Aline Lemos e suas tiras sobre mulheres incríveis (reais e fictícias) de todas as épocas

O que uma série de tirinhas sobre as mulheres marcantes dos movimentos artísticos brasileiros, um zine sobre abuso e uma HQ muda sobre as aventuras sexuais e criminosas de uma melindrosa nos anos 20 tem em comum? A resposta: sua autora, Aline Lemos.

A Aline, que assina na Internet como Desalineada, é uma mineira formada em História que começou a estudar Design, migrou pras Artes Plásticas e atualmente se dedica à HQ. Essa diversidade de interesses se reflete na variedade de temas que ela aborda nos seus quadrinhos, todos interligados pelo viés feminista e socialmente crítico – e também pelas aquarelas lindas de morrer!

12938191_1705737476309307_1374360234122475108_n

Oi, Aline! Sou tua fã (como tu já sabe) e já queria te entrevistar faz tempo! Eu percebo, nos temas que tu aborda, a influência da faculdade de História. Ao mesmo tempo, teus quadrinhos não são adaptações fiéis de momentos históricos, e sim pequenos recortes críticos e, muitas vezes, bem humorados desses momentos. Como tu decides que fragmentos da História abordar?

Na faculdade de História, nós não estudamos apenas momentos no tempo para narrá-los. Aprendemos formas de investigar e interpretar sociedades ao longo do tempo – por isso a principal habilidade do historiador não é memorizar, mas analisar. Isso acabou influenciando minha forma de ver o mundo, e até mesmo de fazer quadrinhos, às vezes.
A historiografia pode ser uma influência para mim em uma HQ mesmo quando eu não falo de um momento reconhecido como “histórico”, ou do passado, mas porque ela pode ser uma forma de investigação ou reflexão. Mas quando eu escolho momentos do passado para retratar, certamente é porque existe algo no presente que me motiva a fazer isso (e também é assim para os historiadores).
mulheres nas artes

Tu procura reproduzir o estilo artístico da época abordada nos quadrinhos? Tu fizeste isso na Melindrosa e, pra mim, foi o casamento perfeito entre História e Artes Plásticas. Além de ser uma pesquisa estética legal, também é educativo pra quem deseja saber mais sobre os períodos artísticos.

A Melindrosa foi a única vez que eu fiz isso como um projeto mais longo. A minha intenção fazendo as páginas era estudar referências de art déco e exercitar soluções visuais fora (beem fora) da minha zona de conforto. Eu fazia só uma por mês, porque eu gostava de fazer bem devagar… Por causa dessas coisas alguns aspectos ficaram prejudicados, como o ritmo da narrativa, mas quis terminar mesmo assim porque foi um aprendizado enorme e era gostoso de fazer!

10628201_1699519103597811_1773124952969399056_n

Tu participas de alguns coletivos, como as ZiNas e a Mandíbula. Essa parceria com outras artistas tem sido produtiva pra ti?

Trabalhar em coletivos é um estímulo muito grande para mim. Tenho aprendido muito com as minhas colegas de coletivo, porque dá pra conhecer modos de produção diferentes dos seus, compartilhar as ansiedades, discutir nossos trabalhos… Além de possibilitar uma visibilidade maior e possibilidades de atuação que individualmente são mais difíceis.13433357_1729835960566125_4123531665194709491_o

Nas ZiNas, tu aborda temas voltados para questões sociais, como abuso, identidade, gênero… tu acha que os quadrinhos são uma linguagem particularmente interessante pra abordagem de temais mais “pesados” e controversos?

No geral, acho que os quadrinhos são uma linguagem particularmente interessante para abordar qualquer tema, hahaha! Não acredito que os quadrinhos sejam necessariamente mais didáticos ou tocantes que outras formas de comunicação, embora esses possam ser recursos utilizados. O que os torna interessantes é que eles oferecem muitas possibilidades de expressão e são poderosos para comunicar.

Tu passaste alguns meses na França, que é a meca dos quadrinhos europeus, em um mestrado sobre HQ. Foi uma experiência interessante?  Tu tens interesse em continuar na jornada acadêmica ou tu te realizas mais na prática no que é referente aos quadrinhos?

Com certeza, embora penosa por motivos nada relacionados aos quadrinhos! Precisei interromper o curso e retornar ao Brasil, mas aprendi e produzi muito nesse tempo lá. A melhor coisa foi ter acesso a uma biblioteca pública LOTADA de HQs! A França tem um mercado de quadrinhos gigantesco e é publicada muita coisa nacional e estrangeira, então eu me esbaldei. Encontrei “Estórias Gerais” do Wellington Srbek e Flávio Colin na biblioteca. Um dos que comprei lá e adorei está sendo lançado aqui agora, o “Uma morte horrível”. Mas nem tudo são flores, é claro. Escrevi junto a Gabriela Aquino sobre o machismo nos quadrinhos na França, em especial no Festival de Angoulême.

ewew
Tu tens interesse em continuar na jornada acadêmica ou tu te realizas mais na prática, no que é referente aos quadrinhos?

Atualmente, eu me realizo muito na prática, foi por isso inclusive que decidi abandonar a carreira acadêmica. Tenho acima de tudo vontade de produzir quadrinhos, produzir arte e me comunicar com as pessoas. Mas não consigo abandonar meu interesse pela pesquisa, porque aquelas questões do presente que mencionei continuam me levando a ela. Foi por isso que comecei a lista “A legião de mulheres quadrinistas no Brasil”.

Tu tem algum comentário sobre a cena de quadrinhos no Brasil, e como as mulheres se inserem nela? Sei que tu participou de várias publicações coletivas feministas, como o Zine XXX, a Revista Farpa e a Revista RISCA!.

Sobre a inserção das mulheres na cena de quadrinhos do Brasil, acho que posso dizer que os últimos anos foram extremamente positivos e estão trazendo transformações. Temos vivido uma época de discussão
feminista, de crescimento na produção independente, novas formas de acesso com a internet, e acredito que tudo isso fez parte de uma maior visibilidade das mulheres nesse universo, como leitoras e produtoras.
Mas o fator mais importante são os esforços constantes de artistas e grupos para que isso continue crescendo.

Quais são os teus próximos projetos em vista?

Estou na fase inicial de vários projetos empolgantes! Estou trabalhando em uma HQ longa com a Mandíbula e em uma série de quadrinhos sobre mulheres artistas brasileiras. Além disso, sou arte finalista da HQ Quimera, que vai ser lançada pela Pagu Comics (acho que você ouviu falar ne, já que a equipe é você e a Cris Peter!) e acabei de começar a dar aulas no curso FIQ-Jovem aqui em BH.

 

13047883_1710352052514516_7967452844611708335_o

 

16352_10153037843679840_5181519011145424762_n

Pra acompanhar o trabalho da Aline, acesse:

Facebook

Tumblr

Site


Os artigos aqui publicados são de total responsabilidade de suas autoras e editoras.

Laura Athayde

Após terminar a pós graduação em Direito Tributário, em 2014, passou a dedicar-se à ilustração e ao quadrinho. Participou de diversas publicações coletivas, como o livro Desnamorados, Revista Farpa, Revista RISCA!, Antologia MÊS 2015 e Catálogo FIQ 2015. Lançou também HQs solo, algumas das quais podem ser lidas online em issuu.com/lauraathayde. Como se não bastasse fazer quadrinhos, resolveu escrever sobre eles na coluna HQ Arte do MinasNerds.