4% – Um Problema de Gênero

Você sabia que, de todos os grandes filmes produzidos nos últimos anos, apenas 4% foram dirigidos por mulheres? A Iniciativa de Mídia, Diversidade e Mudança Social da Escola Annenberg de Comunicação e Jornalismo da USC, nos EUA, fez uma pesquisa durante anos sobre a participação de diretoras em Hollywood e os números não são nada bons. De 2002 a 2014, foram 1.300 grandes longas produzidos e 4,1% dos diretores eram mulheres. Para piorar essas estatísticas, nos últimos 85 anos apenas quatro mulheres foram indicadas ao Oscar e só em 2010 uma diretora ganhou, Kathryn Bigelow, por Guerra ao Terror.

Depois de anos de pesquisa, a USC e a produtora EPIX juntaram forças e produziram 4% Um Problema de Gênero, uma série de documentários curtos que falam sobre o lugar que as mulheres diretoras ocupam na indústria do cinema. O projeto é dirigido por Caroline Suh e conta com o depoimento de várias pessoas importantes na indústria cinematográfica, como Tina Mabry, Kristen Wiig, Mira Nair e Mo’nique.

Já sabemos como a indústria do cinema exclui mulheres de suas produções; as últimas cerimônias do Oscar estão aí para mostrar que não só mulheres – qualquer tipo de minoria não é bem-vinda. Porém, o número 4% é assustador, até porque, se compararmos com outras áreas, a indústria cinematográfica acaba tendo uma das piores avaliações na inclusão de mulheres.

A grande maioria dos grandes filmes hoje em dia é dirigida por homens, e isso faz que só tenhamos uma perspectiva, um tipo de história contado. Não é de surpreender que o cinema esteja cheio de estereótipos, como as personagens mulheres que estão ali só como apoio do homem, que só aparecem para falar de relacionamento, que usam saltos em situações absurdas etc.

Quando excluímos mulheres diretoras de contarem suas histórias, estamos falando que só uma parcela do mundo pode ser ouvida e compartilhar suas ideias. Alguns vão dizer que é porque histórias “para mulheres” não atraem o público, mas, como o documentário bem aponta, os últimos anos estão aí para mostrar que isso não é verdade e que mulheres são uma grande parte do público que consome cinema (o que é óbvio, já que somos metade da população). O documentário aponta como exemplos Frozen e a saga Crepúsculo, ambos arrecadaram mais de US$ 1 bilhão.

É importante notar aqui que essa questão de “filmes para mulheres” é um estereótipo – ainda há quem diga que mulheres não gostam de gêneros como ação, que seriam “de homens”. O documentário cita isso, filmes de ação com mulheres liderando são vistos como filmes que não vão render, mas a saga Jogos Vorazes prova que o público feminino não gosta só de princesas, arrecadando também mais de US$ 1 bilhão. 

O documentário também dá uma perspectiva interessante de como é a carreira de uma diretora dentro do cenário de Hollywood. Primeiro: quando alguém fala de uma pessoa dirigindo um filme, pensamos em um homem branco. É bem legal que o filme fale assim, porque negros também são uma minoria que não é aceita na indústria do cinema.

As mulheres dificilmente são chamadas para dirigir filmes de grande orçamento, ficando com os documentários e os filmes menores. Nos últimos anos, dos 318 filmes com maiores orçamentos, três foram dirigidos por mulheres, sendo que em dois deles a diretora era Kathryn Bigelow. É no mínimo inocente tirar uma conclusão de que “mulheres não são boas diretoras”; o que esses resultados mostram é que mulheres não têm as mesmas oportunidades. Quando se contrata um diretor para um grande filme, o produtor vê o histórico dos candidatos e vai chamar alguém que tenha mais experiência com esse tipo de filme, mas como ter experiência se a chance nunca foi dada?

Tanto não é uma questão de competência que várias mulheres falam em seus depoimentos que já viram mulheres terem resultados bons e não serem chamadas de novo, ao mesmo tempo que diretores homens com dois filmes fracassos de bilheteria foram chamados novamente para trabalhar. Isso acontece porque o julgamento em cima da mulher é muito mais pesado do que em relação ao homem. A mulher que comete um erro precisa ralar muito mais para ter nova chance, já o homem recebe várias novas chances.

Há uma certa “broderagem” na indústria do cinema (não só nela, infelizmente). Um homem ajuda seu “brother”, independente de sua competência, e com isso rouba espaço de várias mulheres que poderiam ser melhores. Como se isso já não fosse ruim, várias mulheres acabam não reclamando ou criticando a situação porque sabem que isso pode acabar com suas carreiras. Um homem que impõe o que pensa é considerado um bom profissional, a mulher que faz isso é a mandona chata que não é levada a sério.

Esse é um excelente documentário para refletirmos sobre o machismo na indústria cinematográfica, mais uma forma de cobrar que das produtoras mais oportunidades para mulheres. A situação não pode ficar assim, esse cenário precisa ser mudado, 4% é um número muito pequeno para a quantidade de mulheres talentosas que existem no mundo do cinema.


Os artigos aqui publicados são de total responsabilidade de suas autoras e editoras.

Clarice França

Connect to Database. Origem: Reino do Sonhar. Classe: Radialista, escritora e amante de histórias. Reputação: Campeã do Labirinto e de Kirkwall, Heroína de Ferelden, Herdeira de Andraste, Comandante Shepard, Paragade, Dovahkiin, Witcher, Dobradora de Fogo, Targaryen e Corvinal.