Entrevista com Fabia Fuzeti e Gabi Torrezani, diretoras do documentário Vestidas de Noiva

Por Clarice França e Silvia RC Almeida

Quando Fábia e Gabi decidiram se casar, elas também resolveram fazer dessa experiência um documentário, e assim nasceu o Vestidas de Noiva, produzido pela Gasolina Filmes. Em 50 minutos, o filme fala sobre o casamento homoafetivo no Brasil ao mesmo tempo que mostra os preparativos e a cerimônia de casamento de Fábia e Gabi.

O documentário fala sobre conquistas que a comunidade LGBT+ já conseguiu e também o quão importante é continuar lutando por direitos. Com depoimentos de ativistas e políticos, Vestidas de Noiva é um filme que levanta pontos muito atuais e importantes para a comunidade LGBT+.

O MinasNerds teve o prazer de entrevistar Fábia e Gabi, e elas nos contaram um pouco sobre como foi fazer o documentário, suas experiências e opiniões sobre a luta por direitos LGBT+ no Brasil. Você pode ler a entrevista aqui:

MinasNerds: Vocês decidiram transformar a cerimônia de casamento de vocês em um lindo documentário. Como surgiu essa ideia? E como foi produzir o Vestidas de Noiva, especialmente sendo algo muito pessoal?

Fábia e Gabi: A ideia do documentário Vestidas de Noiva surgiu quando decidimos nos casar e logo nas primeiras semanas percebemos que não tínhamos nenhuma referência de casamento homoafetivo. Apesar de termos muitos amigos em relacionamentos homoafetivos há anos, nunca havíamos comparecido a um casamento de duas pessoas do mesmo gênero. As pesquisas na internet para pegar referências também eram muito estereotipadas e normalmente traziam imagens de outros países, onde as cerimônias de casamento tendem a ser diferentes da realidade brasileira. Nós temos uma produtora de vídeo, a Gasolina Filmes. Então, pensamos: porque não unir a nossa profissão com o ativismo e a necessidade de dar visibilidade ao casamento homoafetivo? Assim surgiu a ideia de filmar todo o nosso processo de casamento para fazer um documentário. Ao longo dos meses, percebemos que apenas mostrar o nosso processo também não seria suficiente para cobrir a diversidade existente dentro do meio de casamentos homoafetivos. Por isso expandimos o processo, buscamos outros casais, ativistas LGBT+s e pessoas políticas importantes para entrevistar. Essas pessoas estão no documentário dando mais explicações técnicas sobre legislação, realidade da comunidade LGBT+ e contando um pouco de suas experiências. Também filmamos a 5ª cerimônia coletiva de casamento homoafetivo do Rio de Janeiro, uma passagem importante do documentário que pretende explorar a diversidade.

Foi muito legal produzir o Vestidas de Noiva, mesmo sendo algo muito pessoal. Nós temos um blog de viagens, o Estrangeira (www.estrangeira.com.br) e no canal do youtube do blog fazemos muitos vídeos falando sobre nós, sobre a nossa vida como um casal e, claro, mostrando nossas viagens. Por isso estamos acostumadas a interagir com a câmera, isso não foi um problema.

MinasNerds: Quando vocês contaram sobre o documentário para as pessoas mais próximas, como foi a reação delas? E como está sendo a recepção pelo público?

Fábia e Gabi: As pessoas próximas reagiram mais ao fato de que iríamos nos casar do que de que faríamos um documentário sobre isso. Todos os nossos amigos receberam ambas as notícias superbem, com amor, carinho e empolgação. Na família houve reações diversas: algumas pessoas muito felizes por nós, outras apreensivas e desconfiadas. Não podemos dizer que houve homofobia ou rejeição, mas principalmente os avós da Gabi ficaram apreensivos com o casamento. Hoje, passados quase dois anos, a situação já se normalizou completamente e ambas as famílias nos aceitam como um casal e nos tratam propriamente como tal. A recepção do público está sendo muito boa, felizmente. Fizemos diversas sessões gratuitas seguidas de debate no estado de São Paulo e em todas elas pudemos receber um enorme carinho dos espectadores. Durante os debates percebemos diversas falas de gratidão e pudemos responder a dúvidas e questionamentos relevantes. Depois dessas exibições, em janeiro de 2016 o filme foi para o Youtube na íntegra. Já estamos com mais de 26 mil visualizações e a quantidade de comentários positivos extrapola muito a quantidade de comentários negativos/discurso de ódio. Isso inclusive nos surpreendeu, porque estávamos na defensiva, esperando muito mais homofobia nos comentários. Nas nossas redes sociais também recebemos mensagens muito gratificantes das pessoas que nos acompanham. Em breve, o documentário será veiculado na GNT, e então saberemos melhor a reação de um público mais geral. Por enquanto sabemos que quem procura o Vestidas de Noiva na internet está interessado no assunto de uma forma ou de outra. A partir do momento em que ele passa na televisão, atinge pessoas que não estão procurando por isso ou que podem ser avessas ao assunto. Por isso ainda precisamos esperar para ver qual será essa reação – claro, queremos que seja positiva!

MinasNerds: Como foi a reação da família e amigos quando vocês decidiram celebrar o casamento com uma festa? Vocês encontraram algum tipo de resistência? E no trabalho?

Fábia e Gabi: Até ouvimos alguns comentários de familiares no início, coisas como “mas precisa de festa?”. Nossa resposta era sempre: “Você faria essa pergunta para um casal hétero que anuncia que vai se casar?”. Em pouco tempo as pessoas perceberam que, para nós, celebrar o casamento com festa era o caminho natural e compraram a ideia. No trabalho não houve nenhuma resistência, mas nós estamos conscientes do nosso privilégio de atuar na área artística/comunicação. Sabemos que, nessa área, as pessoas tendem a ser tolerantes e simpatizantes com a causa LGBT+ (até porque muitas das pessoas com as quais trabalhamos também são parte da comunidade). Para pessoas que atuam em outros meios de trabalho, as reações podem ser negativas ou complicadas, infelizmente.

MinasNerds: O casamento entre pessoas do mesmo sexo já é permitido no Brasil, aliás, é um dos 22 países que permite essa união, entretanto ela depende do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) e, portanto, não é estável como desejaríamos que fosse. Como é possível garantir essa estabilidade perante a lei para que todos os casais possam se casar sem medo? O que vocês gostariam que mudasse na lei para que se tornasse mais estável e justa?

Fábia e Gabi: Hoje o casamento entre pessoas do mesmo sexo é regulamentado por uma norma do CNJ. A norma é clara e garante os mesmos direitos, mas ainda assim não é uma lei. É difícil derrubar uma norma do CNJ, mas existe essa possibilidade. Para garantir os direitos de maneira definitiva, o ideal seria modificar a legislação, para que fique claro na nossa Constituição que casamentos homoafetivos e casamentos heteroafetivos são completamente iguais em direitos, possíveis e devem ser realizados por todos os cartórios do país. Para tal, o projeto de lei deve ser aprovado pelo legislativo.

As noivas e diretoras Fabia e Gabi com suas certidoes de casamento - credito Ivson Miranda
As noivas e diretoras Fabia e Gabi com suas certidões de casamento – Foto por Ivson Miranda

MinasNerds: O casamento homoafetivo é permitido no Brasil, apesar de infelizmente muita gente ainda não aceitar Vocês encontram muito preconceito das pessoas no cotidiano de vocês quando abordam o assunto? Acham que as pessoas ainda são muito resistentes à ideia?

Fábia e Gabi: Nós não encontramos muito preconceito sobre isso, mas nós nos cercamos de pessoas tolerantes e que aceitam a diversidade. Percebemos que a resistência da sociedade em geral está diminuindo, e isso se deve à visibilidade que casais homoafetivos vêm ganhando na mídia (ainda que de forma tímida e muitas vezes estereotipada ou limitada). Essa é outra razão para termos feito o filme. Quanto mais visibilidade, melhor. As pessoas vão vendo e vão se acostumando.

MinasNerds: Todo casal chega a um ponto do relacionamento em que é pressionado a “passar papel” para ser reconhecido pela sociedade. Como foi essa pressão para vocês? A vida mudou depois de casadas? Como?

Fábia e Gabi: Na verdade, todo casal hétero chega a um ponto do relacionamento em que é pressionado a casar. Isso não acontece com os casais homoafetivos, ou pelo menos não acontece com a maioria deles. Muito pelo contrário, vários casais de pessoas do mesmo sexo quando anunciam que vão casar escutam coisas como “Mas pra que casar? Que desnecessário! Só morar junto já está bom!”. Ou seja, se pra casais héteros casar é quase obrigatório, para casais homoafetivos parece desnecessário. A sociedade repete essas coisas porque, quando um casal homoafetivo se casa no papel, ele sai do armário definitivamente perante toda a sociedade. Quando você se casa, o seu estado civil muda e isso aparecerá no trabalho, no plano de saúde, no âmbito familiar. Então, muitas vezes as pessoas desencorajam casais do mesmo sexo a casar porque têm medo da saída do armário dessas pessoas. Já passou da hora de as outras pessoas pararem de querer esconder os LGBT+s. Decidimos nos casar porque parecia o caminho natural no nosso relacionamento e sempre foi o sonho da Gabi. A nossa vida prática não mudou muito, pois já morávamos juntas. O que mudou foi mesmo o estado civil, no papel. Estamos cada dia mais unidas, companheiras e apaixonadas, isso podemos dizer!

MinasNerds: O casamento homoafetivo é um passo importante para a comunidade LGBT+, mas ainda há muito o que melhorar. Quais seriam os próximos passos nessa luta por direitos?

Fábia e Gabi: Há muito, muito, muito o que melhorar. Vamos citar aqui as coisas que achamos mais urgentes, mas essa discussão é bastante complexa e muitos outros pontos poderiam ser levantados. Na nossa opinião, o mais gritante é a falta de amparo legal e apoio social às travestis e pessoas transexuais. Essa parcela da comunidade LGBT+ se sente isolada, inclusive dentro da própria comunidade. O Brasil é o país que mais mata travestis e transexuais no mundo. Muitas pessoas trans e travestis tem uma vida muito difícil, renegada em todos os âmbitos (familiar, social, de trabalho, governamental e legal). A Lei de Identidade de Gênero é urgente. Ainda nesse tema, políticas públicas de amparo, educação e inclusão no mercado de trabalho voltadas à população T são necessárias.

Também vemos como essencial legislações que criminalizem a LGBTfobia. Os números de ataques violentos (verbais ou físicos) e mortes de pessoas LGBTs no Brasil é vergonhoso.

Para casais homoafetivos, a adoção e/ou geração de filhos via métodos diversos é possível, mas ainda de difícil acesso. A adoção é um processo lento no Brasil como um todo, não apenas para casais do mesmo sexo. Métodos de inseminação artificial são caros. De qualquer forma, o mais urgente nessa questão é garantir o direito de um casal do mesmo sexo ter o nome dos dois pais ou duas mães na certidão de nascimento de seu filho. Isso ainda é muito difícil e em muitos estados/municípios só é possível via decisão judicial (que leva anos). O ideal seria existir uma norma nacional que obrigasse todos os cartórios do país a registrar as crianças com os nomes dos dois pais ou duas mães automaticamente e sem necessidade de intervenção judicial.

Nós vemos a necessidade absoluta de um projeto de educação nacional que inclua temas de diversidade e respeito às pessoas LGBT+s. Se desde pequenas as crianças aprendessem na escola a respeitar e entender a diversidade de orientações sexuais, identidades de gênero e papéis de gênero, com certeza teríamos uma sociedade mais tolerante.

Por último, mas não menos importante, achamos que é essencial que artistas e comunicadores em geral se empenhem para dar mais visibilidade à comunidade LGBT em peças artísticas, audiovisuais e publicitárias. A diversidade é essencial para que esses produtos sejam verossímeis e satisfatórios. É preciso fugir dos estereótipos e mostrar as diversas nuanças e facetas da nossa comunidade e das pessoas LGBT+s.

MinasNerds: Como vocês esperam que seja a luta pelos direitos LGBT+ durante o governo atual, com o presidente interino Temer, que está se mostrando conservador? Aliás como vocês esperam também que seja a luta pelas questões femininas? E como ativistas, têm alguma dica para as nossas leitoras?

Fábia e Gabi: Olha, honestamente, estamos pessimistas. O governo do presidente interino Temer vem se mostrando a cada dia que passa mais conservador e retrógrado. Tanto as questões de direitos LGBTs quanto das mulheres nos parecem estar sendo ameaçadas. Somos fortes e não fugiremos da luta, mas sabemos que tempos sombrios podem estar por vir. Para as leitoras: nunca desistam de lutar. Nunca desistam dos seus sonhos. Nunca deixe alguém te diminuir porque você é mulher e/ou LGBT. Se possível e se for o seu desejo, saia do armário! Mostre pra todo mundo que você tem orgulho de ser quem é. A visibilidade é a nossa maior arma, hoje em dia temos a internet, que é uma ferramenta maravilhosa, a nosso favor. Nós estamos utilizando para divulgar o filme, o Minas Nerds é outro exemplo de ótima utilização da internet para empoderamento. Vocês podem, somos todas super-heroínas!

MinasNerds: O que um casal de pessoas do mesmo gênero deve fazer caso queira casar hoje? Quais conselhos vocês dariam?

Fábia e Gabi: O casal deve ir ao cartório de registro civil mais próximo da sua residência, com RG, CPF e Certidão de Nascimento de cada uma das pessoas. Lá, o casal dará entrada no pedido de casamento (todos os procedimentos são iguais ao de um casamento hétero). O casal deve levar duas testemunhas nesse dia (que não precisam ser as mesmas testemunhas do dia do casamento) e pagar as taxas do cartório. Então, será marcada uma data para o casamento. O casal pode escolher o “pacote mais básico” que é o casamento no local do cartório. Se quiserem levar o juiz de paz para o local da festa, o cartório cobrará um valor a mais. Nenhum cartório pode se negar a fazer o casamento entre duas pessoas do mesmo sexo, é isso que a norma do CNJ garante. Se algum se negar, faça uma queixa para o juiz corregedor da cidade ou para o Ministério Público Federal, para que tal cartório tome providências e/ou seja punido.

Se o casal deseja também fazer uma cerimônia/festa externa, procure locais e fornecedores que já trabalharam com casais homoafetivos. Você não quer lidar com homofobia num dia tão especial, né? Se não conhecer nenhum lugar ou fornecedor, basta fazer o teste: ligue antes e deixe bem claro que será o casamento de duas pessoas do mesmo sexo. A reação da pessoa no telefone já indicará se, para ela, isso é normal ou se a deixa desconfortável. Escolha sempre pessoas que tratem o casamento de vocês com normalidade. Porque é isso que ele é: um casamento normal. 🙂

 

VESTIDAS DE NOIVA

Link para assistir o documentário completo:

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Clarice França

Connect to Database. Origem: Reino do Sonhar. Classe: Radialista, escritora e amante de histórias. Reputação: Campeã do Labirinto e de Kirkwall, Heroína de Ferelden, Herdeira de Andraste, Comandante Shepard, Paragade, Dovahkiin, Witcher, Dobradora de Fogo, Targaryen e Corvinal.