Temos vagas – Modelo de ciência aberta que funciona!

Por Katlin Brauer Massirer,

Um desafio da nossa geração de cientistas é encontrar meios que acelerem o desenvolvimento de novos medicamentos e o tratamento de doenças. Hoje temos a consciência generalizada de que o desenvolvimento de novos medicamentos é bastante lento e ineficiente, com uma estimativa de que somente um em cada 10.000 compostos químicos testados resulte em um medicamento aprovado.

Muitas vezes temos conhecimentos limitado sobre a biologia de uma doença, o que dificulta o planejamento racional de moléculas químicas. Pensando sobre estes casos, é bastante óbvio que nenhum laboratório acadêmico ou empresa farmacêutica é capaz de realizar essa pesquisa sozinha.

Para mudar esse cenário, a discussão crescente entre indústria farmacêutica e o meio acadêmico está resultando em algumas idéias e modelos inovadores no desenvolvimento de medicamentos.

O Brasil também se inseriu nesta discussão e há dois anos foi iniciado um projeto de química medicinal de ciência aberta (do inglês, open science) que faz parte de um modelo mundial: O Consórcio do Genoma Estrutural (do inglês, Structural Genomics Consortium, SGC). O SGC é uma parceria entre o ambiente acadêmico, os financiadores públicos (agências de fomento e órgãos governamentais) e as empresas farmacêuticas. Este consórcio tem como objetivo promover o desenvolvimento de novos medicamentos por meio de pesquisa de inovação aberta.

O que isso significa na prática?

Os grupos de pesquisa do SGC definem quais proteínas humanas que têm o potencial de se tornarem alvos para a produção de novos medicamentos. O setor público, por meio de projetos e agências de fomento, financia o uso de equipamentos como também, bolsas para alunos/as e pós-doutorandos. Já a indústria farmacêutica também participa com financiamento de projetos e ainda compartilha suas grandes coleções/bibliotecas de compostos químicos.

O SGC é um consórcio mundial com três centros principais: Toronto (Canadá), Oxford (Inglaterra) e Campinas (Brasil) e alguns satélites. O centro brasileiro está localizado na Unicamp (Universidade Estadual de Campinas). O SGC-Unicamp tem como objetivo gerar de moléculas inibidoras de proteínas quinases, as quais estão envolvidas com uma gama de doenças como câncer e doenças neurológicas. O centro é composto pelos seguintes setores: seleção das quinases a serem estudadas e amplificação destas regiões do genoma, expressão da proteína, purificação da proteína, cristalografia e ensaios para avaliação de atividade. 

Mas onde está a arte da pesquisa aberta?

Ao descobrir que uma molécula tem a função de inibir a ação de uma determinada proteína quinase e que ainda não é toxica para a células em cultura no laboratório, esta molécula é disponibilizada para qualquer grupo de pesquisa ou indústria farmacêutica do mundo. Com a implementação deste sistema, vários grupos do mundo poderão ter acesso a estudos mais rápidos. Nesta fase inicial de descoberta de novas drogas, as universidades e empresas são livres para modificar as moléculas promissoras e desenvolver estudos que visam testar estas moléculas com mais detalhes, inclusive com o direito a gerar patentes.

O projeto SGC no Brasil tem financiamento conjunto da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e o SGC global. O projeto Unicamp é coordenado pelo professor Paulo Arruda, por mim e por outros pesquisadores colaboradores inclusive do exterior. Os laboratórios em Campinas estão totalmente operacionais e, tal como os outros laboratórios em Oxford, Toronto, Chapel Hill, os resultados de suas pesquisas serão abertos à comunidade.

Sobre mim:

Foto_Katlin

Sou graduada em Farmácia na área de Análises Clínicas pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM-1996) com mestrado em  Análises Clínicas pela Universidade de São Paulo (USP-2000) e doutorado integral no exterior em Genética, Biologia Molecular e Celular e Bioinformática pela Universidade da Califórnia San Diego (UCSD). Fiz meu pós-doutorado na mesma Universidade e atualmente sou pesquisadora C no CBMEG (Centro de Biologia Molecular e Engenharia Genética) na Unicamp.

Há um ano atrás fui convidada pelo coordenador geral, Prof. Dr. Paulo Arruda, a coordenar e gerenciar este projeto na Unicamp. Não tive dúvida que esta seria uma grande oportunidade de realizar ciência em nível internacional e em acelerar a inserção do Brasil nos modelos de ciência aberta. Também sou motivada pela transferência de conhecimento cientifico e em gerar competitividade da indústria farmacêutica nacional. Durante o primeiro ano estabelecemos colaboração com a Ache Farmacêutica e com laboratórios acadêmicos e pretendemos expandir as colaborações a cada ano. No momento, temos um time de 6 pós-doutores e 6 técnicos divididos das área de clonagem e produção de proteínas, cristalografia, ensaios enzimáticos e ensaios celulares. Nós pretendemos ter um processo constante de avaliação de candidatos a pós-doutorado e alunos de doutorado.

Para saber mais sobre o SGC:

http://agencia.fapesp.br/centro_de_inovacao_aberta_da_unicamp_completa_um_ano/22814/

http://www.thesgc.org

http://www.ache.com.br/inovacao/inovacao-radical/

Envio de CV e cartas de interesse para vagas de doutorado e pós-doutorado: sgc.unicamp.aplications@gmail.com

Revisão de texto:  Isabelle Tancioni


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Isabelle Tancioni

Sou veterinária, cientista, hipster, Tiki, nerd, geek. Gosto de comics, música, cartoons, animais, plantas.