A glamourização do estupro na arte clássica e sua influência na sexualidade atual

Sempre que um estupro é noticiado, chocando e comovendo mulheres e gerando manifestações indignadas nas redes sociais, vêm à tona a discussão da chamada cultura do estupro, um conjunto complexo de práticas e crenças que visa desacreditar as vítimas de violência sexual colocando nelas a culpa do abuso, e perpetuar um estado constante de medo nas mulheres que nos leva a autocensurar e controlar obsessivamente nosso comportamento com medo de sermos as próximas vítimas.

Mas ainda existem questionamentos sobre a existência de uma cultura do estupro, afinal, o estupro é amplamente condenado em nossa sociedade, certo? Sim. E isso é um ponto importante da cultura do estupro: para ela funcionar, a violência sexual precisa ser temida, afinal, ela é uma cultura de controle do corpo feminino pelo medo. Mas o estupro fantasiado de “sedução” ao mesmo tempo é exaltado como demonstração de virilidade masculina e triunfo sobre a resistência da mulher. E conseguimos encontrar indícios importantes disso na história da arte, principalmente na arte renascentista e de inspiração clássica, que tem um papel fundamental na formação do imaginário da sociedade ocidental.

No excelente livro Images of Rape: The “Heroic” Tradition and its Alternatives (em tradução livre “Imagens do estupro: a tradição ‘heroica’ e suas alternativas) da historiadora de arte Diane Wolfthal, a autora debate o que chama de representação heroica do estupro na arte. Uma das obras mais conhecidas com essa temática é O rapto das Sabinas (por volta de 1635), de Nicolas Poussin, que retrata uma lenda fundante do império romano: a de que os primeiros homens de Roma, sem mulheres entre eles para garantir a reprodução e perpetuação da linhagem, chamaram seus vizinhos sabinos para uma festa com a intenção de tomar suas esposas e filhas. O episódio é representado em várias obras, e considerado um exemplo do heroísmo e determinação do povo romano. As inicialmente horrorizadas sabinas, segundo a lenda, acabam se conformando ao seu destino e se tornando esposas respeitáveis e dóceis, exemplo de submissão para as mulheres europeias.

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O rapto das Sabinas, de Poussin

Já é perturbador o bastante ver um episódio de estupro coletivo retratado como um mito heroico de fundação de um povo, mas Wolfthal acrescenta uma informação que torna a coisa toda ainda pior: o episódio das sabinas era constantemente usado como tema em casamentos na segunda metade do século XVI. Variações da cena ilustravam banners usados nas cerimônias, arcas de enxoval e decoravam os quartos das mulheres abastadas.

E o estupro das sabinas não era o único episódio de violência sexual popular nos casamentos da Europa renascentista: entre obras encomendadas pelas ricas famílias toscanas para a celebração de suas uniões, era comum a representação de outros estupros mitológicos, como os vários episódios envolvendo Zeus e uma mortal. O exemplo mais conhecido dessa prática é a Primavera de Botticelli, encomendada para comemorar o casamento de Lorenzo di Pierfrancesco de’ Medici e Semeramide d’Appiani, em maio de 1482. À direita na pintura é possível ver Zefiros, a divindade dos ventos, assediando a ninfa Chloris. Segundo narrado por Ovídio em Fastos, Zefiros se casa com Chloris após violentá-la. Mais uma vez a violência sexual é atenuada pelo casamento e submissão da vítima.

Primavera, de Botticelli
Primavera, de Botticelli

Wolfthal discute os motivos da escolha do estupro “heroico” como um tema recorrente nos casamentos dos séculos XV e XVI e levanta alguns pontos interessantes. Um deles é que embora fique claro nas obras que as mulheres resistem aos avanços dos agressores, elas nunca parecem sofrer grandes danos (bem diferente de um estupro real). A historiadora mostra que a imagem da donzela relutante diante do sexo e da perda de sua virgindade era desejável para as esposas da época, por ser condizente com a valorização da castidade. O ideal sexual dos casamentos era uma esposa relutante, e por isso virtuosa, e um homem viril e determinado a conseguir o que quer a qualquer custo: ou seja, a dinâmica do estupro. E é possível perceber traços dessa visão no imaginário sexual atual: a ideia de que as mulheres dizem não quando querem dizer sim, “fazem doce”, é uma delas. Outro é a visão de que a paquera é uma caça, onde um lado determinado deve convencer outro resistente. Isso que atualmente nos parece lugar comum, natural, sempre foi assim, na verdade é também resultado do uso persistente de imagens de estupro na educação sexual dos jovens casais séculos atrás.

Além do imaginário do casamento, Wolfthal encontra outra função nas imagens “heroicas” de estupro na arte clássica: o erotismo. Ela cita o historiador Guido Ruggiero, cuja pesquisa conclui que durante a Alta Renascença (entre 1450 e 1527) surgiu uma mentalidade de aversão ao casamento e celebração da liberdade sexual masculina acima da moralidade da sociedade e da religião. Parece familiar não? Sabe as piadinhas com “Game Over” nos casamentos? Então. Segundo a autora, não é coincidência que justamente durante esse período tenha aparecido um segundo tipo de uso para as imagens “heroicas” de estupro, direcionadas à estimulação erótica do observador masculino. Alguns autores começaram a criar versões alteradas dos mitos, transformando os estupros em “sedução” e carregando nas imagens sensuais e estimulantes, principalmente do corpo feminino. Um exemplo é a pintura Jupter e Io (por volta de 1530) de Correggio, na qual o artista elimina os traços de violência do ato e enfatiza o corpo de Io, cujo olhar exibe mais êxtase que dor (é possível detectar até mesmo um leve sorriso). Essas imagens representam o triunfo da virilidade masculina sobre as amarras da castidade, a ideia de “sedução” como um eufemismo para assédio e coerção.

Jupter e Io, de Correggio
Jupter e Io, de Correggio

É possível citar muitos outros exemplos de cenas de estupro na arte clássica, e não só na pintura. Bernini, considerado um dos maiores escultores da história, retrata o mito de Dafne e Apolo no mármore em uma escultura feita entre 1622 e 1625. Dafne era uma ninfa que, desesperada pelo assédio insistente de Apolo, corre pelos bosques para se livrar do agressor. Quando está quase sendo alcançada seu pai Peneu, compadecido pelo terror da filha, a transforma em um loureiro. Bernini capta o instante da transformação de Dafne, inclusive sua expressão de pânico. No mito, Apolo passa a usar louros nos cabelos como lembrança da virtude da jovem.

Dafne e Apolo, de Bernini
Dafne e Apolo, de Bernini

O “estupro heroico” hoje

Infelizmente a glamourização do estupro não acabou com o fim do período Renascentista. Wolfthal conclui sua pesquisa afirmando que a influência do imaginário do estupro heroico na arte clássica se perpetuou até a arte moderna e contemporânea, e insiste na importância de considerarmos as imagens medievais e renascentistas ao analisar produções mais recentes, para um trabalho adequado de contextualização de imagens de violência contra mulheres.

Um exemplo interessante dessa contextualização veio, quem diria, da música pop. O álbum Artpop, de Lady Gaga, tem como capa uma obra do artista contemporâneo Jeff Koons, famoso pela apropriação de elementos kitsch da pornografia e da indústria cultural. Em um trabalho que é bastante crítico da posição sexualizada da mulher na música pop (crítica especialmente perceptível no clipe de G.U.Y e na letra de Aura), Lady Gaga (que além de ex estudante da área, também é uma super nerd de teoria da arte) aparece na capa de seu álbum como uma figura plastificada, semelhante a uma boneca inflável, diante de uma montagem feita com fragmentos do Nascimento de Vênus de Botticelli e de Dafne e Apolo de Bernini. A fusão das imagens sugere que Venus, a deusa do amor e da beleza retratada no álbum como a mulher idealizada da indústria pop, nasce do estupro e anulação da mulher representada por Dafne.

Capa de Artpop

Mas acredito que o lugar onde as imagens de estupro “heroico” estão mais presentes (infelizmente não da forma crítica que Lady Gaga coloca) é na publicidade, especialmente na fotografia de moda. Mulheres desacordadas ou imobilizadas, cercadas por homens com forte sugestão sexual são temas constantes, maquiados como “sensuais”, de forma muito parecida com a camuflagem da violência sexual que ocorria na Alta Renascença. Precisamos mais do que nunca olhar criticamente para essas imagens e nos perguntarmos: será que meu imaginário da sedução e da sexualidade é influenciado pelas imagens de estupro? Por mais que a conclusão seja perturbadora, a consciência é o caminho para o questionamento.

 

 

 


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Beatriz Blanco

Designer, professora, gamer e pesquisadora. Fã da franquia The Legend of Zelda, histórias de terror, aliens e kaijus. Acorda e dorme online.