20 anos de Riot Grrl!

Quando você junta música, política e feminismo surge o Riot Grrrl!

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O Riot Grrrl! foi um movimento artístico, predominantemente  musical e por consequência social, muito significativo e importante nos anos 90, que deu voz a muitas mulheres e fez com que o feminismo ganhasse força e chegasse em territórios considerados bem masculinos e misóginos – como bem sabemos que são os palcos do rock’n roll, no caso, sua vertente, o punk – marcando seu espaço de direito.

Riot Grrl! (uma brincadeira com a palavra “riot” – “revolta/motim” e Grrl = girl, garota, mas também a onomatopéia para grunhido, rosnado) na verdade era o nome do fanzine feminista (revista artesanal feita por fãs, geralmente focada em um assunto por edição) da vocalista da banda punk Bratmobile, Allisson Wolfe.

Nele, a vocalista arregaçava o verbo e  tocava em pontos nevrálgicos do mundo do rock, alguns dogmas machistas como :“mulheres NÃO SABEM tocar tão bem quanto homens”, “A agressividade e sexualidade do rock advém da testosterona masculina, o rock é essencialmente masculino”, “mulheres não conseguem ser agressivas em suas músicas”, “shows ao vivo com mulheres só valem se elas forem lindas e estiverem seminuas” e daí pra baixo.

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Obviamente, assim como acontece com qualquer nicho em que homens são maioria e ditam as regras (leia-se: mijam nos cantos para marcar território),  meninas talentosíssimas sentiam-se acuadas e desencorajadas a tomar a frente de uma banda e tocar um instrumento.E nem era o caso de serem talentosas ou não, era o caso de terem e exercerem o simples direito de se expressarem. Afinal, o punk rock nunca foi berço de virtuoses da música e uma das ideias do Riot era justamente abraçar toda e qualquer mulher que quisesse fazer parte dele “não importa se você toca bem ou não, importa se você tem algo a dizer” – era uma de suas premissas.

Com o surgimento de bandas como o próprio Bratmobile, e outras igualmente importantes como Bikini Kill, Tribe 8, Babes In Toyland e 7 Year Bitch, as mulheres foram se sentindo representadas no meio. A ideia era justamente a desconstrução e o combate do estereótipo da mulher no rock: elas faziam questão de não serem sexys, fofinhas, esteticamente agradáveis ou dentro dos padrões da indústria musical e da mídia . Suas músicas, idem: não eram nada melodiosas, eram protestos puros e simples. Eram sarcásticas, eram ácidas, às vezes bem humoradas, às vezes pesadíssimas e tocavam em assuntos como: menstruação, métodos contraceptivos, aborto, homens escrotos, depressão, suicídio, silenciamento e opressão da mulher na política, nas artes e na sociedade de um modo geral. E assim, o padrãozinho “mulher só faz música fofa e romântica” caiu por terra, para sempre. Era punk rock feito por mulheres.

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As grandes musas do movimento foram Patti Smith, Debbie Harry, Joan Jett, Suzi Quatro, precursoras das mulheres no rock. Mas, as meninas do Riot deixaram sua marca, totalmente genuína e nova na história do gênero. Não havia claramente uma líder, afinal ess era uma marca do patriarcado  também era combatida por elas, mas, a supracitada Alisson Wolfe e, principalmente, a ex-stripper Kathleen Hanna, vocalista  do Bikini Kill, foram suas grandes porta-vozes.

Os shows do BK eram especialmente “difíceis” para garotos assistirem. E elas faziam isso de propósito, óbvio. O Bikini Kill costumava “mandar”, ao vivo, os rapazes para as filas mais distantes do palco, deixando as garotas nos melhores lugares e faziam questão de  entregar panfletos com as letras das músicas para que todos pudessem acompanhar seu conteúdo, que era extremamente contestador e empoderador.

Kathleen costumava fazer os shows com os braços, abdômen ou costas rabiscados com palavras como RAPE (“estupro”) ou SLUT (“vagabunda”), como  uma forma de protesto à violência sexual e aos comentários “machistas” que rotulavam as mulheres que gostavam de rock ou as mais “liberais”.

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Outra grande personalidade no movimento foi Courtney Love e sua banda Hole, APESAR de ela mesma, por contas de rixas pessoais com Hanna, ter renegado o movimento feminista e dito que não queria que sua banda fosse associada ao Riot Grrrl, a maioria das músicas do Hole são inegavelmente feministas.

O Hole tinha bastante sucesso no underground dos EUA, especialmente no berço do Riot Grrl, a cidade de Olympia, em Washington. Foi através desse sucesso que Kurt Cobain, que adorava garimpar bandas e sonoridades novas, acabou conhecendo Courtney e o resto da história você já conhece (inclusive aquela parte em que Courtney é CULPADA pela morte de Kurt, e enfim, NÃO FOI, apesar dos machistas SEMPRE colocarem a culpa na mulher, mas isso é assunto para outra matéria).

Enfim, o Riot Grrl foi um movimento significativo que chamou a atenção do público e da mídia para a marginalização da mulher nos meios artisticos, em especial o do rock’n roll, foi multifacetado, abrangeu teatro, mostras fotográficas, encontros, festivais, fanzines, deu voz, lugar e expressão a milhões de mulheres que se sentiam incapazes, menores e inaptas a ingressarem na música e podemos ouvir ecos de sua sonoridade em muitas bandas femininas hoje. Segundo o jornal inglês The Guardian, mesmo após 20 anos ele continua relevante para meninas que buscam sua própria independência musical através do rock.

Banda Dominatrix
Banda Dominatrix

No Brasil, o principal nome do Riot Grrl foi a banda Dominatrix, apesar de bandas punks feministas como as Mercenárias já existirem desde o final dos anos 70 e outras de vocal feminino como o Bulimia também abrilhantarem a cena.  A Dominatrix ainda está na ativa fazendo shows e realizando verdadeiros debates sobre as diversas causas femininas e o direito das minorias e grupos marginalizados. Porém, existem muitas outras as quais infelizmente não temos acesso porque não saem na mídia e fazem parte de festivais específicos da cena. Se você quiser prestigiar bandas de minas, conhecer, compartilhar dar voz a elas, clica aqui no Arquivo Riot Grrl Brasil e FAÇA A SUA PARTE, dando uma força para as bandas das manas e mostrando que lugar de mulher é onde ela quiser sim, inclusive em cima de um palco gritando contra o machismo.
E aqui,  listinha Riot Grrl no Spotifái 🙂  No rest for the wicked and riot girls! GO!


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Gabriela Franco

Jornalista especializada em cultura pop, produtora, cineasta e mãe da Sophia e da Valentina Criadora do MinasNerds.