A História repetida: 10 livros sobre a ditadura militar brasileira

Texto de Nina D’Antonio

Um presidente eleito começa a ser acusado de estar tentando levar o país a uma ditadura comunista por conta de sua política social. Estouram casos de corrupção. Marchas conservadoras apoiadas pelas igrejas e a grande mídia tomam conta do país. Por fim, dá-se o golpe, que a mídia diz não ser golpe.

Não, eu não estou falando de 2016, mas sim de 1964.

Existem muitas semelhanças entre o que levou ao golpe militar em 64 e todo o processo de impeachment da presidenta Dilma Rousseff. Este não é um texto partidário; estou apenas apontando os fatos. Hegel, o filósofo, acreditava que a história se repetia sempre, como se houvesse um “fim da história” na História Mundial, por ela ser sempre cíclica. Acredito que cabe a nós, que estamos vivos, reconhecer os sinais da repetição.

Assim, para quem quer compreender melhor o passado recente, aqui está uma lista com 10 livros (entre eles, uma HQ) sobre a ditadura militar, cobrindo desde a conspiração, passando pelos porões, até seus resquícios nas leis de hoje.

 

Capa da HQ "O golpe de 64", mostrando close no rosto de um militar de óculos e quepe, com roteiro de Oscar Pilagallo e arte de Rafael Campos Rocha.1. O Golpe de 64, Oscar Pilagallo e Rafael Campos Rocha. Três Estrelas (Grupo Folha).
Esta é uma boa primeira leitura, uma HQ que volta no tempo até o segundo governo do Getúlio Vargas e conta como os militares estavam se articulando até a eleição do Collor, e as primeiras eleições diretas. A obra tem um foco bem forte no golpe em si. Boa parte das páginas conta como se deu o começo da ditadura e passam meio que correndo pelo resto da história. Com muitos detalhes, mostra de forma bem assustadora as semelhanças com a o momento atual.

 

2. O Grande Irmão, Carlos Fico. Civilização Brasileira (Record).

O livro trata de uma operação do governo estadunidense, chamada Brother Sam, e suas influências para a realização do golpe. Com documentos e relatos, o livro mostra com clareza a “ajuda” oferecida pelos EUA à política brasileira na época. Para quem se interessar mais sobre o assunto, no documentário O dia que durou 21 anos, de Camilo Galli Tavares, mostra inclusive áudios dos ex-presidentes JFK e Lyndon Johnson.

 

3. Jango, a vida e morte no exílio, Juremir Machado da Silva. L&PM Editores.

Esta é uma leitura que propõe desconstruir e reconstruir a imagem do ex-presidente João Goulart. Com uma narrativa quase de novela policial, o livro conta com uma extensa pesquisa que chegou até a documentos de serviços de espionagem e cartas nunca antes lidas de Jango para tentar montar um caso que explique melhor se realmente estávamos à beira de uma ditadura comunista ou se ele apenas era um visionário nascido na época errada.

 

4. Memórias do Esquecimento, Flávio Tavares. L&PM Editores.

De certa forma, esta obra é uma contrapartida, ou talvez ande junto, do já muito popular O que é Isso, Companheiro?, de Gabeira, com filme homônimo (que vale muito a pena ver). É um livro bastante visceral e cru, contando as experiências e vivências do próprio Flávio Tavares, que foi um dos presos libertados em troca do embaixador dos Estados Unidos. É um livro para jamais esquecer, com detalhes de sua tortura e exílio.

 

5. 1968: O Ano que não terminou, Zuenir Ventura. Editora Objetiva.

Entre reportagens de jornais e narrativa literária, Zuenir Ventura trata do ano que foi marcado em todo o mundo pelas passeatas estudantis contra o sistema. Lá fora, o Maio de 68; aqui, tudo começou dois meses antes. A obra trata dos acontecimentos desse ano no Brasil dezembro, quando foi assinado o AI-5, acabando com qualquer fingimento de democracia.

 

6. Combate nas Trevas – A esquerda brasileira: das ilusões perdidas à luta armada, Jacob Gorender. Expressão Popular.

Jacob Gorender foi um dos dirigentes do Partido Comunista Brasileiro. Durante a ditadura, em 1967, chegou a ficar dois anos em cárcere. O livro é considerado um dos melhores sobre a militância durante a ditadura, por extrapolar a vivência do autor, que também pesquisou em livros e entrevistou muitas pessoas, para fazer um apanhado dos partidos e grupos de esquerda de 1964 a 1974.

 

7. Sem Liberdade, Eu Não Vivo – Mulheres que não se calaram na ditadura, Laura Beal Bordin e Suelen Loriannny. Editora Compactos.

O livro conta as histórias de seis mulheres que militaram contra o regime. É uma leitura importante por diversos motivos, mas o principal é por falar a respeito da militância sob o ponto de vista da mulher, entrevistando mulheres que viveram os anos de chumbo. Como dizem as autoras: luta é um substantivo feminino.

 

8. Brasil: Nunca Mais, Paulo Evaristo Arns, organizador. Editora Vozes.

Este livro começou como um projeto de um grupo de especialistas que, nos anos finais da ditadura, procurou estudar relatórios e documentos do STM (Supremo Tribunal Militar). A ideia principal dele é escancarar para o público geral informações sobre tudo o que aconteceu durante o período. O relatório completo, escrito por mais de seis pessoas e organizado por Dom Paulo Evaristo Arns, se propõe a rever a história da ditadura. É possível acessar todo o acervo de documentos no site: http://dhnet.org.br/memoria/nuncamais/index.htm#nunca

 

9. O que Resta da Ditadura: a exceção brasileira, Edson Teles e Vladimir Safatle, organizadores; e 10. Ditadura: O que resta da Transição, Milton Pinheiro, organizador. Boitempo Editorial.

Estes dois livros contêm ensaios organizados com propósitos semelhantes. O que Resta da Ditadura trata dos resquícios jurídicos e sociais daquele período, nas leis, nas forças armadas e na polícia, explicando o complicado processo político do Brasil desde a República Velha. O Que resta da Transição tem um caráter ainda mais social, sendo categórico ao dizer que o Golpe de 64 foi um golpe de classe, trabalhando o aspecto econômico do ato e o seu legado hoje. São livros mais difíceis de ler, mas de extrema importância para esses detalhes que nós não percebemos, ou nem sabemos, que são heranças da ditadura.

“Quem controla o passado,
controla o futuro.” (George Orwell, 1984)


Nina D’Antonio é atriz e dramaturga, bebedora oficial de chá gelado em copos de Dalek e mãe de minipets.


A imagem destacada é um trecho da capa da HQ O golpe de 64, da editora Três Estrelas, com roteiro de Oscar Pilagallo e arte de Rafael Campos Rocha.


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