Porque Elektra da série Daredevil é uma SKRULL*

*Brincadeira com a minissérie em 8 edições pós Guerra Civil “Invasão Secreta”, escrita por Brian Michael Bendis e ilustrada por Leinil Francis Yu lançada no Brasil em 2009, onde alienígenas transmorfos tomaram o lugar de vários personagens da Marvel (inclusive da Elektra).

 

Bem, enrolei bastante para escrever esse texto, tanto que pressuponho que todos os que decidirem lê-lo já tenham visto a segunda temporada da série Daredevil, na Netflix. DO CONTRÁRIO, PODE CONTER SPOILERS!

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Mas precisava escrevê-lo, pois fiquei bem decepcionada com o modo como Elektra, minha personagem preferida da VIDA e das HQs (como vocês podem ver nesse texto) foi retratada nela.

É inegável o fato de que  analisar um personagem com imparcialidade e distanciamento quando se é tão apegada a ele,  é uma tarefa quase impossível, mas as série contém furos que comprometem em muito a performance de Elektra, considerada uma das principais na galeria de personagens do Demolidor e uma das mais letais assassinas da Marvel, já tendo ostentado título próprio, inúmeras participações em revistas de outros personagens e superequipes e até estrelado um filme (que eu sinceramente prefiro esquecer que  um dia existiu).

 

Mergulhando na ninja

Daredevil-Featured

 

Elektra foi originalmente criada para ser uma sidekick/interesse amoroso (mais um) para Matt Murdock. O então novato roteirista Frank Miller havia acabado de assumir o título Daredevil e foi logo incumbido de alavancar suas vendas, já que a publicação nunca havia vendido muito. Assim sendo, acabou criando uma personagem misteriosa, sexy e mortal, uma  mescla de figuras mitológicas e místicas, repletas de significados, que viria a crescer e elevar as vendas da revista, redefinindo para sempre toda a trajetória do Homem Sem Medo.

 

Elektra Natchios surgiu portanto em Daredevil #168, janeiro de 1981, criada por Frank Miller já como uma personagem complexa: uma antiga namorada de Matt Murdock que ressurgia, agora como inimiga, pronta para assassiná-lo. A alusão clara ao mito grego de Electra é importante e significativa em sua personalidade: no mito, Electra (com c) é  movida pelo ódio e pela vingança, tendo como  principal objetivo na vida vingar a morte de seu pai Agamennon, assassinado por sua mãe, Clitemnestra e por seu amante, Egisto. Ela assassina sua própria mãe a sangue frio. A história de Electra foi importada por Carl Jung para a esfera da psicanálise, passando a descrever, na expressão “complexo de Electra”, o desejo e adoração que uma filha nutre pelo próprio pai.

 

Junto a esses elementos gregos, Miller, que adorava a cultura japonesa, também coloca na personagem pitadas de sabedoria nipônica, como o fato dos heróis japoneses sempre extraírem sua força do sofrimento, código samurai, mistérios e treinamento ninja, sempre envoltos em aura sobrenatural, já que eram praticamente os “agentes secretos” do Japão feudal.  Tudo isso, junto a componentes urbanos, que sempre foram o traço mais marcante de Miller como escritor: ultraviolência, mundo cão, sofrimento e dor, moldaram Elektra.

 

Elektra é essa mistura: a filha de um embaixador grego criada em uma ilha isolada do mundo, tendo sido treinada desde a mais tenra idade em todas as artes marciais (seu pai tinha medo de seqüestros e ataques, pois além do cargo governamental, também era envolvido em transações ilícitas e crime organizado) que vai para Nova Iorque estudar e  vê seu pai, que sempre fora o centro de seu mundo, ser morto por ENGANO, por policiais que deveriam protegê-lo. Com isso, ela perde o prumo, alimentando dentro de si ódio e desejo de vingança por uma sociedade decadente e violenta e decide virar uma assassina mercenária. Além disso, sua mãe fora assassinada ainda grávida dela, em um suposto ataque terrorista armado pelo próprio marido, que descobriu suas infidelidades. Isso é mostrado em Elektra -Raiz do Mal,- Chichester/McDaniel- 1996. Em resumo muito bem resumido, essa é Elektra.

 

Ao longo do tempo, porém, quando a personagem vai sendo trabalhada, inclusive em minisséries exclusivas, revistas mensais e one shots, sua história vai sendo destrinchada com mais cuidado e riqueza de detalhes e ela sai da sombra do Demolidor, ganhando o protagonismo.

 

Existem em Elektra, também, elementos de um arquétipo japonês conhecido como “tsundere”,comumente encontrado em animes shonen, algo como “agridoce”. Alguém que oscila entre um temperamento MUITO agressivo e  momentos efêmeros de doçura e humanidade. O fato é: Elektra sempre foi cruel. Perspicaz, sarcástica. Gostava de matar, tinha prazer nisso desde muito pequena. E uma fúria inexplicável e incontrolável dentro de si. Frank Miller sugere em Elektra Assassina – (Miller/Sienkiewickz -1986)  que ela tenha sido abusada pelo pai aos 5 anos e que  isso criou entre eles um elo doentio,que inclusive mexeu com sua sanidade, o que pode ter motivado essa fúria assassina.

 

Ou ainda nas palavras de Dennis O’Neill, antigo roteirista de Demolidor e editor de Miller na época em que ele criou Elektra: “Existe todo um universo na interação de opostos e Elektra reflete essa dualidade. Ela é, ao mesmo tempo, prazer e destruição, esplendor e decadência, útero e túmulo. Sua fúria é a perversão de um idealismo, é uma mulher constantemente dilacerada entre os pólos de sua natureza dividida”.

Agora, depois desta LONGA introdução à personagem, vamos aos pontos que desfavoreceram-na na Segunda Temporada de Demolidor na Netflix.

 

1-Muito personagem para uma temporada só

 

Um dos MAIORES erros da produção, no caso, foi ter colocado dois personagens igualmente importantes e complexos como Justiceiro e Elektra em uma mesma temporada. Ambos mereciam dedicação e atenção mas foram apresentados de um jeito confuso e atropelado, perdendo grande parte de seu potencial por terem que dividir espaço e protagonismo.

 

2- Mimada Att whore

 

 

Elektra aparece, do nada no apartamento de Matt Murdock (tudo bem, até ai ela é uma ninja) no momento em que ele parece ter se acertado com Karen Page. Ou seja: ela é colocada na trama como a bitch que vai concorrer com outra mulher pelo “grande prêmio” que é O HOMEM ! Vai atrapalhar o romance dos protagonistas. Vai jogar água no chopp, atormentar a vida dele. Tadinho! #SQN.  Inclusive o fato dos roteiristas terem mudado completamente a HQ e terem feito com que o encontro dela e Matt fizesse parte de um plano de Stick,  foi ridículo e INVALIDA totalmente a importância da ninja na vida do Demolidor, Não, ela não PRECISA disso. Ela passa grande parte da temporada tentando seduzir Matt, clamando por atenção. Também está LONGE da personalidade da personagem. Ela é orgulhosa e nunca demonstraria qualquer sentimento do tipo. Nas HQs fica claro que Elektra sempre foi pragmática e o sentimental era quem? Matt Murdock.

 

3- Nervosa e confusa

 

Tudo bem, é até explicável que a Elektra da série seja um frankenstein de várias Elektras, a da primeira fase do Miller em Demolidor (81)  a de Homem sem Medo,a de Elektra Assassina, a de Chichester, Brian Michael Bendis, Greg Rucka, (A fase Deodato/ Milligan e me recuso colocar na lista)  o que faz com que ela realmente pareça bipolar. Uma hora parece fria, cruel e impiedosa, em outra, carente, titubeante, fútil. Elektra é filha de um  diplomata, extremamente culta, nada rasa. No afã de fazerem com que ela parecesse uma patricinha entediada com a vida, deixaram-na extremamente blasè, desumana. Chata, nada carismática. Meh. 

 

4- Lutas medíocres

 

Em uma certa altura, quando ninjas invadem seu apartamento, ela RECLAMA que está CANSADA no meio de uma luta e procura o tempo todo pelo Demolidor. Sério, não quero nem comentar isso aqui. Tudo bem, o período cronológico  da série pode até ser diferente do das HQs, ela podia estar no começo de treinamento, não sei (o que não era verdade, na série Stick parece ter treinado Elektra ainda criança, como fez com Matt)  mas, meu deus, nada justifica a MAIOR NINJA DA MARVEL pedindo arrego em uma luta! Eu esperava saltos, chutes e piruetas fenomenais estilo filmes de kung fu dos anos 70, mas ao invés disso vi Elektra, minha personagem preferida, pedindo penico. Que vontade de chorar!

 

5- Inversão de papéis

 

Em um dado momento Matt Murdock coloca Elektra contra a parede e diz para ela que “se ela não for uma boa menina e parar com essa coisa feia de ser assassina e gostar de matar pessoas eles não vão poder namorar” – Não foi bem com essas palavras, estou sendo sarcástica, mas foi mais ou menos isso que ele quis dizer. Isso NUNCA aconteceria. Quem abandona Matt por entender que ambos lutam por ideais diferentes (Matt quer justiça, Elektra quer vingança) e que ela é uma ASSASSINA e ele um herói é ELEKTRA! Ela é quem dá o fora em Matt e ele fica choramingando pelos cantos, como sempre. ODIEI essa inversão. Uma mulher como Elektra precisando da aprovação de um homem para existir. Por favor!

 

6- Stick, o homem do saco

 

A série deu a entender que Stick era um velho cego e louco que aliciava criancinhas indefesas e as transformava em máquinas de matar para lutar contra um culto nipo-satanista chamado Tentáculo. Bem, não que Stick seja a melhor pessoa do mundo, mas nas HQ ele NÃO QUER treinar Matt, é Matt quem insiste para que seja treinado e ele treina Elektra depois de ADULTA, quando a aceita na ordem dos Virtuosos, para depois expulsá-la por achá-la indigna, vingativa. Existe uma relação de admiração e ódio entre eles muito grande, Praticamente não se suportam nas HQ. Na série, ela é totalmente devota a ele. Não entendi…

 

7- Black Sky

 

Ao que parece Black Sky era algo super  especial (depois descobrimos que se tratava de uma criança)  que Wilson Fisk pede para o Tentáculo trazer do Japão para os EUA e Matt, Elektra e Stick precisam impedir que isso aconteça. Depois de uma conversa bem louca onde Matt diz que estar ao lado de Elektra é finalmente assumir seu lado selvagem e que ele a ama  (na noite anterior ele havia beijado Karen Page na chuva, uma linda cena – OU SEJA…) eles lutam contra os ninjas do Tentáculo (a cena dos ninjas subindo os telhados foi TOTAL Frank Miller, isso foi emocionante, igualzinha ao gibi) Elektra se “sacrifica” por Matt e morre mixurucamente, como nunca seria capaz de morrer nas HQs. O que foi isso? Alguém anotou a placa? Um horror absoluto.

 

Enfim, depois de todos esses pontos analisados e do próprio Frank Miller, ao ser indagado na CCXP 2015 sobre o que achou da Elektra da série, ter respondido “Falem o que quiser, essa não é a Elektra”, só posso concluir que a Elektra da série Daredevil da Netflix é uma SKRULL, o que, convenhamos, deixaria a trama muito mais interessante.

 
Agora, um ponto que gostaria de abordar aqui: uma das razões de eu gostar tanto de Elektra é justamente porque ela se assume. Ela assume quem ela é. Abraça seu lado negro. Ela é uma assassina. Uma mulher assumir-se mortífera e cruel, sentindo prazer nisso, embora este não seja o melhor exemplo a ser seguido, obviamente, é altamente empoderador, ao meu ver, porque a coloca em um patamar de igualdade com o homem, já que a violência não favorece um ou outro gênero, ela acomete o ser humano de modo geral e comum. Não é símbolo de virilidade, como se acreditava antigamente. É pura manifestação da maldade humana e independe de sexo. Portanto, não. Não existe nada no DNA da mulher que a faça mais bondosa ou delicada, feminina, maternal ou qualquer outro atributo associado a feminilidade, nenhum gene cor de rosa capaz de fazê-la titubear antes de cometer um ato hediondo, comparada a um homem. Ter essa consciência é, na maioria das vezes, um fator moral e de caráter, não biológico. Somos seres humanos, capazes dos atos mas vis e mais amáveis do mundo, de modo perfeitamente IGUAL.  Portanto, vilãs (e anti-heroínas) também podem nos ensinar sobre empoderamento, sim. E o recurso de emprestar às vilãs, traços femininos e maternais, na tentativa de humanizá-las e justificar seus atos  é amplamente usado por roteiristas homens . Afinal, uma mulher não pode ser tão cruel ou tão ruim ou tão violenta. Já repararam? Existem mulheres ruins sim. Somos iguais. No dia em que o Coringa pedir desculpas pelas coisas que faz e decidir se trancar no Arkham  porque pensou em seu suposto filho, a gente conversa, belê?


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Gabriela Franco

Jornalista especializada em cultura pop, produtora, cineasta e mãe da Sophia e da Valentina Criadora do MinasNerds.