. A continuação dá ainda mais a impressão de que o filme quis abocanhar muito mais do que podia, deixando muitos personagens mal desenvolvidos, e mesmo os que têm a chance de se destacar mais, como Alice e o Chapeleiro, acabam parecendo que tiveram um desenvolvimento incompleto. Alice começa o filme mais madura do que no primeiro, mas ao longo da história parece que vai voltando a ser exatamente a moça que foi parar no País das Maravilhas pela primeira vez.

Particularmente, gosto muito da ideia de fazer o tempo ser uma pessoa e a partir daí usar várias metáforas O filme também mostra várias pistas, no começo, de como vai terminar – aqueles pontos do roteiro aos quais, no final, você pode falar: “Ah, então era isso!”. Mas isso acaba ficando um pouco perdido, primeiro porque o roteiro tenta lidar com mais coisas do que consegue, segundo porque o filme insiste em vários diálogos de exposição, o que deixa algumas partes meio cansativas. Mesmo assim, nos momentos de ação o roteiro consegue deixar o público empolgado para saber o que vai acontecer, e isso consegue deixar o filme divertido, apesar dos buracos.

Um dos pontos positivos dessas releituras de Alice é que os filmes sempre tentam dar destaque para a representação das mulheres, mostrando os preconceitos que a moça precisa enfrentar por causa de seu gênero. Ela nunca faz o que seu papel na sociedade pede e, mesmo que em alguns momentos isso fique bagunçado, é interessante ver o tema ser abordado. Em Alice através do espelho, a mãe da protagonista insiste que ela não tem mais tempo para brincar de ser aventureira e que ela finalmente passe a ser a dama que a sociedade espera. Daí, quando Alice vai para o País das Maravilhas, o Tempo (Sacha Baron Cohen) é exatamente de quem Alice tem que escapar, então em alguns pontos o roteiro consegue fazer essa ligação com os dois mundos melhor do que no primeiro filme.

O longa é mais sombrio que o primeiro, trata de temas um pouco mais pesados e mostra Alice falhando bem mais. Nós sabemos que, por ser Alice, o filme terá um final feliz independente de qual seja, mas os conflitos parecem ser muito mais sérios e perigosos do que os do filme anterior.

Como é característico dos filmes de Tim Burton, por mais que ele não tenha dirigido esse, Alice através do espelho tem um visual muito interessante, com destaque para o castelo do Tempo. Essa é uma história de exageros, uma fantasia que às vezes não faz sentido, e a estética do longa casa muito bem com essa ideia.

É um filme mediano, tem vários defeitos, como personagens rasos, roteiro com buracos e momentos confusos, mas não deixa de ser um filme que diverte e que pode trazer algumas mensagens interessantes sobre o tempo em si e o que nós podemos fazer em relação a isso.

Alice através do espelho estreia quinta-feira, dia 26/05, nos cinemas.


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Clarice França

Connect to Database. Origem: Reino do Sonhar. Classe: Radialista, escritora e amante de histórias. Reputação: Campeã do Labirinto e de Kirkwall, Heroína de Ferelden, Herdeira de Andraste, Comandante Shepard, Paragade, Dovahkiin, Witcher, Dobradora de Fogo, Targaryen e Corvinal.