Diário de uma herpetologista: do medo de serpentes a oportunidades fantásticas

Por Poliana G. Corrêa,

 

Independente da área, fazer ciência não é fácil. E quem disse que eu procurava por uma profissão fácil?

Durante meus estudos na graduação em Ciências Biológicas eu já estava determinada em fazer pesquisa científica. Meu primeiro contato com pesquisa científica foi no laboratório da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FM-USP), onde trabalhei sem bolsa todos os dias após a aula e também durante as férias. Como eu estudava no interior, eu fazia o trajeto para São Paulo e interior diariamente com ônibus fretado. Após um ano recebi um convite para estagiar duas semanas na Universidade de Mogi das Cruzes (UMC) com o projeto Genoma da bactéria que causa praga das laranjeiras.  Neste curto período pude aprender técnicas básicas de Biologia Molecular e foi durante esse período que descobri o que eu queria fazer na minha carreira.

Como eu comecei a trabalhar com serpentes?

No último semestre da faculdade, assisti a uma palestra do professor Giuseppe Puorto (diretor do Museu Biológico do Instituto Butantan-IB) sobre “Manejo e criação de serpentes em cativeiro”. Foi a partir deste momento que eu me senti instigada a estudar serpentes com auxílio de técnicas de biologia molecular. Serpentes são animais fascinantes que durante o processo evolutivo, adquiriram um verdadeiro aparato mortífero capaz de paralisar e matar a presa e outras ainda desenvolveram padrão de coloração que mimetizam os exemplares venenosos. Porém, devo que confessar que pensar em trabalhar com serpentes, animais que temia, era algo desafiador. Eu corri para o IB quando soube da abertura de vagas para o programa de aprimoramento profissional (PAP), fiz a inscrição no laboratório de Herpetologia (área que estuda répteis e anfíbios) para trabalhar com DNA de serpentes e fui aprovada. O auxílio mensal era pequeno porém essencial, sendo que este foi meu primeiro salário como bióloga (pagava meu curso de francês na USP, curso de flamenco e o pai ainda ajudava na gasolina). Meu projeto visou estudar toxinas de veneno de serpentes. Os resultados deste projeto renderam minha primeira publicação em revista internacional e também participação em Congressos.

Alguns desvios na minha caminhada

Depois do PAP participei do concurso do Instituto Butantan e assim comecei a trabalhar árdua e rigorosamente na produção de vacinas. Mesmo tendo um emprego estável, via que o meu sonho de seguir a carreira como pesquisadora científica e também de fazer pós-graduação estavam se distanciando cada vez mais. Mesmo assim, durante este período, lia artigos científicos com frequência, até que, depois de três anos, a Dra. Nancy Oguiura me convidou e fui transferida para o Laboratório Especial de Ecologia e Evolução, onde auxiliei em sua pesquisa por quase seis anos. Com essa mudança, desenvolvi meu projeto de mestrado e recebi o título de mestre em Ciências em Biotecnologia pela USP. Consegui publicar resultados de minha tese em uma revista internacional e apresentar meu trabalho em congressos nacionais e internacionais.  

Atualmente trabalho no grupo de reprodução de répteis escamados da Dra. Selma M. Almeida-Santos e também desenvolvo meu projeto de doutorado em Anatomia dos Animais domésticos e Silvestres na Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da USP (FMVZ-USP), onde utilizo ferramentas de biologia molecular e de imunofluorescência para explicar o fenômeno de liberação de folículos abortivos causados por morte celular da serpente jararaca-ilhoa que está ameaçada de extinção. Esta serpente que tem como parentesco a tradicional jararaca só é encontrada na Ilha da Queimada Grande (ilha das cobras) localizada no Brasil.

Apesar de não fazer o manejo direto das serpentes, já que eu conto com a colaboração dos técnicos, alunos e pesquisadores, e posso dizer que não temo mais estes animais como no início, e que aprendi a respeitá-los.

Oportunidades: mais de uma noite no Museu de história Natural de Nova Iorque

A cada dia surgem oportunidades de desenvolver projetos paralelos que nos instigam e despertam o nosso interesse em fazer ciência. Atualmente tive a oportunidade de visitar o Museu Americano de História Natural da cidade de Nova Iorque (AMNH), conhecer a coleção Herpetológica e fotografar uma das serpentes mais raras do mundo: a jibóia de Cropan (Corallus cropanii), cuja distribuição geográfica é restrita e só encontrada em remanescentes de Mata Atlântica em Miricatu no estado de São Paulo. Infelizmente, com o incêndio de 2010 no IB perdemos três peças de exemplares, restando apenas a cabeça de um dos exemplares que se encontra guardada no Museu de Zoologia da USP. Além de ter a oportunidade de visitar o museu, aprendi técnicas de fixação dos animais e de diafanização (preparação de tecidos). Tive contato com o sistema de organização dos esqueletos; visitei a biblioteca e ainda fotografei o único exemplar fixado, intacto da C. cropanii que data de 1960 e se encontra bastante preservado (veja a foto). Posso dizer que me senti profissionalmente realizada e orgulhosa de representar minha instituição no exterior, trazer fotos de um material raro e me sentir uma herpetologista com orgulho.

 

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Poliana no Museu Americano de História Natural da cidade de Nova Iorque (AMNH)
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Jibóia de Cropan

Considerações para quem quer seguir essa jornada

O que concluo desta minha história é que nunca foi fácil ser cientista. Posso dizer que o salário ainda não é muito, porém afirmo que devemos sempre investir no conhecimento e aprendizado, enriquecendo nosso currículo, e que um dia poderá nos ajudar a trabalhar em uma melhor posição.  Sou extremamente agradecida ao incentivo dos professores, colaboradores e pesquisadores que me deram apoio, me fizeram enxergar além e assim pude sair da minha zona de conforto. Em especial agradeço à (ao): Dr. Moacir Wuo, Dr. Paulo César Cotrim, Dra. Selma M. de Almeida-Santos, professor Giuseppe Puorto, Valdir José Germano, Marcelo R. Duarte, Dra. Thaís B. Guedes, Dra. Nancy Oguiura, Dr. Otavio A. V. Marques e colegas.

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Poliana é bióloga, funcionária do Instituto Butantan, mestre em Ciências em Biotecnologia pela USP e faz doutorado pela Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da USP (FMVZ-USP).

 

 

 

 

Revisão de texto: Helen Miranda e Isabelle Tancioni


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Isabelle Tancioni

Sou veterinária, cientista, hipster, Tiki, nerd, geek. Gosto de comics, música, cartoons, animais, plantas.