O “eletrochoque” como tratamento psiquiátrico

Por Bruna T. L. Britzky Roncatti,

Nós, nerds do cinema, estamos acostumadas a ver o famoso “eletrochoque” retratado na telona mais como castigo do que como tratamento. A grande maioria dos filmes baseia-se em uma psiquiatria antiga em que os tratamentos visavam apenas acalmar os pacientes mais exaltados.

É preciso diferenciar a terapia eletroconvulsiva terapêutica do “eletrochoque” utilizado para fins de tortura. No Brasil dos anos 60, máquinas de “eletrochoque” foram utilizadas em presos políticos que não tinham nenhuma patologia psiquiátrica. Filmes de terror como “A Casa da Colina” utilizam-se desses fatos históricos, e horríveis, para nos assustar, contribuindo como a representação do “manicômio” no imaginário popular.

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Na vida real, a eletroconvulsoterapia (ECT) é, além de segura, o tratamento mais eficaz existente para casos graves de depressão. ECT é estudada há mais de 50 anos e o método de aplicação não se parece em nada com o visto em filmes como: “O Estranho no Ninho” ou “Bicho de Sete Cabeças”.

 

Como a ECT Funciona?

A ECT funciona induzindo uma crise convulsiva generalizada para alterar a atividade dos neurônios do paciente. A ideia ocorreu na década de 1930, quando pesquisadores perceberam que pessoas epilépticas, que tinham convulsões, não apresentavam psicose (perda do contato com a realidade). A ECT regula a liberação de neurotransmissores (moléculas que transmitem informações entre os neurônios), através de impulsos elétricos, e causando um efeito anticonvulsivante. Ou seja, a cada aplicação de ECT é mais difícil causarmos a convulsão. Foi a partir da observação desse efeito antidepressivo da ECT que a psiquiatria começou a utilizar medicamentos anticonvulsivantes como moduladores de humor.

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Como esse procedimento é realizado?

O procedimento é feito em ambiente hospitalar, com o paciente em jejum, anestesiado e monitorizado. Ele pode estar internado ou ir para o hospital realizar o procedimento e depois retornar para casa.  São colocados dois eletrodos na parte frontal da cabeça e um estímulo elétrico muito breve passa entre eles. A eletricidade é suficiente para induzir uma convulsão que é vista apenas no monitor do eletroencefalograma. Todo o procedimento dura 30 minutos, é acompanhado por um psiquiatra e um anestesista e, depois de voltar da anestesia, se a pessoa não estiver confusa ela é liberada para casa. Caso esteja confusa, ela é monitorada até que se recupere.

O único risco é o da anestesia, que ocorre em qualquer tipo de procedimento que utilize anestesia semelhante. A memória só é afetada pelo curto período que segue a anestesia. É uma amnésia semelhante a de um procedimento de endoscopia digestiva alta. Há também a chance de uma leve dor de cabeça após o choque, mas normalmente a aplicação é toda indolor. O tratamento completo deve ser realizado duas a três vezes por semana, com o mínimo de uma e o máximo de 20 aplicações. Ao final da ECT espera-se que o paciente saia do episódio depressivo grave e possa então dar continuidade ao tratamento medicamentoso, já que a ECT por si só não é capaz de curar essas doenças.

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Por que então a ECT é menos prescrita do que os medicamentos?

Pois não são todos os pacientes que podem passar pelo procedimento de anestesia e crise convulsiva. Além dos remédios poderem ser tomados em casa, sem a dificuldade do deslocamento para um hospital.

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Quais são os pacientes que podem ser beneficiados com a ECT?

ECT pode salvar a vida de uma pessoa com depressão grave, unipolar ou bipolar, que se recusa a comer ou tenta suicídio. Estes pacientes, por vezes, não podem esperar duas a três semanas para que os remédios façam efeito, ou podem até se recusar a tomá-los. ECT também é bem indicada em casos em que os remédios não foram efetivos no tratamento da depressão.

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Outros métodos que usam campo magnético ou elétrico:

Também existem a Estimulação Magnética Transcraniana (EMT ou EMTr) e a Estimulação Transcraniana por Corrente Contínua (ETCC), métodos que estão sendo estudados há muito menos tempo mas já se mostraram promissores.

 A EMT funciona através de uma bobina que recebe uma corrente elétrica que é transformada em um campo magnético capaz de ser focalizado em uma pequena área do cérebro. O cérebro, então, transforma esse estímulo magnético em elétrico novamente, alterando a atividade dos neurônios. A produção de um efeito antidepressivo significativo depende do formato da bobina, do local e da intensidade da estimulação.

Diferentemente da ECT, a EMT não induz uma crise convulsiva. O campo magnético tem mais dificuldade para atravessar a pele e os ossos, portanto sua estimulação fica restrita a no máximo 2 cm do cérebro. As indicações seriam depressão unipolar, depressão bipolar e alucinações auditivas na esquizofrenia.Trata-se de um procedimento indolor e que não necessita de anestesia. .

Já no caso da ETCC, uma corrente elétrica flui de um eletrodo para o outro, então o caminho depende da posição desses eletrodos. A ETCC é muito menos focada mas consegue ser mais profunda que a EMT.

Ao contrário da EMT, a ETCC ainda não foi aprovada pelo conselho federal de medicina, pois ainda não apresentou resultados satisfatórios em estudos internacionais..

O sucesso de outros métodos que usam de campo magnético ou elétrico capazes de penetrar sem risco e ativar estruturas mais profundas do cérebro representaria a aposentadoria da eletroconvulsoterapia e, provavelmente, de muitas medicações psiquiátricas.

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Informações adicionais:

– Pesquisadores do IPq – Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da FMUSP, liderados pelo psiquiatra André Russowsky Brunoni, realizaram estudo no qual reuniram dados de aproximadamente 300 pacientes de cinco países – Brasil, Austrália, Canadá, França e Alemanha – e mostraram que a EMT é eficaz no tratamento da depressão, com uma taxa de resposta de 35% e de remissão de 25%, ou seja, 1 em cada 4 pacientes apresenta completa melhora dos sintomas após o procedimento. O trabalho foi apresentado em 16/05/2015 no  70th Annual Meeting da Society of Biological Psychiatry. 

Você pode participar das pesquisas do IPq através do site http://www.sin.org.br/pesquisas/

– A USP está selecionando pacientes, de 18 a 75 anos, de ambos sexos, com sintomas moderados de depressão, tomando ou não medicação, para participar de pesquisa sobre ETCC. Com 240 voluntários previstos, é o segundo maior estudo no mundo. Segundo o psiquiatra e pesquisador do assunto André Russowsky Brunoni, se comprovada a eficácia, a ETCC pode se tornar uma forte indicação ao tratamento de depressão. O tratamento é feito apenas em São Paulo, mas podem se candidatar voluntários de todo o Brasil. Os interessados podem entrar em contato pelo e-mail pesquisa.depressao@gmail.com.

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Bruna

Dra. Bruna T. L. Britzky Roncatti é médica e roteirista, pós-graduada em psiquiatria pelo ISMD – São Paulo. Atualmente atende na clínica Psiquiatria Paulista, escreve seu primeiro longa e acompanha a fase de pós-produção de seu primeiro curta, “Interior”.

Como nerd, é fã de Star Trek e Star Wars, várias séries de TV, lê pelo menos dois livros de ficção por mês e ouve os podcasts do Neil de Grasse Tyson e SciCast, dentre outros. No momento, está numa fase de ler ficção científica.

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Referências:

Revista Scientific American, ano 2, número 17, de outubro de 2003

Revista de Psiquiatria Clínica, volume 31, número 5, de 2004

Revista Debates em Psiquiatria de agosto de 2015

Notícias da Associação Brasileira de Psiquiatria

Como fonte de informações mais recentes, usei a aula de Neuromodulação em psiquiatria do Prof.: André Russowsky Brunoni de 15/10/2015

Livro Cinema e loucura: Conhecendo os transtornos mentais através dos filmes. Por J. Landeira-Fernandez | Elie Cheniaux

http://www2.uol.com.br/vivermente/noticias/retrato_da_-terapia_de_choque-_em_filmes_perpetua_imagem_negativa_do_metodo.html

Imagem de destaque: do filme “O estranho no ninho”

Revisão de texto: Helen Miranda e Isabelle Tancioni


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Isabelle Tancioni

Sou veterinária, cientista, hipster, Tiki, nerd, geek. Gosto de comics, música, cartoons, animais, plantas.