Donnie Darko: o livro que os fãs do filme precisavam

donnie_darko_darksideFilmes cults costumam reunir uma legião de fãs apaixonados em torno de si, principalmente aqueles que deixam abertura para a discussão de teorias como o clássico de 2001 Donnie Darko. Com um herói não convencional e uma narrativa complexa que envolve viagem no tempo e messianismo às avessas, todo material adicional é bem vindo. E é essa a proposta do livro Donnie Darko lançado pela editora Darkside Books (2016, 240 páginas)  com tradução de Antônio Tibau, que também assina uma divertida introdução à edição em que descreve Donnie Darko como o primeiro filme cult do século XXI.

O livro em si inicia com um prefácio pelo ator Jake Gyllenhaal, estrela do filme, em que ele debate a figura outsider de Donnie como uma crítica à passividade da cultura norteamericana e revela nunca ter chegado a um sentido fechado para o personagem, que pode ser tudo o que o público imaginar. Em seguida lemos o que considero a melhor parte do livro, uma longa entrevista do diretor e roteirista Richard Kelly ao especialista em roteiros Kevin Conroy Scott. O bate-papo aborda as referências de Kelly, a ausência de um significado fechado para Donnie Darko e a opção pela conclusão aberta, os perrengues enfrentados por um roteirista recém formado e sem conexões tentando emplacar um filme com uma proposta tão complexa em Hollywood, e aspectos técnicos como a escolha musical e os efeitos especiais do longa. Após a entrevista, o livro traz o roteiro completo, com cenas cortadas da edição final, e o livro que Donnie Darko lê durante o filme, A filosofia da viagem no tempo.

Se você é um fã de Donnie Darko (presente!) vai amar ler o livro e devorá-lo em poucas horas. A edição é um fanservice maravilhoso, bem ilustrada, cheia de detalhes caprichosos como o marcador de páginas em forma de avião com um trecho da letra da música de abertura do longa, The Killing Moon do Echo & The Bunnymen, e a ilustração que decora a parede do quarto de Donnie nas primeiras páginas, que me fez dar pulinhos enquanto abria o livro pela primeira vez.  Sério, você precisa ter essa coisa linda na sua estante se for tão pirado pelo filme quanto eu sou. Porém se não for um fã, talvez não ache o livro tão atraente assim, já que ele não é uma novelização e ler um roteiro pode ser cansativo para quem não se interessa nem pelo tema e nem pelo formato.

Profissionais de cinema e audiovisual em geral também vão aproveitar bem essa edição Donnie Darko, pois o livro expõe algumas questões importantes da produção de filmes independentes através da entrevista de Kelly. É surpreendente saber como um roteiro pode passar de mão em mão por mais de um ano e não ser produzido, mesmo quando sua qualidade é reconhecida. Ou que as bilheterias realmente boas para Donnie Darko vieram da Inglaterra, país onde o filme foi apoiado por artistas de rua que pichavam seu título nos muros. O detalhamento das referências de Kelly, que vão de David Fincher a histórias de super heróis também é interessante para tentar entender como um universo tão complexo quanto o do filme foi concebido.

O livro não explica mais sobre o significado do filme, já que Kelly ressalta repetidas vezes ter optado pelo final em aberto e não saber qual seria o real final de Donnie Darko. Mas com os pontos abordados na edição é possível traçar alguns paralelos e caminhos para o sentido da saga de Donnie e Frank. Kelly afirma que queria fazer um filme não convencional de super herói, e nesse sentido é possível perceber como Donnie Darko desconstrói a figura mitológica do redentor ao revelar o lado perverso do aparentemente feliz subúrbio em que habita e redimir às avessas a mediocridade da sua comunidade com seu sofrimento de outsider, incapaz de alcançar paz de espírito em um mundo que não o acolhe.  Leitura obrigatória para você que não quer perder o prazer de pirar nas teorias, apenas refiná-las mais.

Donnie Darko – Richard Kelly. Tradução de Antônio Tibau. DarkSide Books 2016. 254 páginas

Esse livro foi cedido pela editora para resenha

Conheça a DarkSide Books: FacebookTwitterInstagramSite Oficial


Os artigos aqui publicados são de total responsabilidade de suas autoras e editoras.

Beatriz Blanco

Designer, professora, gamer e pesquisadora. Fã da franquia The Legend of Zelda, histórias de terror, aliens e kaijus. Acorda e dorme online.