Guerra do Velho, de John Scalzi

capa do livro Guerra do Velho, com cena de batalha entre humanos e alienígenas.Apesar de se apresentar como uma típica ficção científica militar, Guerra do Velho aproveita o tema para discutir temas como mortalidade, ética, xenofobia e violência.

Guerra do Velho (Old Man’s War) foi o primeiro livro do escritor John Scalzi e é parte de uma série que conta com nove títulos até o momento.

A história começa quando, em seu 75º aniversário, John Perry se alista às Forças Coloniais de Defesa, que, como o próprio nome indica, são enviadas a outros mundos para proteger os colonos humanos de ameaças alienígenas.

O livro surpreende desde o começo com sua premissa inovadora de que as FCD recrutam apenas idosos septuagenários para suas frentes extraterrestres. Para se juntar ao exército, o voluntário (ou voluntária) precisa deixar tudo para trás e até recebe uma certidão de óbito, pois não poderá voltar para a Terra. Mesmo se houver desistência após o período determinado de 72 horas, não poderá receber nada de volta e se tornará um morto entre os vivos.

Isso não é um problema para John Perry. Após a morte da esposa, ele não vê muitos motivos para continuar na Terra e busca nas FCD uma possibilidade de extensão do seu tempo de vida e novas experiências. Após receber um aprimoramento corporal, Perry parte para sua missão e o perigoso primeiro ano nas FCD, ao qual poucos recrutas sobrevivem. Acompanhar os recrutas em sua redescoberta da juventude chega a ser engraçado, pois mesmo com os novos corpos eles ainda mantêm a mentalidade condizente com sua experiência de vida.

A partida para as colônias apresenta uma das tecnologias mais interessantes da ficção científica recente: o “Pé-de-Feijão”, um elevador que conecta a Terra a uma Estação Colonial de onde as unidades partem para outras bases. Tal tecnologia é um dos motivos pelos quais esta é uma viagem sem volta: a União Colonial não revela seus segredos nem aos governos terráqueos, que não conseguem descobrir como funciona a tecnologia por trás do Pé-de-Feijão.

Não espere nada como a Federação de Star Trek no universo criado por Scalzi. As FCD são envoltas em mistérios e o código de ética não é o manual que eles seguem. As raças alienígenas não estão a fim de papo e querem garantir seu espaço, já que mundos habitáveis são extremamente raros e a expansão humana é um risco para todas as outras raças. A tensão racial entre humanos e alienígenas é um ponto interessante no livro e pode ser vista como uma versão em escala interplanetária das nossas próprias rixas domésticas.

Guerra do Velho foi muito comparado a Tropas Estelares. O próprio Scalzi admitiu ter se inspirado no trabalho de Robert A. Heinlein na construção de seu universo; porém, é evidente o ar de modernidade da obra, mesmo que preserve o melhor de Heinlein. A construção do universo merece destaque, pois o autor soube trabalhar as questões políticas e filosóficas acerca da guerra de forma eficiente.

Como nem tudo é perfeito, o rápido desfecho de alguns personagens me incomodou a ponto de eu começar a ver todos usando camisas vermelhas. A linguagem dos personagens também não me convenceu como sendo de idosos. Qualquer um que tenha convivido com pessoas de mais de sessenta anos sabe que nem todos são sarcásticos, com saídas engraçadinhas para cada pergunta, e isso se repete constantemente não apenas no protagonista, mas na maioria dos recrutas. A opção de manter o sistema métrico norte-americano na versão brasileira também me incomodou. Mesmo que eu tenha uma noção de quantos pés equivalem a um metro, esse tipo de pausa acaba impedindo uma imersão mais profunda na leitura.

No mais, só posso dizer que o livro vale muito a leitura e que é ótimo ver o mercado editorial brasileiro finalmente abrindo as portas para autores com visões mais modernas e discussões sociais relevantes para a nossa atualidade.


Guerra do Velho, de John Scalzi. Editora Aleph, 365 páginas, tradução de Petê Rissatti.

Esse livro foi cedido pela editora para resenha.


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