Lute como uma cientista

Por trás de toda mulher de sucesso tem outra mulher igualmente bem-sucedida! Uma mulher que lhe deu oportunidades, abriu portas, lhe serviu de mentora. Na minha vida profissional essa mulher chama-se Maria Angélica Ehara Watanabe. Professora Angélica (como é conhecida) foi minha primeira orientadora. Estagiei em seu laboratório todos os quatro anos de graduação e depois de formada permaneci mais um ano e meio desenvolvendo minha tese de mestrado. Foi no laboratório dela que aprendi a fazer ciência, desenhar experimentos, analisar resultados. Foi a ciência que desenvolvi no laboratório Watanabe que levei para diferentes congressos e simpósios científicos e foi com ela que publiquei meus primeiros artigos científicos.

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Dra. Maria Angélica Ehara Watanabe

 

A trajetória profissional da Dra. Watanabe está intensamente interligada ao meu curso de formação: Biomedicina. Dra. Watanabe participou não só na implantação do curso de Biomedicina na Universidade Estadual de Londrina (UEL), como também trabalhou bravamente para o seu reconhecimento pelo Ministério da Educação. A Biomedicina é a ciência que estuda principalmente doenças humanas e faz a conexão entre Biologia e Medicina. O curso foi implantado no Brasil em 1966 na UNIFESP e UERJ e inicialmente recebeu o nome de Ciências Biológicas – Modalidade Médica. Os profissionais Biomédicos possuem áreas de atuação que incluem genética, farmacologia, analises clinicas, acupuntura e perícia criminal. A Dra. Watanabe escolheu o caminho da academia e conquistou o tão almejado cargo de pesquisador e docente.

 

 

MN: Como foi seu início na vida acadêmica e na ciência?

 

Realizei o curso de graduação em Biomedicina, que na época levava o nome de “Ciências Biológicas – Modalidade Médica” pela Universidade Estadual de Londrina (UEL). Na época tive participação ativa no Centro acadêmico, pois lutávamos pela regulamentação do curso no Brasil. Lotávamos ônibus para marcar presença nas reuniões em Brasília e nos eventos da Sociedade Brasileira de Progresso à Ciência (SBPC), em prol da regulamentação do curso. Conseguimos a regulamentação anos depois da minha 7 anos. Por questões até hoje inexplicáveis, depois de todo, o curso foi fechado na UEL, foi lastimável para todos os que lutaram pelo reconhecimento curso de ciências biológicas – modalidade médica. Após a graduação realizei o mestrado e doutorado na Faculdade de Medicina, Universidade de São Paulo na área de bioquímica e me apaixonei pelos ácidos nucleicos.

 

MN: Como se deu a escolha da sua carreira?

 

A minha primeira opção profissional era laboratório de análises clínicas, inclusive já tinha sido aprovada num concurso do Hospital de Clinicas-USP, Ribeirão Preto, SP, mas quando conheci os Laboratórios de pesquisa em câncer da Faculdade de medicina, fiquei encantada… e daí comecei a longa jornada da pós-graduação. Na época do doutorado, tive uma experiência gratificante de apresentar o meu trabalho de tese na Harvard (EUA) o que deu estímulo para a minha pesquisa. Logo em seguida realizei meu pós-doutorado no Hemocentro de Ribeirão Preto na área de Imunologia e Biologia Molecular (USP). Numa das viagens ao exterior, eu estava voltando de um Congresso de HIV em Genebra e, durante o vôo, vi no jornal sobre o Edital para professor em Imunologia, foi quando eu e meus colegas pensamos em prestar por experiência. Logo após, por motivos pessoais (acabei perdendo a minha mãe) tive que ir a Londrina para ficar com meu pai. Um pouco antes de prestar o concurso público para docente na Universidade Estadual de Londrina, apresentei uma palestra sobre quimiocinas (moléculas que na imunologia são conhecidas por atrair outras moléculas ou células para um determinado alvo, como um foco de inflamação por exemplo) e seus receptores, não tinha ideia de que este tema estaria presente em todos os momentos da minha vida acadêmica.

 

MN: Em algum momento da sua carreira de professora você voltou a se envolver ativamente com o curso de ciências biomédicas. Como foi esse “reencontro”?

 

Depois de ingressar na UEL como professora, fui convocada para fazer parte de um grupo de 8 docentes para implementar novamente o curso de Ciências Biomédicas, porém, como o nome agora de Biomedicina. Durante os primeiros anos de implementação do curso fui vice-coordenadora e logo em seguida assumi à coordenação. Por ironia do destino, trabalhei novamente de forma árdua e intensa no reconhecimento do curso de biomedicina da UEL. Meu objetivo era que os primeiros alunos tivessem a colação de grau já com o curso reconhecido e foi exatamente o que aconteceu.

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Primeira turma de Biomedicina da UEL

 

MN: Os cientistas que seguem carreira acadêmica frequentemente tem que se dividir entre as profissões de professor e de pesquisador. Como você conseguiu se estabelecer como pesquisadora?

 

Já nos primeiros anos de carreira na UEL, fui contemplada com auxilio financeiro de um Edital Universal CNPq, onde foi possível adquirir meu primeiro termociclador (equipamento utilizado para diversos tipos de análise de DNA e RNA). Também fui contemplada com uma bolsa de pesquisador CNPq, o que até hoje considero um prêmio na minha carreira. Poucos anos depois, juntamente com outros docentes do meu departamento, implementamos o Programa de Pós-Graduação em Patologia Experimental. Mas eu diria que o maior prêmio na minha vida acadêmica foi ter excelentes alunos que colaboraram com a pesquisa e me renderam boa produção científica. Uma dessas alunas foi a Helen Cristina Miranda uma das minhas primeiras alunas de iniciação científico e responsável pela edição deste site.

 

MN: Outro marco na sua vida científica foi o seu envolvimento no projeto Genoma Paraná ou GENOPAR. Como foi o desenvolvimento desse projeto e qual foi o impacto do GENOPAR na sua carreira?

 

Uma das maiores dificuldades que enfrentei no inicio da minha carreira na UEL foi procurar e identificar agencias de fomento. Lembrando que eu vinha de mestrado, doutorado e pós-doutorado na USP e estava acostumada aos financiamentos da FAPESP. A ausência de uma agencia de fomento estadual equivalente à FAPESP tornou bastante difícil fazer pesquisa na área de quimiocinas e com biologia molecular. Foi então que surgiu a oportunidade de participarmos, eu e mais duas docentes, do consórcio GENOPAR, o primeiro projeto genoma do Paraná. O objetivo desse projeto era de sequenciamos a Xylella fastidiosa uma bactéria fixadora de nitrogênio junto com a participação dos nossos alunos de iniciação cientifica, alunos de pós-graduação e juntamente com outras instituições de pesquisa e ensino do Paraná. Foi então que conseguimos uma construção de aproximadamente 200m2 e vários equipamentos, o suficiente para realizarmos a pesquisa que gostamos de fazer dentro da nossa área temática e linhas de pesquisa.

 

MN: O que o futuro reserva para o Watanabe Lab?

 

Atualmente, estou trabalhando na implementação de um Laboratório de Estudos e Aplicações de Polimorfismos DNA. O objetivo é o de realizarmos desde testes de paternidade até análise moleculares mais complexas como de polimorfismos e expressão gênica de moléculas relacionadas à resposta imunológica. Mas a menina dos meus olhos atualmente é uma molécula chamada TGF-beta, que está envolvida em câncer. Seu perfil funcional antitumoral e pró-tumoral pode variar de acordo com o microambiente e este é o interesse na nossa pesquisa.

 

Correção do texto Isabelle Tanjoni


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Helen Cristina Miranda

curiosa de nascença/
cientista de profissão