Blizzard, não tente fazer o Danilo Gentili acontecer nos games (ou em qualquer outro lugar)

Imagine uma desenvolvedora que se comprometeu a fazer seus fãs diversos se sentirem representados nos heróis de seu novo jogo. Imagine uma desenvolvedora que ouviu reclamações sobre uma pose sexista de uma personagem e fez alterações (não as melhores, mas fez). Imagine uma desenvolvedora cujo próprio CEO afirmou que não existe espaço para racismo, sexismo e outros tipos de preconceito no cenário de games.

Agora imagine que o marketing brasileiro dessa desenvolvedora pegou todo esse histórico positivo (e mais) e jogou no lixo ao decidir chamar o ~humorista~ Danilo Gentili para falar no evento de lançamento do mesmo jogo que deveria ser inclusivo. Pois foi exatamente isso que aconteceu com a Blizzard na manhã desta fatídica segunda-feira (23) durante o lançamento oficial de Overwatch.

Obviamente, é entendível que a equipe de marketing tenha chamado alguém com uma grande base de fãs para que estes fãs se interessem pelo jogo e o comprem (e haja interesse, porque o negócio não é barato), mas com tanta gente famosa com uma fanbase enorme (que manja ou não de games), é questionável o convite de um conhecido machista, homofóbico, transfóbico, elitista, racista e xenofóbico para falar durante o lançamento de um jogo que supostamente deve ser inclusivo e diversificado, não é?

Com um histórico de processos, tweets ofensivos e uma base de fãs nível ~bolsominions~, a aparição de Gentili foi mais do que um tiro no pé da Blizzard brasileira, mas um ato perigoso que pode criar uma comunidade tóxica logo em seu lançamento. Além de uma tentativa triste de se equiparar à Blizzard norte-americana, que está utilizando o comediante e apresentador Conan O’Brien (que possui piadas muito mais inteligentes) em sua divulgação. O Danilo Gentili não é o Conan O`Brien brasileiro. Ele mal chega a ser o Adam Sandler em nível de piadas horríveis e ofensivas!

Edit: Chegou aos meus ouvidos (e assisti para confirmar) que o Conan O’Brien também não é uma pessoa superlegal e ainda objetificou a personagem Widowmaker em seu programa no qual mostrou Overwatch. Ou seja. Danilo Gentili pode não ser Conan O`Brien, mas Conan O`Brien também não é flor que se cheire.

Atualizações na história

Desde que tudo aconteceu, além das reclamações dos fãs da criatura e dos já conhecidos xingamentos como “feminazi” e “aposto que nem joga videogame ou sabe o que é a Blizzard” (zZzZz), a história teve alguns esclarecimentos (que, veja bem, não a deixaram melhor).

Primeiro, surgiram boatos de que Danilo Gentili é um dos sócios (ou dono) de uma franquia de merchandising que é responsável pelo marketing de Overwatch aqui no Brasil e, por isso, estava no evento. Sobre isso, só podemos lamentar. Afinal, indica que a Blizzard está fazendo negócios com o ~humorista~, o que é bem triste. Além disso, levanta várias outras perguntas:

  1. E daí?! Só porque ele é sócio ou dono dessa empresa ele deveria ter falado no evento?
  2. O quão relevante sua aparição e seu “pequeno stand-up” foram, relacionados à promoção do jogo?
  3. Com um sócio como Gentili, conhecido por suas opiniões lixo, como a Blizzard pretende que o marketing de seu jogo funcione aqui no Brasil? Muitos bonecos e poucas bonecas? Foco no público masculino?

Depois, a Blizzard finalmente falou sobre a questão. No entanto, além de falado de forma não oficial ao site Critical Hits (que só tem chorume nos comentários) ao invés do Pink Vader (o primeiro a solicitar uma posição da empresa), a Blizzard disse que Danilo Gentili não encabeça a campanha de marketing de Overwatch, mas foi um dos convidados da festa de lançamento do jogo.

O que a Blizzard não entendeu é que o problema não é apenas o Gentili fazer ou não parte do marketing, e sim ele estar lá e ter tido espaço para falar. Ele é uma pessoa que deveria estar na cadeia pelos comentários que faz (e que, inclusive, já acabaram em processo), não no palco de lançamento de um jogo que se diz inclusivo e diversificado! Conexões como essa não podem mais ser mais aceitas na comunidade brasileira de games, principalmente se queremos que ela evolua e seja um local de ótima vivência para todos. Façam negócios com outras empresas. Chamem outras pessoas famosas (e mais envolvidas com jogos). Pesquisem! Tem um monte! Não precisa nem ser mulher (apesar que seria bom se tivesse pelo menos uma)! Mas não tentem fazer o Danilo Gentili acontecer nos games (ou em qualquer outro lugar).

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Pare de tentar fazer o Danilo Gentili acontecer. Não vai acontecer!

 


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Dani Rigon

Tradutora/redatora, viciada em livros, gamer e chefona da Impetus e-Sports. Gosta de gatos, sorvete e sotaque inglês. Se arrepende muito de ter vendido seu N64.