The Kiss of Deception: não tão radical na quebra de estereótipos, mas ainda assim divertido

Romances de princesas com cenário de inspiração medieval costumam ser o gênero mais associado com a figura da donzela em perigo, então quebras de estereótipos nesse estilo são extremamente bem-vindas. É com essa promessa que o a série Crônicas de Amor e Ódio está sendo promovida pela DarkSide Books, que lança seu primeiro volume, The Kiss of Deception. O livro de Mary E. Pearson nos apresenta a princesa Lia, que foge de um casamento arranjado para uma vida simples e livre de taverneira em um vilarejo na periferia de seu próprio reino.
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Tecnicamente, a DarkSide mais uma vez mostra cuidado e conhecimento do seu nicho no trabalho editorial. A ilustração de capa é linda, o livro é bem impresso e bem diagramado e a capa dura é um diferencial muito útil em um volume grande, com 406 páginas. Outro ponto positivo é a tradução de Ana Death Duarte, que encarou com competência os poemas que fazem parte da narrativa e manteve o ritmo de leitura fácil e fluído. Não senti as mais de 400 páginas passarem porque o texto é leve e muito gostoso de ler.

Sobre a história em si, meu primeiro contato com The Kiss of Deception infelizmente foi decepcionante (sem trocadilhos aqui). Acho que em boa parte isso aconteceu por conta de um erro do posicionamento da DarkSide Books na promoção do livro: colocar um selo comparando-o com Jane Austen na embalagem plástica do volume. Sou uma grande fã da autora e fiquei empolgada com a associação, e por isso foi bem frustrante não encontrar nada da crítica de costumes mordaz de Austen na prosa de Pearson. É preciso entender que essa crítica à sociedade é justamente a característica central do estilo da autora britânica, e não a discussão sobre relacionamentos e romances, que seria um ponto em comum com The Kiss of Deception. Aliás, o excessivo foco no romance foi outro aspecto que achei cansativo na primeira parte do livro.

kiss-of-deception-darkside-cronicas-amor-odio-guardaEu entendo que o gênero Young Adult aborda romances e é direcionado ao público jovem e interessado no despertar da primavera das paqueras e intrigas amorosas. Mas, para uma princesa que quebra estereótipos, o triângulo amoroso que ocupa a maior parte da história de Lia é muito clichê: o príncipe prometido inconformado em ser abandonado no altar (e que previsivelmente não é velho e feio como a princesa pensava) vai ao encalço de Lia para colar os cacos do seu ego ferido e mandar um “baba baby” à mocinha, enquanto um assassino oportunista de um reino inimigo também vê no fim do casamento uma oportunidade de enfraquecer as alianças de seus inimigos e decide matar Lia para que ela não tenha a chance de mudar de ideia. Ambos se apaixonam pela princesa ao encontrá-la (porque, afinal, ela “quebra estereótipos” mas ainda é linda e deve ter feromônios mágicos, já que provoca paixões instantâneas em quem a odeia) e embarcam em um flerte interminável, enquanto eu queria mesmo saber as intrigas políticas do reino. Nada contra um bom romance, mas acho que ele poderia ter se desenrolado de forma mais ágil e menos previsível.

Também demorei a me identificar com Lia: ela é muito taxativa e impulsiva, tipicamente adolescente, o que não encontra muito eco em uma pessoa perto dos 30 como eu. Porém, a personagem cresce bastante na trama, e achei muito inteligente como a autora usa esse crescimento como a jornada da personagem de uma adolescente inconsequente para uma princesa ciente dos seus deveres e leal ao seu povo. E é esse crescimento que faz o livro dar um salto de qualidade em seu terço final, que me fez superar a decepção inicial e gostar da leitura.

Pearson é muito feliz também em trazer um sistema de crenças que lembra muito o Sagrado Feminino para criar a parte mística da trama, mas torna-o maior ou cruza-o com a crença no poder dos seres viventes mais próxima da filosofia Jedi. As descobertas místicas de Lia dão uma linda lição de resiliência e união feminina, valorização das pequenas coisas e fé em seu próprio potencial. Chorei abertamente em várias passagens em que amigas se apoiam, especialmente uma em que uma adolescente grávida e abandonada é amparada por mulheres mais velhas. E outra coisa bem legal é que neste livro não existe NENHUM momento de rivalidade feminina. Nenhuma vilã disputa interesses amorosos com Lia ou se ressente das qualidades dela. Isso, em histórias românticas, é um diferencial e tanto.

Enfim, The Kiss of Deception não é o livro mais revolucionário que você lerá em termos de quebra de estereótipos, mas traz uma heroína complexa e uma trama bem interessante, principalmente no final. Estou ansiosa pelos próximos volumes das Crônicas de Amor e Ódio. Acredito que Lia tem muito potencial e que os pontos mais clichês podem ser corrigidos no desenrolar da trama.


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Crônicas de Amor e Ódio: The Kiss of Deception. Mary E. Pearson, DarkSide Books, 406 páginas. Tradução de Ana Death Duarte.


Esse livro foi cedido pela editora para resenha

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Beatriz Blanco

Designer, professora, gamer e pesquisadora. Fã da franquia The Legend of Zelda, histórias de terror, aliens e kaijus. Acorda e dorme online.