Resenha: A Ilha dos Dissidentes, de Bárbara Morais

Capa do livro A Ilha dos Dissidentes, da escritora brasileira Bárbara Morais. Uma letra A em amarelo sobreposta a uma grade com fundo escuro.Apesar de ter passado dos trinta, sou uma devoradora de young adult. Por isso, quando soube de uma trilogia distópica escrita por uma autora brasileira, com personagens femininas em destaque, minha curiosidade foi despertada. A escritora se chama Bárbara Morais, é de Brasília e é uma jovem adulta escrevendo para jovens adultos.

O livro tem um cuidado visual que me agradou bastante. A capa não se perde em uma acumulação de elementos, e o grande A amarelo já começa a criar perguntas. Por trás dele, uma grade de tela dá uma sensação de sufocamento e contenção.

E esta é a primeira surpresa da leitura: a história de Sybil Varuna, a anômala que nos empresta seus olhos (é uma narrativa em primeira pessoa), passa de um jeito bem breve de seus dias como uma órfã de guerra para a vida em uma cidade quase idílica, tão perfeitinha que parece saída de um episódio de Além da Imaginação. Nesse momento, aquelas grades e aquele sugestivo A amarelo parecem contraditórios.

Então, você começa a perceber as dicas. Um governo de exceção e uma sociedade segregadora vão tomando forma nas páginas do livro, mesclando as experiências anteriores de Sybil e essa cidade onde sua nova vida acontece, dando pistas de como uma gaiola pode ser invisível até que você tente voar contra as grades.

Mas o que são os anômalos? Um dos pontos bem interessantes do livro, especialmente para mim, que cresci lendo histórias dos X-Men, é que um anômalo é, mais do que tudo, um mutante, reflexo, talvez, de uma guerra que dividiu o mundo em dois conglomerados que vivem em completo isolamento, exceto pelas zonas de guerra. Todo anômalo tem algum tipo de poder e vive com outros anômalos, isolado da sociedade normal. Claro que o governo dirá que é para o seu próprio bem, mas o fato de que eles precisam vestir amarelo quando estão entre as pessoas “normais” para serem identificados acende todas as luzes vermelhas do seu cérebro, que está imerso no cotidiano de Sybil enquanto ela tenta se adaptar à escola nova, fazer amigos e conhecer melhor sua família adotiva.

Alguns pontos da personalidade de Sybil poderiam ter sido explorados com mais vagar. Um problema comum nas narrativas em primeira pessoa é que a gente só pode ver uma pequena fatia do mundo: aquela onde a narradora está, aquilo que ela percebe. Sou maníaca por história da guerra, e senti falta de um desenvolvimento maior dos efeitos do passado da personagem nessa sua vida nova – mas ainda tenho dois livros para ler e descobrir mais.

Os personagens principais têm algumas características bem tradicionais dos romances do gênero, sem fugir muito do esperado. Mas, embora ainda existam mais personagens masculinos do que femininos (ao menos, assim me pareceu num primeiro olhar), temos algumas inversões de papéis sociais e uma presença grande de mulheres de estilos e modos de vida bem diferentes. A família adotiva de Sybil não é uma família nuclear, assim como outras famílias que aparecem na história. O pai de um dos personagens é famoso por sua atuação como drag. Temos um personagem cego, que, embora tenha superpoderes que facilitam sua vida, ainda encara limitações, e personagens de etnias variadas, o que é um ponto bastante positivo.

É divertido tentar encontrar nosso mundo nos elementos do universo do livro, e a história prende a atenção conforme o mundo aparentemente perfeito vai desmoronando devagar, mostrando o horror subjacente a cada nova página. Quando os personagens são empurrados para a aventura, aprendemos mais e mais detalhes daquela sociedade, e esse primeiro livro apresenta várias questões que fazem você terminar o livro já querendo ler o segundo.

Um aspecto curioso é que a estrutura de construção do texto é bem no estilo das narrativas anglófonas. Às vezes, me surpreendia pensar que o livro foi escrito originalmente em português e não traduzido do inglês, por conta dessa estrutura.

A Trilogia Anômalos saiu pela editora Gutenberg, e eu já estou devorando o segundo livro para poder saber mais sobre a União e seus cidadãos de segunda classe.


A Ilha dos Dissidentes – Trilogia Anômalos, volume 1.
Bárbara Morais, Editora Gutenberg, 303 páginas.


Esse livro foi cedido pela editora para resenha

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