A política sexual da Ginoide

A ficção científica é repleta de referências de androides, robôs e ciborgues. A lógica nos induz a ignorar qualquer dúvida sobre a versão feminina destas palavras e acabamos por nos referir a ela utilizando termos como a androide, a robô e a ciborgue. Mas e se eu te dissesse que a versão feminina existe e carrega um significado político e filosófico extremamente importante para a atualidade?

Ginoide, do grego gynē – “mulher” e do inglês oid – “ter ou manter forma de algo”, é um organismo sintético criado para se comportar e ser socializado como uma mulher. A mais notável ginoide da história talvez seja Maria, do filme de 1927 Metropolis. Não por acaso uma foi escolhida para simbolizar a frieza e os prejuízos da era das máquinas para o sistema financeiro vigente. Durante o filme Maria tenta destruir a ordem do trabalho capitalista ao tomar o lugar da humana, a real Maria, por quem o protagonista havia se apaixonado.

Maria, ginoide do filme de 1927 Metropolis
Maria, ginoide do filme de 1927 Metropolis

O potencial revolucionário da subversão feminina nunca foi ignorado na ficção científica, apenas evitado como assunto político. Propositalmente escritores como Isaac Asimov, Aldous Huxley, George Orwell, Philip K. Dick e tantos outros contornavam o tópico das mulheres por não saber (ou querer) abordá-lo.

A próxima ginoide notável da lista só poderia ser Molly Millions, a ciborgue badass dos livros e contos de William Gibson que inspiraram a trilogia Matrix. Gibson idealizou uma rede acessível a todos, de qualquer lugar do mundo, por volta dos anos 1980 e a batizou de ciberespaço. Já ouviu falar? Em várias entrevistas o autor alega que o feminismo sempre foi uma pauta importante em suas obras, o que se torna cada vez mais evidente nos seus trabalhos mais recentes. Ele também constata que após a leitura de autoras como Ursula K. Le Guin não conseguiu mais imaginar um futuro não-diversificado e sem mulheres.

Molly, ginoide do livro Neuromancer
Molly, do livro Neuromancer. Crédito: http://www.deviantart.com/art/Molly-Millions-312770555

Outras ginoides importantes são Pris (Blade Runner), criada com o objetivo de dar prazer a seus compradores, Major Motoko Kusanagi (Ghost in The Shell), que tem apenas seu cérebro como parte não-sintética do seu corpo, Sonmi~451 (Cloud Atlas), desenhada para servir um restaurante de fastfood e Ava (Ex Machina), criada com base nas preferências de um homem específico. Nenhuma delas se declara mulher. O gênero lhes é imposto física e comportamentalmente, o que não significa que se identificam com ele. Perceba que a ginoide engloba simultaneamente aspectos do feminismo radical, marxista e do transfeminismo, assim como alguns tópicos da teoria queer. Esta constatação nos leva à teórica mais importante e misteriosa da filosofia ciborgue:

A Antropologia do Ciborgue é uma coletânea de ensaios que contém o aclamado Manifesto Ciborgue, de Donna Haraway. Fãs de ficção cyberpunk talvez a reconheçam pela personagem que lhe foi dedicada em Ghost in The Shell 2: Innocence, Dr. Haraway, fabricante de androides e ginoides.

Cena de Ghost in the Shell em que personagem cria ginoide

Seu trabalho escrito de forma frenética e esquizofrênica ainda é um enigma para os estudiosos. O Manifesto Ciborgue trata do poder revolucionário do ciberespaço no meio feminista. A filósofa resgata as principais autoras da ficção científica para invocar uma transformação fictícia ao nosso mundo, põe o puro materialismo em cheque (assim como o feminismo socialista tradicional) e traz a possibilidade do ciborgue como um ser mesclado: ele é ficção e realidade ao mesmo tempo. Sintético e natural. Social e biológico. Utópico e distópico.

Ela trata da ginoide, da ciborgue, como a maior possibilidade de libertação feminina na realidade atual. É possível conectar a experiência, a vivência e o sentimento (performance) à biologia e ao natural. Haraway diz que em vista da ciência masculinista e racista, foi criada uma linha imaginária entre o organismo e a máquina. Esta linha precisaria ser conhecida e estudada de modo que as usuárias da ciborgue tomem responsabilidade sobre a sua performance e a sua biologia. Somente desta forma seria possível alcançar a utopia da abolição de gênero.

Não espero esclarecer o Manifesto Ciborgue em apenas um texto, não me atrevo a caminhar por trechos incertos carregando certeza: não, eu também não entendi tudo que o ensaio diz. Ele é extremamente novo em relação aos outros trabalhos de filosofia (que ainda são estudados atualmente) e foi muito pouco explorado pela Academia em geral. A trajetória do ciborgue precisa ser traçada por cada uma individualmente de forma a ser compreendida em seu íntimo: e nem assim terá certeza do que pensar.

Citação de Donna Haraway, que preferia ser uma ginoide a uma deusa

Uma avalanche cultural e tecnológica se seguiu após a popularização do artigo. Assim surgiu o ciberfeminismo, assunto que merece ser explorado com mais detalhes em outro momento, um conjunto de ferramentas, teorias e debates para o feminismo no século XXI interligado à cultura digital. Surgiu de um coletivo de artistas denominado de VNS Matrix (as MinasNerds falaram sobre elas nesse link).

Desde então o debate de gênero e tecnologia tem sido destrinchado e cada vez mais faz parte da nossa rotina, talvez nem sempre da maneira mais desejada, afinal temos muito a aprender quando se trata de internet e feminismo. O importante, apesar de tudo, é lembrarmos que somos ginoides, não androides. E apenas ginoides têm o poder da libertação. Lembre-se sempre: “nós somos a buceta (ou não-buceta) do futuro”.

Manifesto do VNS Matrix, que também citava as ginoides
Fonte: http://www.sterneck.net/cyber/vns-matrix/index.php

Sobre a autora:

Alissa Munerato

Alissa Munerato é estudante de Neurociência, Dedicada à revolução ciborgue e ginoide, filosófica e tecnológica. Avante, neuróticas!

Medium: https://medium.com/@alissamoe

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