O Pomar da Almas Perdidas: um livro forte

Por Maíra Maximiano*

tordesilhas_pomar_das_almas_perdidas_capaO Pomar da Almas Perdidas é um livro forte. Essa é a sensação que eu tive ao terminar de lê-lo, um certo ofegar, quase como chegar ao final de uma montanha-russa em que ninguém gritou. As histórias de Kawsar, Filsan e Deqo são fortes, mesmo sendo perfeitamente verossímeis. Aliás, exatamente por serem tão verossímeis é que suas histórias têm tanta potência: ao se dar conta de que tudo descrito ali é perfeitamente plausível, você sente a falta de ar que vem ao ter acesso a essas obras tão críticas. Uma porrada.

Kawsar já é idosa e, apesar de um dia não ter sido, é sozinha. Suas ações têm uma certa inconsequência que só chega pra quem já perdeu tudo e não vai ganhar mais nada. É sábia ao ligar seu “f***-se”.

Filsan é jovem, ambiciosa e pensa sempre antes de agir. Por pensar, por não quebrar as regras que tem em si (e acabar quebrando outras, do mundo em que vive), nem sempre tem o que quer: assim como Kawsar, sua solidão é palpável.

Deqo é criança, pensa como criança, sente como criança, sonha como criança: é impossível não rir dos pensamentos dela, tão familiares a qualquer uma que tenha sido criança e curiosa e viva um dia. Órfã e refugiada, ela também é dolorosamente sozinha.

E a história acaba sendo um tratado sobre a solidão e sobre a violência que acometem as mulheres. Passa-se na Somália, mas não seria inverossímil nem mesmo no interior de São Paulo: nenhuma mulher vai deixar de reconhecer cada mal que atinge as personagens, guardadas as proporções políticas e culturais — a Somália do fim da década de 80 passava por um período particularmente difícil, o que é mostrado com maestria no livro.

O estilo de escrita é atencioso aos detalhes, sem ser descritivo demais, e é fácil visualizar o que está acontecendo;  autora não te conta, mas mostra, mesmo ao investigar os sentimentos das personagens. Falando em personagens, o livro seria retumbantemente reprovado num teste de Bechdel às avessas: não se vê, em nenhum momento, dois personagens homens, com nome, conversando entre si sobre um assunto que não seja uma das personagens femininas. Não que os homens ao redor das três protagonistas não o façam, mas essas conversas, quando muito, viram barulho de fundo pros acontecimentos principais. Nessa história profundamente feminina, o que os homens falam, pensam ou sentem não é tão importante assim.

E, sendo uma história feminina, sobre mulheres, meninas e senhoras, a busca do amor de um homem (que normalmente é tão confundida com o que seria uma história feminina em si) fica em segundo plano. As paixões, dores e preocupações das personagens são, na gloriosa maior parte do tempo, outras. Mesmo o advento do amor romântico não vem para amolecer ninguém, e não há espaço para donzelas em perigo aqui. Veja bem, em perigo, elas estão o tempo todo. É que nenhum cavaleiro vem para salvá-las.

O livro é uma ótima pedida pra quem quer uma aventura que não envolva criaturas mágicas, para quem quer viajar para um mundo diferente do seu, embora semelhante, porém real, e pra qualquer pessoa que esteja procurando boa literatura.

O Pomar das Almas Perdidas, Nadifa Mohamed, 295 páginas, Editora Tordesilhas, 2016, tradução de Otacílio Nunes

*Maíra Maximiano é cineasta, atriz, teacher pra pagar as contas e estudante de Direito não-praticante. É carioca, mas já morou em São Paulo, sendo versada em biscoito e bolacha. Pensa em escrever um livro, em ter um canal no YouTube, em dominar o mundo, e em novas formas de mimar seu vira-latas delicioso e melhor sidekick pras suas aventuras, Michael Duncan (sim, é por causa do ator).

O livro foi cedido pela editora Tordesilhas para resenha.


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