Sobre os limites da arte, e um pouco de Kanye West

Eu não sou parâmetro para julgar os méritos artísticos de Kanye West: não entendo nada do estilo musical que ele adotou, não acompanho sua carreira e tenho uma antipatia enorme e profundamente pessoal por sua figura. Sei que ele gosta de controvérsias, e que citou a cantora Taylor Swift de maneira extremamente agressiva e desrespeitosa em sua música Famous, fazendo referência ao infame episódio em que tirou o microfone das mãos da cantora durante uma premiação do VMA, ao afirmar que os dois deveriam transar já que ele supostamente a fez famosa. Já teria sido um absurdo se tivesse parado por aí,  Mas Kanye resolveu colocar uma boneca de cera de Taylor nua ao seu lado no clipe da mesma música. E agora alguns críticos estão usando o velho argumento de “isso é arte” para justificar a atitude agressiva do rapper.

Esse texto não busca santificar a Taylor, que tem um histórico racista que não deve ser ignorado, ou ser uma crítica dos méritos artísticos de Kanye West (os quais, como já declarei, ignoro por não acompanha-lo). Mas sim desmistificar a ideia de que a arte é um território sagrado que pode purificar qualquer conteúdo, colocando-o acima de questionamentos. Afinal, o fato do cantor citar uma imagem do pintor Vincent Desiderio em seu clipe o torna automaticamente genial? Ser “arte” justifica a exposição de Taylor Swift? A arte não pode ter seu conteúdo criticado?

Arte e status quo

Já comentei em um texto anterior que arte com A maiúsculo é um conceito a ser questionado, e que o que determina o que é arte em nossa sociedade é uma classificação arbitrária, quase sempre endossada pelo status quo. Afinal, quando alguém afirma que, por exemplo, funk não é arte, ele está questionando não os aspectos formais que classificariam o funk como arte ou não, e sim se o funk deve receber o status de arte, por esse status ser visto como algo muito elevado, geralmente restringido por uma questão de classe.

Sendo assim, a arte é usada como “blindagem” da mesma forma que outros marcadores de status quo na nossa sociedade, como influência e dinheiro, são. Como a arte é vista como algo quase sobre humano, acima dos questionamentos dos não especialistas, muitos artistas recorrem ao infame argumento “você não entendeu” quando questionados. A santificação da arte faz com que o público também se sinta constrangido em criticar o conteúdo de obras, com medo de parecer ignorante.

Porém devemos aprender a desmistificar e, consequentemente, criticar arte. Sinto que as redes sociais não favorecem muito esse exercício por toda a questão de ego envolvida: pessoas temem criticar coisas consagradas e parecerem “burras” e gostar de certas obras se torna um meio de expressão de personalidade e os fãs se sentem pessoalmente atacados quando seus gostos são questionados. O diálogo crítico encontra dificuldades para fluir em uma guerra de memes e tiradas de impacto para conseguir mais curtidas. Mas não desanime. Arte é só algo que as pessoas produzem. É lindo, incrível e o tema ao qual eu dedico minha vida, mas não está acima de críticas, de forma alguma.

Gosto muito de um episódio da série O Poder da Arte, apresentada pelo crítico britânico Simon Schama e veiculada pela BBC em 2006, em que é comentada a obra A morte de Marat, de Jacques-Louis David. Schama reconhece os méritos artísticos do pintor mas não deixa de criticar a obra, que ele considera criminosa por romancear um genocida ao alterar dados históricos em sua representação. Abaixo, é possível ver como o crítico desenvolve esse questionamento..

Jacques-Louis David – O poder da arte por grancircopravda

E o moralismo?

Moralismo geralmente é a primeira pedra que é jogada na crítica de arte feminista (ou de muitos outros movimentos sociais) quando algum artista consagrado tem um problema apontado. Infelizmente ainda existe uma mentalidade muito cristalizada na ideia da libertação sexual como bem maior, como se hoje em dia a ultra sexualização não fosse parte do status quo e que ainda fosse muito inovador expor a sexualidade de forma comercial em tempos de comercial de cerveja.

Basta pensar: a quem o questionamento da moral está servindo? Ele realmente é subversivo? É subversivo sexualizar uma mulher como Taylor e construir um clipe em que Kanye West demonstra poder ter todas aquelas pessoas na sua cama ou é apenas mais um reforço da ideia já conhecida do sexo como submissão da mulher? O que é questionar a moral vigente? Em termos de quebra com o moralismo, seria muito mais subversiva a representação de pessoas vivendo suas sexualidades sem a questão de poder envolvida. Ou se é para usar o paralelo de sexo como poder, que seja de forma inteligente. Penso que mais um rapper exibindo suas conquistas sexuais não tem nada de essencialmente inovador, e a ideia de famosos em uma orgia promíscua, o poder compartilhando a cama, etc, é um clichê bastante ingênuo até sendo vendido como genialidade.

Moralismo não tem a ver com criticar qualquer representação de sexo, tem a ver com questionar como a obra dialoga com a moral imposta por determinada sociedade. Propagandas de cerveja que sexualizam a mulher podem ser abertamente eróticas e ao mesmo tempo profundamente moralistas, por exemplo, se mostrarem mais uma vez a mulher como prêmio. Isso é reforço de status quo. Não tem nada de moralista apontar a velha repetição do mesmo discurso.

A síndrome de The Big Bang Theory

A crítica ao clipe de Kanye tem sofrido também o que eu chamo de Síndrome de TBBT: quando as pessoas se impressionam com um produto cultural fraco porque ele apresenta referências interessantes. No caso da série, lotar de referências ao universo nerd atraiu um público que provavelmente acharia o sitcom previsível e desinteressante sem elas. Em tempos de “enciclopedização” do mundo por conta da internet (esse conceito é discutido, por exemplo, por Janet Murray), exibir conhecimento e referências se tornou uma mania entre os fãs de produtos culturais, como uma forma de demonstrar status.

Fazer uma referência apenas, em tempos de Google, não é por si um grande feito: é preciso estabelecer um diálogo coerente entre referência e obra, que contribua na construção do sentido. Como a arte é profundamente associada ao status quo, muitas vezes o uso de referências também é uma ferramenta para “blindar” produtos ruins ou problemáticos. Ao questionar a obra em questão, imediatamente as referências serão citadas e você poderá ser acusada de “não entender o contexto”.

O exercício interpretativo depende também das referências do observador, ou seja, você. Se sentir que algo é problemático porque acessou de certa forma com suas referências pessoais e gerou essa conclusão, você não deve ter medo de expor isso na sua análise.  A pesquisa serve para contextualizar a interpretação, mas o observador não é 100% dependente dela, apenas.

O importante é entender que a arte está aqui para ser questionada, também. Aos críticos que usam o status de arte para proteger suas obras preferidas, resta lembrar que a produção cultural está inserida na sociedade, em seus valores e na forma que afeta as pessoas. Sendo assim, sobre o clipe de Kanye West que inspirou essa reflexão: achei profundamente problemático e acho que a arte não o blinda de críticas. Assim como não deveria blindar outros gênios, porém agressores.

 


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Beatriz Blanco

Designer, professora, gamer e pesquisadora. Fã da franquia The Legend of Zelda, histórias de terror, aliens e kaijus. Acorda e dorme online.