A Balada da Dependência Sexual de Nan Goldin

Nan Goldin passou o final dos anos 70 e o início dos 80 em Nova Iorque bebendo, usando drogas, indo a festas com os amigos, fazendo sexo, se envolvendo em relacionamentos destrutivos e tirando fotos, muitas fotos.

Goldin nasceu em Washington D.C. em 1953. Aos 11 anos, a irmã de 18 anos se suicidou e aos 15, com medo de perder a vida na casa dos pais, Nan decidiu fugir de casa para Boston e começou a fotografar compulsivamente. Dos 15 aos 18 anos, foi ao cinema três vezes por semana. Ela diz que esse período foi o que a definiu como pessoa e a aproximou das artes. Ela estudou fotografia e aprendeu a ampliar fotografias coloridas na faculdade, também em Boston. Em 1978, se mudou para Nova Iorque, onde passou a registrar seus amigos, amantes e muito dela mesma em absolutamente todos os momentos da vida.

Goldin era a garota com a câmera, nas festas, nas ruas, no sexo, quando apanhava do namorado. Ela dizia que suas fotos compulsivas vinham do fato de ela estar vivendo no momento. Não fotografava para regristrar, ela usava a fotografia para se aproximar das pessoas, guardá-las para si.

Juntou o arsenal e montou sua obra-prima: “The Ballad of Sexual Dependency” (A Balada da Dependência Sexual), um show de slides com cerca de 700 imagens mostrando a cena pós-punk e drag queen, além da cultura gay e bohêmia do East Village de Nova Iorque. A princípio, Goldin exibia o show de slides apenas para os amigos que estavam retratados nas imagens, acompanhado de músicas de fundo que iam desde óperas de Maria Callas a Velvet Underground. A cada projeção, a fotógrafa editava sua obra, incluindo ou retirando slides, dependendo de onde e para quem estava exibindo. Assim, a performance poderia durar de 20 minutos a duas horas.

Principalmente, o que Goldin retratou em sua balada foi o relacionamento abusivo que vivia com Brian, o namorado na época. As fotos vão desde imagens cândidas de Nan e Brian na cama até desbancar na imagem icônica de Nan um mês após ter sido espancada, com o olho sangrando e o nariz quebrado. Esse deveria ser exatamente o meio de todos os shows de slides e do livro que foi lançado alguns anos mais tarde.

Mais tarde, o show de slides foi comprado pelo Whitney Museum of American Art e pelo MoMA, ambos importantes museus de arte contemporânea em Nova Iorque. Em 1986, os slides se tornaram um livro homônimo publicado pela Editora Aperture, especializada em fotografia. Em 2015, a obra fez 30 anos e o show de slides, acompanhado pelo livro e por fotografias individuais, está atualmente em exposição no MoMA. Nan conta que originalmente o MoMA só quis as fotos sombrias, mas que ela entregou as fotos felizes mesmo assim. Por mais que The Ballad seja uma história triste, onde a maioria das pessoas retratadas morreram de Aids, há momentos de luz.

The Ballad of Sexual Dependency é a autobiografia de Goldin: sua vida, seus amigos e seus amores que não deram muito certo. Tudo vividamente ilustrado em centenas de fotografias a cores – muitos anos antes de todos nós carregarmos celulares para tirar fotos a todo momento. Muitos dizem que Nan era obsessiva e narcisista, mas eu acredito que ela seja apenas uma mulher tentando contar sua história.

CZ e Maz na Praia, 1976
CZ e Max na Praia, 1976
O casamento de Cookie e Victorio, New York City, 1986
O casamento de Cookie e Victorio, New York City, 1986
Nan e Brian na cama, New York City, 1986
Nan e Brian na cama, New York City, 1986
Nan um mês depois de ter apanhado
Nan um mês depois de ter apanhado
O abraço, 1980
O abraço, 1980
Dançando na minha festa de aniversário, New York City, 1980
Dançando na minha festa de aniversário, New York City, 1980

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Deborah Happ

Formada em Midialogia, pela Unicamp, com mestrado em Estética e História da Arte, pela USP. Faz umas artes quando dá, escreve por necessidade.