Aventureires do Banheiro Proibido

Ou… “Por que não consigo mais fazer xixi em banheiro público”… e sim é verdade e vou começar o textinho de hoje explicando o por que: Ok, quem já lê a coluna ou me conhece sabe que sou uma mulher trans, ou seja, não fui designada mulher ao nascer, mas sou mulher.

Acontece que fui transicionar relativamente tarde (com 30 aninhos, em 2011, mesmo que meu sangue elfico me faça parecer mais jovem hehe) e comecei muito cheia de medos, especialmente o de ser vista como “homem de saia” e coisas do tipo ou de passar escândalo e/ou ser publicamente ridicularizada (já bastou a infância e adolescência né? Já preenchi a quota dessa encarnação por favor!) e claro, banheiro se tornou um negócio complicado pois eu já estava feminina o bastante pra ter medo de ser violentada no banheiro masculino, mas ainda não o bastante pra ser automaticamente lida como mulher e ai o medo de ser barrada ou expulsa de um banheiro feminino.

Pode parecer bobo pra quem não passa por isso, mas a coisa foi tão seria que por 2 anos inteiros meu organismo travava quando eu saia de casa… não tinha vontade alguma mesmo passando o dia todinho fora… nem vontadezinha de fazer xixi… Ai um dia eu já tava mais confiante e particularmente aliviada e tomei coragem pra ir ao banheiro feminino, e foi tudo bem, sem olhares, sem estranhamentos, fui lá, cumpri a missão, ainda retoquei maquiagem e saí tranquila. Pronto, estava curada da minha inibição com banheiros e passável o bastante pra não ter incidentes… só que não!

Calha que desde então não mudou muito, basta sair de casa e trava tudo, até tentei mais vezes ir em banheiro publico por que até tive vontade… mas na hora meu organismo travou de novo… ou seja mesmo hoje não tendo medo conscientemente de ser ridicularizada por usar o banheiro público, mesmo portando minha certidão de nascimento com o nome retificado e sendo lida como mulher pela maioria das pessoas… algo dentro de mim continua inibido. E sim, é só quando tou na rua, em casa, na casa de amigues etc eu fico bem.

“Mas Ceci, pra que falar tudo isso? Que assunto desconfortável!” Desconfortável é não se sentir a vontade pra fazer algo simples e natural num ambiente público que deveria ter lugar pra mim, e mais desconfortável é saber que existe um projetinho de lei retrogrado e horrível querendo perturbar ainda mais as pessoas trans neste sentido.

Trata-se da PL 5774/2016 que torna contravenção penal “a pessoa que usar o banheiro público diferente de seu sexo masculino ou feminino”. Na prática, quem for trans e não tiver pelo menos o nome retificado em seus documentos além de processos visíveis de transição (o que é bem subjetivo) passar a ser contraventor ao usar o banheiro feminino do sexo diferente daquele com o qual foi designade ao nascer.

E ai temos vários problemas: retificar nome e sexo em documentos não é um processo fácil, pratico ou rápido no Brasil, aliás geralmente requer um laudo psicológico atestando que a pessoa é trans o que torna o processo ainda mais lento.

Procedimentos de redesignação sexual são caros ou de difícil acesso pela rede pública com longas filas de espera. Terapia hormonal também não costuma ser barata e acompanhamento médico pelas redes públicas também não é rápido de conseguir ou amplo pra atender a demanda.
Além disso, nem toda pessoa trans sente a necessidade de passar por tais procedimentos, sem falar de pessoas não binarias claramente ignoradas no dito projeto de lei.

Fora claro a argumentação para o projeto “As pessoas que se utiliza (sic) dos banheiros públicos instalados em escolas, shoppings, estádios de futebol, cinemas, restaurantes, órgãos da administração direta e indireta dos poderes executivo, legislativo e judiciário e em outros diversos locais públicos, tem vivido um terror sem saber o que é certo ou errado, por uso indiscriminado por pessoas de sexo oposto ao que sinaliza a placa de entrada desses banheiros”

Ok, causamos terror nas pessoas, é isso mesmo? Eu acho difícil pensar nisso, mas fica aí o questionamento sobre o tal pânico generalizado que o deputado aponta de forma tão tramática.

Mas ninguém fala do pânico que nós passamos né? Do medo de sofrer agressão, estupro ou exposição puramente por sermos diferentes do que a sociedade quer que sejamos! Do medo que passei por dois anos e que deixou ai um padrão que 3 anos depois disso ainda não passou… e não sei quando ou se vai passar, e olha que sou uma privilegiada, que mesmo se esse projeto passar ainda teria a permissão de adentrar banheiros públicos femininos…. imagine quem não pode. O jeito é segurar o xixi pra sempre né? Só fazer em casa, até criarem um projeto de lei pra nos proibirem de existirmos de uma vez.

Mas eu quero acreditar que isso não passe, eu quero acreditar que pessoas vão pensar sobre isso e que cada vez mais tenhamos liberdade de ir, vir e fazer coisas simples em paz!


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Cecihoney

Mulher trans, lésbica, bruxa que trabalha com pixelart pra games e vive com a cabeça em robôs, naves e engrenagens. Transfã, retrô/indie gamer e parte de uma fusão permanente! Dividida entre lacinhos rosas e armamentos pesados :3