Mais mortal do que nunca

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Entra no programação dos cinemas de todo país no próximo dia 25 de julho, a animação  adaptada da história em quadrinhos homônima: Batman: A Piada Mortal de Alan Moore e Brian Bolland, lançada em 1988 pela DC Comics e relançada ad infinitum ao redor do mundo e aqui no Brasil pelas editoras Opera Graphica, Abril e Panini.

Podemos dizer que A Piada Mortal é um clássico dos quadrinhos. Ela debate e coloca em perspectiva, através da narrativa riquíssima, carregada de política e filosofia de Alan Moore, a relação entre o Homem- Morcego e seu nêmesis, o Coringa, um dos vilões mais cruéis e assustadores da cultura pop.

A Piada Mortal é basicamente sobre as semelhanças entre Batman e  Coringa e não sobre suas diferenças.

É considerada a obra definitiva sobre o vilão, pois revelou bastante sobre ele, que, até então, não tinha sido muito explorado nas HQs, na época de seu lançamento. A história nos dá vislumbres de sua origem e nos mostra, de um jeito bem cru e violento, a medida de sua loucura, falta de escrúpulos e maquiavelismo.

Mais do que isso, A Piada Mortal  expõe ao leitor um ponto interessante que o próprio palhaço levanta e que acaba dando o tom a todo o relato:  quanto sofrimento um homem aparentemente são é capaz de aguentar, até enlouquecer? Qual o limite da linha tênue que separa o Batman do Coringa, o bem do mal? Mais profundo ainda: Por que o Batman é considerado a epítome do bem e o Coringa a personificação do mal?

Nas palavras do próprio Coringa “Basta apenas um dia ruim. “O que nos obriga a ser racionais? Não existe cláusula de sanidade. Quando você estiver dentro de um desagradável trem de recordações seguindo para lugares em seu passado onde os gritos são insuportáveis, lembre-se da loucura. A loucura é a saída de emergência”   – o que nos dá a impressão de que, talvez, um dia, ele tenha sido um homem bom e são, mas escolheu a loucura para tentar fazer calar as lembranças de uma vida permeada pela tragédia.

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Enfim, a HQ  Piada Mortal, a original escrita por Moore, já apresenta uma série de problemas. Existe uma representação bem machista de Barbara Gordon, a Batgirl, filha do Comissário Gordon que é terrivelmente abusada a fim de atingir a sanidade de todos, há o velho e desnecessário recurso do ESTUPRO (apesar de apenas sugerido, Moore caiu em contradição várias vezes sobre a existência ou não desse estupro) como ferramenta narrativa para justificar a dominação do homem sobre a mulher. Ao mesmo tempo esse processo também tenta legitimar a força de caráter da mulher , servindo de premissa para sua ascensão e superação quase obrigatória da tragédia (como a transformação de Bárbara em Oráculo, o jeito que a DC encontrou de passar um pano sobre o fato e incorporar novamente a personagem em suas histórias).

Enfim, há uma série de diálogos machistas e objetificações na história original que acabamos tendo que engolir para podermos absorver o plot central, mas essa adaptação animada conseguiu piorar o que já era ruim. Pois é.

Who’s that…Batgirl?

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Não entendo como um roteirista tão bom quanto Brian Azzarello resolveu cair nessa, mas mais da metade do filme se passa na tentativa de apresentar a personagem Batgirl para o público. Esse período é fonte de MUITOS, talvez dos principais problemas do filme. Vou enumerá-los para ficar mais fácil:

Primeiro: essa parte NÃO faz parte da HQ original, foi criada especialmente para a animação. E ficou uma DROGA.

Segundo: apresenta um furo TERRÍVEL totalmente desnecessário e machista na tentativa de explicar, da pior maneira possível, um elo profundo entre Batman e Batgirl.

Terceiro: Culpabiliza Batgirl pelo comportamento machista dos homens que a cercam. Incluindo o próprio Batman.

Quarto: Batgirl é retratada como uma descabeçada idiota que precisa da supervisão de Batman a todo momento.

Quinto,  o último mas não o menos pior dos motivos: essa pseudo-introdução cria uma quebra enorme na narrativa, quando a animação passa a, finalmente, retratar a história da HQ original. Em resumo: parecem dois filmes diferentes.

Teria sido muito melhor um filme exclusivo e introdutório da Batgirl com lançamento anterior a esse.

Fora isso (ou por conta de tudo isso) o filme em si não é legal. A animação é bonita, detalhada (apesar de eu ter achado os movimentos meio duros, mas isso é mal de quem está acostumada ao padrão Pixar de animação) e sinceramente tem LAMPEJOS de Batman: A Piada Mortal, os 30 minutos finais, talvez. De resto, é outro filme. Pura enrolação.E ele tem apenas 75 minutos de duração. Ou seja…

Toda complexidade e reflexão sugeridas nos quadrinhos se perdem. Não surte o mesmo impacto, tudo fica diluído, perdido em uma narrativa irregular e mais leve do que foi retratada nas HQ. Existe até um pequeno número musical do Coringa, pra vocês terem ideia. Tiro no pé.

A direção de Sam Liu e produção de Bruce Timm, Alan Burnett e Sam Register. E as vozes  de : Kevin Conroy (Batman/Bruce Wayne), Tara Strong (Batgirl/Bárbara Gordon), Ray Wise (Comissário Gordon) e Mark Hamill (Coringa), praticamente todo elenco de dubladores de Batman Animated Series, mas vocês já devem ter percebido: NÃO É PARA CRIANÇAS.

Conclusão: Leia a HQ. Esqueça essa animação.

 

 


Os artigos aqui publicados são de total responsabilidade de suas autoras e editoras.

Gabriela Franco

Jornalista especializada em cultura pop, produtora, cineasta e mãe da Sophia e da Valentina Criadora do MinasNerds.