Uma de Nós – Mudando o mundo só por existir.

Fu Hao a general chutadora de bundas que mostrou que mulheres podem sim ser generais, treze séculos antes do tempo comum.
General Fu Hao, primeira general chinesa, no século 13 antes do tempo comum, por Tammy Tan

Eu estou tentando escrever esse texto pela décima sétima vez. Porque as últimas semanas foram bem pesadas no quesito “coisas ruins que eu li”. Não se passaram dois dias sem receber notícias de algo de horroroso que foi dito no mundinho do RPG. A capacidade humana de falar barbaridades e de agir com crueldade não deixou de me surpreender nenhum dia. Machismo, racismo, homo/bi/transfobia. Dentro das mesas de jogo e entre jogadores de RPG. Comunidades que destilam toxidade. Eventos onde não se está segura. Textos que você questiona qual a função além de expor preconceitos e ideias que poderiam ter saído do Martelo das Feiticeiras.

E cada vez que eu começava a escrever, eu me via soterrada por essas coisas horríveis todas. E não é fácil. Não tem pele grossa o bastante, não tem arrogância élfica que consiga não se deixar afetar. Mas não fazer nada é algo fora da minha natureza. Então eu sentei aqui, na décima sétima tentativa, para falar não sobre o mal do mundo, porque ele está ai para quem quiser abrir os olhos e ver. Mas para falar das armas e ferramentas que temos para mudar isso.

Eu estava ouvindo uma música hoje, chamada One of Us, da Heather Dale. Aliás, recomendo muito Heather Dale para trilha sonora de jogo, especialmente fantasia.

“Before I got to fighting (or when fighting got to me)
 I looked to find examples on the field of chivalry
I saw mighty arms much stronger than my arms would ever be
And I thought perhaps the field was not for me
But I stayed and watched the fighting ‘til one figure stood apart
In armour newly fashioned and a helm more pot than art
But each blow was thrown with honour and a lightness of the heart
So I took that step which soon became a start”

(tradução tosca da tia segue, porque ninguém é obrigada a manjar de inglês:

“Antes que eu chegasse ao combate (ou que o combate chegasse a mim)
Eu busquei no campo por exemplos de cavalheirismo
Eu vi braços poderosos, muito mais fortes do que os meus jamais seriam
E pensei que talvez ali não fosse lugar para mim
Mas eu fiquei e observei a luta até que uma figura se sobressaiu
Uma armadura recém feita e um capacete mais panela do que arte
 Mas cada golpe lançado com honra e leveza no coração
Então eu dei um passo que em breve se tornou um início.”)

 

PentesileiaUma das coisas incríveis do ser humano é a quantidade de coisa que aprendemos vendo uns aos outros. Aprender por observação é muito mais do que aprender o conteúdo dado. Na minha carreira como professora, vejo meus alunos aprendendo não só o que eu digo, mostro, ensino, mas pegando meus maneirismos e trejeitos, minhas gírias e atitudes. Assumem meus hábitos de desenho e meu jeito de segurar a caneta. A quantidade de mães que devem me odiar enquanto os filhos recusam canetas hidrocor e querem marcadores permanentes por motivo nenhum exceto o fato de me verem desenhando com eles…

E eu fiz o mesmo. Não só mimetizo meus professores e as pessoas que eu admiro. Mas o jeito como faço anotações nas planilhas eu peguei de amigos que jogavam RPG a mais tempo que eu. O jeito como eu ando nas convenções. O que me chama atenção na miríade de sistemas e livros que chegam até minhas mãos. Eu sei que construí minhas referências a partir de muitas pessoas com quem eu convivi. Algumas dessas referências foram ótimas. Graças a todos os deuses antigos, eu sempre estou pronta a enfiar a cara em um sistema novo e tenho uma coleção divertidíssima e sem a menor lógica de todo tipo de jogo, porque minhas primeiras experiências foram em grupos que tinham o hábito de experimentar montes de sistemas de jogo diferentes. Mas eu também achava natural ser a única mina na mesa de jogo e um monte de ideias bem distorcidas sobre meu papel na comunidade, coisas que demorei para desmontar e mudar.

Hangaku Gozen Não é a toa que uma subcultura tem um monte de características visuais e de comportamento que a caracterizam. A gente vai pegando o jeito das coisas com as pessoas do meio. Temos nossa própria linguagem, temos nossas piadas internas. E são referências cruzadas: todo mundo aprende com aquilo que todo mundo está fazendo. Mas do mesmo jeito que eu faço questão de desenhar na frente dos meus alunos para eles também criarem o hábito, é preciso pensar em como é que a gente se coloca na nossa comunidade, porque nossas atitudes vão ser observadas, absorvidas e vão fazer parte do repertório das pessoas que convivem com a gente.

Quando você coloca na sua aventura 50% de NPCs de cada gênero (o que é o mínimo de realismo, amiguinhos), você não está fazendo a diferença só na sua aventura, mas em todo o imaginário de quem convive com suas aventuras. Quando não trata quem chegou agora como se fosse uma ameba descerebrada, e sim com respeito, você está fazendo a diferença em como aquela pessoa vai tratar os novatos que aparecerem daqui dez anos. E se você fez a pessoa se sentir acolhida, ela vai ficar.

A comunidade do RPG adora dizer que faltam novos jogadores. Mas será que estamos acolhendo os que chegam? Será que estamos inspirando essas pessoas a ficarem e jogarem com a gente, ou estamos excluindo sistematicamente novas jogadoras? Adoro como na música ela fala de se sentir inferiorizada porque todo mundo parece tão poderoso… e então perceber que tinha gente como ela ali, lutando também. Acolhimento.

Em outro trecho da música, ela diz o seguinte:

She was ladylike and lively, not the type you would expect
With a braver heart than many and a slot-shot to respect
I guess she’d once decided this was where she’d like to be
And I thought if she could do it, why not me
(“Ela era feminina e vivaz, não o tipo que você iria esperar
Com um coração mais corajoso do que muitos, e uma pancada de admirar
Eu aposto que um dia ela decidiu que era aqui que ela queria estar
eu pensei se ela pode fazer, porque não eu?”)

Timoclea, que mostrou como é que se trata um misógino e Alexandre Magno deu joinhaÉ preciso romper o silêncio. Nós existimos, estamos ali. Todo tipo de diversidade se abriga dentro do mundinho do RPG. E quando a gente faz as coisas e não se submete, quando tomamos a frente e assumimos nosso lugar, estamos dizendo para as pessoas que elas podem fazer o mesmo. Quem vai mestrar? Todo mundo pode. Quem vai organizar um evento de RPG na biblioteca, na praça, no centro cultural, na loja, na rua? Todo mundo é capaz. Quem vai aprender tudo sobre um assunto e virar uma enciclopédia viva a respeito daquilo? Todo mundo pode. Mas é o fato de ver outras pessoas como você dando conta que faz você ter esse ímpeto de tentar. Nós temos o poder de ferir e destruir com nossas atitudes, mas também podemos inspirar. E quando ocupamos os espaços, estamos emprestando nossa força para outras pessoas. Porque não é o cara, aquele típico, branco, hetero, cis, classe média, dizendo para uma menina recém chegada no rolê que ela pode mestrar que vai fazer a diferença na confiança dela. É ver outras mulheres mestrando que vai fazer ela saber que pode. E se você é o cara, aquele típico, e está lendo isso aqui (oi meninos, eu sei que vocês estão ai), o seu papel é só sair de cena um pouco. Não tente falar pelas outras pessoas, não faça de quem é diferente de você um elemento de decoração. Aprenda a ouvir mais. Porque para a gente ter uma comunidade mais saudável, você também tem que ser exemplo para os moleques que estão chegando agora, para que o espaço seja seguro para todo mundo.

Mais adiante na música, ela diz “’Cause you never know who’s watching or how far the story goes” (“porque você nunca sabe quem está olhando ou quão longe a história vai”). O motivo pelo qual tantas histórias horríveis chegam até mim e até qualquer pessoa que se atreva a olhar nessa direção é esse. As histórias chegam longe. Não passa desapercebido. O tempo do silêncio já passou, e estamos nos erguendo para enfrentar aquilo com que não dá para concordar. Então pensa bem antes de fazer caquinha, como você quer ser lembrado? Eu prefiro ser lembrada como alguém que estava preocupada em acolher quem chega, quem está lá para um jogo que é uma diversão cooperativa. E não tem graça vencer sozinho em um jogo cooperativo. Eu quero o prazer de saber que todo mundo saiu da minha mesa com o coração quentinho e boas lembranças (lembrando que eu narro quase sempre aventuras de horror pessoal, distopia e desgraceira, nada com muitos coelhinhos e corações, mas por isso mesmo eu quero que seja enriquecedor e que as pessoas saiam bem da minha mesa, e não pior do que chegaram). Me interessam as histórias de como meus jogadores ficaram satisfeitos e não em como aterrorizei um jogador ou fiz alguém desistir de uma campanha dificultando a vida do personagem só pelo sadismo.

‘Cause she was not the biggest fighter, nor one to raise a fuss
But I remember being proud that she was one of us
(“Porque ela não era a melhor combatente, alguém que chamasse a atenção
Mas eu lembro do orgulho de que ela fosse uma de nós.”)

Eu quero terminar esse texto com uma saudação a essas pessoas que fazem a diferença. Gosto do conceito de “estar presente”: assumir seu lugar no mundo. Viver é um ato político. Sinto muito Hypsicratea, rainha, guarda-costas, general, rebelde e sem noção linda em geralpara quem quer acreditar que existe neutralidade no mundo. Nossas atitudes afetam nosso meio, e felizmente no meio de tanta barbaridade, existem pessoas que fazem uma real diferença simplesmente por serem alguém como nós e que vemos fazendo, existindo, tornando o mundo possível. Muitas vezes tomando porrada pela gente. Gente que eu tenho orgulho de que seja uma de nós, um de nós.

Não precisamos ser os melhores, os mais capacitados, os mais incríveis mega das galáxias manjadores, cavaleiros do zodíaco, para tornar nosso meio um ambiente mais acolhedor e tolerante. Para o cenário crescer sempre e atrair gente, para ser saudável para quem está no nosso meio, para ser seguro e divertido, é preciso não se calar diante do que é injusto, e assumir seu papel de fazer o melhor possível nas pequenas coisas, não só quando alguma coisa explode e cria uma onda de choque que atinge grandes proporções. São as pequenas atitudes que movem as maiores. Olhe em volta. Pense em como suas atitudes afetam as pessoas do seu convívio físico ou virtual no mundinho do RPG.

 

 
Ps- Esse texto é dedicado à Eva. Pelo ouvido paciente e por seu papel agregador, mesmo que ser porto para a geral da mulherada cobre um custo pessoal considerável. Conheci poucas pessoas no meio que sejam tão preocupadas com o bem estar da comunidade, um papel que faz muita falta no cenário. Precisamos de mais gente assim. “because of her I lift my sword with pride!”


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