[RESENHA] Placas tectônicas, de Margaux Motin

O livro foi cortesia da editora.Como essa mulher desenha! Esta foi a minha primeira impressão (e a mais forte) quando comecei a ler Placas tectônicas, de Margaux Motin. Um traço delicado, lindamento colorido. E as fotos sobrepostas com ilustrações? Muita coisa bonita para ver.

O livro é um quadrinho autobiográfico desta mulher que passou dos trinta anos e tem uma filha pequena. Fala de relacionamentos de todo o tipo: com o pai, com a mãe, com a filha, com as amigas, casamento rompido, namoro novo, com empregador, com a velhinha que nunca tinha visto antes e trocou duas palavras na rua. Tem muito humor em como ela descreve isso tudo, mas tem também as alfinetadas que fazem a gente parar para pensar.

Boa parte do livro é permeado pelo papel de mãe exausta, que comete diversos deslizes na criação da filha porque a jornada está pesada demais. Convenhamos, não é fácil criar e educar uma criança, ainda mais se você for uma mulher sozinha a quem sobrou essa jornada integralmente. No malabarismo entre continuar tendo uma vida social, ser mãe, trabalhar, não dá mesmo para ser perfeita e atingir todas as metas na vida.

Foi exatamente como isso foi tratado na divulgação do livro que me incomodou um tanto. A graphic novel é apresentada como “quadrinhos para mulheres”, ou algo assim, como se a vida das mulheres só interessassem às próprias mulheres (mulheres leem biografias de homens também, ué). Ou ainda como se assuntos relacionados às mães modernas fossem exclusivamente para mulheres (homens não se interessam a coisas relacionadas a seus filhos?). Isso diminui enormemente a obra (que chega a ser comparada com Bridget Jones em alguma crítica e isso ganhou destaque na divulgação do livro), o que é uma pena, pois tem repelido algumas leitoras que estavam interessadas, mas não curtem “coisas para mulheres”. Aliás, a maior parte das leitoras de quadrinhos que eu conheço leem qualquer coisa interessante, usar esse mecanismo para atrair leitoras me parece um grande equívoco, pois vai acabar afastando quem já lê quadrinhos.

detalhe de página de Placas tectônicas, de Margaux Motin
detalhe de página de Placas tectônicas, de Margaux Motin

Lendo este quadrinho percebi momentos de reflexão sobre a vida que poderiam estar presentes em Scott Pilgrim (com suas referências a cultura pop) ou em obras mais intimistas, estilo que tem vários representantes homens e mulheres nos quadrinhos brasileiros. Margaux Motin faz muitas referências a personagens Disney, boa parte das vezes ironizando o que seria o destino das princesas e o papel que se espera das mulheres no mundo.

página de Placas tectônicas, de Margaux Motin
página de Placas tectônicas, de Margaux Motin

Alguns estereótipos de “mulheres independentes” estão lá presentes, as bebedeiras constantes e o salto alto, por exemplo, nem todos os capítulos me prenderam, o livro tem muitas citações em inglês não traduzidas (creio que a opção do tradutor foi manter como publicado em francês), mas isso fica pequeno diante de momentos belíssimos, como o trecho que dá nome ao livro, todos os interlúdios com polaroids ilustradas e tantos outros momentos de leveza pura.

Capa do livro Placas Tectônicas, de Margaux Motin
Capa do livro Placas Tectônicas, de Margaux Motin

Margaux Motin é francesa, ilustradora e quadrinista, tem várias graphic novels e histórias em quadrinho publicadas e esta é a sua primeira obra lançada no Brasil pela Editora Nemo.

Placas Tectônicas

Margaux Motin

Tradução: Fernando Scheibe

Editora Nemo

Número de páginas: 256

Formato: 17x24cm

R$ 59,90

 

O livro foi cortesia da editora.


Os artigos aqui publicados são de total responsabilidade de suas autoras e editoras.

Roberta AR

Gosto de escrever (o que acabou virando trabalho) e de café. Participo da cena de quadrinhos independentes desde 2007, atuando principalmente na divulgação e na produção. Também sou zineira e escritora.