O Circo Mecânico Tresaulti: uma distopia steampunk

Capa do livro O Circo Mecânico Tresauldi, com maquinário complexo e asas de pássaro.O Circo Mecânico Tresaulti, de Genevieve Valentine, lançado em capa dura pela editora DarkSide Books, não tem um enredo impressionante. Você sabe exatamente o que vai acontecer desde as primeiras páginas, e por isso mesmo, num paradoxo, é tão surpreendente. Assim como o circo, o livro é lindo, com uma capa/picadeiro em alto relevo, artistas/ilustrações precisas e divisões/armações com estampas de diamante. A leitura, baseada nas letras grandes e claras e nos capítulos curtos e sem nome, é dinâmica como os números circenses devem ser.

A melhor maneira de chegar ao Circo Mecânico Tresalti é não saber nada sobre ele. Adentrem aos poucos, senhoras e senhores, e explorem as possibilidades que se delineiam, as acrobacias que se formam diante de nossos olhos a cada página virada. O que eu posso dizer sobre a história é isto: num mundo distópico arrasado pela guerra constante, o Circo Mecânico passa, trazendo alegria com seus artistas mutilados, que conseguem feitos incríveis através de corpos melhorados com a mecânica rudimentar steampunk.

Genevieve nos apresenta os personagens vistos de longe, contando a história de como chegaram ao circo. Eles têm títulos, nomes novos que ganharam depois de se unirem ao circo, e não têm famílias. A única coisa que os liga é o próprio circo e, por isso, são irmãos.

A história é contada a partir de dois pontos de vista. Por um lado, vemos o desenrolar da trama pelos olhos de Little George, o garoto que cola cartazes anunciando a chegada do circo a novas cidades e braço direito de Boss, a mestre do picadeiro. (Gosto muito do fato dos personagens mais fortes do livro, Boss, Helena e Bird, serem mulheres.) Por outro lado, o livro traz um narrador onisciente, que completa a história quando Little George não sabe ou não quer entender o que se passa. Isso é confuso a princípio, mas ajuda a manter a aura de estranhamento pretendida pela autora.

Ilustração de um coração mecânico estilo steampunk.

Os recursos narrativos, aliás, são muito mais interessantes e complexos que a história em si – como todas as grandes histórias costumam ser. Os pensamentos dos personagens são separados da narrativa com grandes parênteses que às vezes duram vários parágrafos. O desenrolar da história é dividido em pequenos capítulos que soltam informações aos poucos e resgatam fios de memória de capítulos anteriores, como fofocas que vêm pela metade ao longo de vários dias. Quem é Alec? O que o Homem do Governo quer com o circo? Como foi que Boss melhorou cada trapezista?

A leitura é dinâmica, a linguagem é precisa. O tempo todo temos a impressão de observar as cenas através de uma luneta, que foca em poucos personagens e acontecimentos por vez, enquanto assistimos aos fatos se desenrolarem em tempo real. A autora não mergulha no inconsciente de cada personagem, mas também não é necessário. Suas ações e os pequenos recortes de como se comportam falam por si.

Só senti um pequeno escorregão no final do livro, na cena de batalha. Enquanto a autora é muito boa em descrever cenas particulares e íntimas, parece não dar conta de transmitir o movimento de uma máquina de guerra. Apesar disso, uma excelente leitura sobre sobrevivência e ambição. Para quem gosta de circo, de steampunk e de histórias bem escritas.


Capa do livro O Circo Mecânico Tresauldi, com maquinário complexo e asas de pássaro.O Circo Mecânico Tresaulti, Genevieve Valentine.

DarkSide Books, selo DarkLove, 320 páginas.

Tradução: Dalton Caldas.

 

 

 

 

 


Crédito das imagens: DarkSide Books.

Esse livro foi cedido pela editora para resenha

Conheça a DarkSide Books: FacebookTwitterInstagramSite Oficial


Os artigos aqui publicados são de total responsabilidade de suas autoras e editoras.

Deborah Happ

Formada em Midialogia, pela Unicamp, com mestrado em Estética e História da Arte, pela USP. Faz umas artes quando dá, escreve por necessidade.