A Chama da Esperança – Um livro de aquecer o coração

Publicado pela editora Arwen, o livro da autora Mayara Vidal Garcia (conhecida também como Hidaru Mei ou simplesmente M. V. Garcia), que aliás também já escreveu como convidada pra nossa coluna de anime e mangá, A Chama da Esperança é uma história de fantasia sobre guerra, preconceito e esperança, como bem diz o título.

Em sua história, feiticeiros são uma raça similar aos humanos, porém dotados de poderes mágicos pelos quais são temidos e perseguidos no reino de Willford. Essa perseguição culminou numa guerra que levou os feiticeiros a fugirem e erguerem seu próprio território em terras vizinhas.

Na terra conhecida como a República dos Cinco Clãs, cada clã domina um dos aspectos da magia naquele mundo – fogo, água, terra, trovão e ar. É nele que vive pacificamente a jovem Kaira, na vila de Kisha, até que se vê diante de novas responsabilidades. Ela é herdeira da missão de unir os clãs e encerrar a nova guerra que se inicia, uma guerra orquestrada por forças além do conhecimento e da compreensão das pessoas comuns.

Parece familiar? Sim, e isso é bom, mas A Chama da Esperança vai muito além dessa familiaridade com outras histórias de fantasia!

De início, quando li sobre o livro, me animei porque algo ali me fez lembrar de Avatar: a Lenda de Aang, que curiosamente a autora disse ainda não ter assistido. E foi conversando com ela que descobri suas influências e decidi que precisava ler o livro! Comprei no mesmo dia!

Explicando um pouco melhor: não era uma leitora muito ávida quando nova. Sem internet, me limitava aos livros que a escola disponibilizava ou quadrinhos, mas fui pegar gosto por ler jogando RPGs japoneses na era 16 bits, que se estendeu aos 32 bits… Começando com Chrono Trigger, passando por Final Fantasy VI, Wild Arms e Suikoden II. Mesmo quando descobri, já mais velha, os livros de fantasia, e gostei deles, ainda sentia falta da atmosfera daqueles games e me perguntava: “Por que não tem livros com histórias assim?”.

E é ai que A Chama da Esperança entra! As referências da autora são exatamente os games daquela época, o que fica visível em sua narrativa, ao fazer homenagens e intercalar referências. As mais óbvias são o equilíbrio entre os efeitos chocantes e tristes da guerra e os sentimentos fofos de esperança, amor e companheirismo. Isso faz com que seja uma história que oscila entre um clima sombrio, mas sem ficar deprimente ou desolador demais, e outro colorido e vivo, sem ficar infantil a ponto de dissolver a credibilidade da trama.

Outro ponto referente aos RPGs de videogame é o cenário, com direito a um mapa simples e compreensível. O cenário consegue equilibrar a complexidade da narrativa, dando a ideia de culturas distintas, vastas e elaboradas o bastante pra ser profundo e pra podermos imaginar que pessoas realmente habitam aqueles lugares, vivem, produzem e têm toda uma visão do cotidiano que nos faz imaginar como seria viver nas Terras de Yuan (o mundo onde se passa a história), porém, sem ficar desnecessariamente complicado. É fácil, por exemplo, lembrar a organização militar de Willford, dividida em 3 esquadrões, cada um liderado por um capitão, ou pensar em cada clã da república por conta do atributo mágico utilizado por seu povo.

Alias, é aí onde se nota que as semelhanças com os povos de Avatar são poucas e ocorrem simplesmente por coincidência ou por senso comum, como o clã do fogo ser guerreiro. Daí pra frente vêm as diferenças, já que o povo do fogo é bem bárbaro e, de certo modo, deixa a tecnologia pro clã do trovão e sua linda capital tecnológica, Aluminia.

Falando em beleza, as descrições são muito eficientes, e sim, esse é o melhor termo! Não são absurdamente detalhadas a ponto de perder o foco, mas apontam os atributos essenciais pra que pessoas visuais com euzinha aqui consigam ter uma imagem mental bem clara dos personagens, lugares e objetos!

E já que falei em personagens, eles também seguem essa tendência de equilíbrio entre uma história adulta e profunda e uma aventura infantil, cheia de fofura e energia. Kaira, nossa protagonista, por exemplo, em geral é uma heroína adolescente, bem molecona, espontânea e atrevida, mas quando se trata das tragédias ela muda completamente, seja mostrando-se madura e responsável ou revelando-se uma guerreira agressiva e firme.

E pra minha alegria, apesar do elenco principal ser adolescente, os personagens mais velhos têm participações memoráveis e são muito presentes. Não agem apenas como governantes e conselheiros, mas também lutam e demonstram seus poderes e habilidades, como minha personagem favorita do coração Adill, professora, estrategista e guerreira, ou a velha Kadamari organizando as tropas de Prime D’Daqua numa cena de batalha linda.

Por fim, não podia faltar o equilíbrio entre ação e romance. A trama é muito bem armada, e, se pensar, não é complexa, mas o modo como é apresentada garante que as reviravoltas a tornem rica em emoções, desde o suspense nas manobras políticas e nas batalhas, até os diversos romances, vindo desde os pais de Kaira.

Com tudo isso, é claro que super-recomendo o livro e estou muito ansiosa pelo segundo!

A Chama da Esperança parte I A Princesa Renegada – M.V Garcia – 347 páginas – Editora Arwen – 2016


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Cecihoney

Mulher trans, lésbica, bruxa que trabalha com pixelart pra games e vive com a cabeça em robôs, naves e engrenagens. Transfã, retrô/indie gamer e parte de uma fusão permanente! Dividida entre lacinhos rosas e armamentos pesados :3