Mulheres cientistas no oceano: quando o mar te chama

Oceonografia é uma das áreas que te dá a oportunidade de observar a integração dos processos físicos, químicos, biológicos e geológicos que influenciam o ecossistema dos oceanos e regiões costeiras. Alguns de nós pensamos em seguir esta carreira depois de assistir documentários e filmes que mostravam as expedições como as do famoso oceonógrafo Jacques-Yves Cousteau.

Mesmo que nosso planeta seja imerso em uma imensidão aquática, ser oceonógrafa(o) não é tão simples, uma vez que não há muitos lugares que oferecem curso de oceanografia no Brasil. Enquanto há 268 escolas médicas no território brasileiro, existem somente 13 cursos de graduação de Oceonografia, sendo estes: USP, FURG, UERJ, UNIVALI, UNIMONTE, UFES, UFPA, UFBA UFPR, UFSC, UFPE, UFC e UNESP. O instituto de Estudos Avançados da UNESP, localizado em São Vicente (litoral de São Paulo) foi inaugurado recentemente, graças ao investimento de 10 milhões recebidos pela UNESP e pelos 25 milhões fornecidos pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações e Comunicações (MCTIC), hoje Ministério da Ciência, tecnologia, Inovações e Comunicações. Algumas destas instituições oferecem cursos de pós-graduação.

Para abordar a experiência de uma ocenógrafa, convidamos a recente doutora em oceonografia: Elizabeth Vu (Liz). Liz desenvolveu sua tese em um dos mais renomados Institutos de Oceonografia do mundo: Instituto Scripps de oceonografia (do inglês, Scripps Institution of Oceanography) localizado em San Diego, Califórnia. Na tese, ela descreveu relação dos sinais acústicos produzidos pelas baleias, popularmente conhecidos por canto das baleias, com seu padrão migratório e também associou estes fatores com níveis de hormônios sexuais.

Por Liz,

Onde estão as baleias durante diferentes épocas do ano? Passei os últimos 6 anos trabalhando como oceanógrafa, fazendo levantamento da distribuição das baleias de barbatanas através da escuta dos sons que elas produzem. Eu conduzi minha pesquisa nas águas do sul da Califórnia no Instituto Scripps de oceonografia.

Foto Liz
Elizabeth Vu (Liz) em um navio de pesquisa ao longo da costa do Sul da Califórnia.

Estudar baleias exige muitos recursos. Fazer pesquisas científicas em cruzeiros e procurar as baleias observando o mar é um empreendimento caro, porque você precisa de um navio, de tripulação e de muita paciência, sem qualquer garantia de ver alguma baleia!

Eu usei o canto das baleias como ferramenta para estudar baleias, pois é uma forma menos dispendiosa para estudar um grupo tão indescritível de animais. Eu estava inspirada para trabalhar com acústica porque é um método não-invasivo e também por fornecer informações adicionais para ecologia relacionada às baleias que não tínhamos ainda descoberto usando métodos tradicionais de pesquisa. Para isso, eu deixei dispositivos de gravação na água por meses para depois pegá-los e então processar os dados no laboratório. Além disso, as baleias são criaturas barulhentas e capturar suas canções é mais fácil do que você imagina!

Foto do lab
A fim de observar baleias em seu habitat natural, eu fui em muitos cruzeiros de investigação científica. Do barco, eu utilizo binóculos para identificar as baleias na região. Aqui, estou ajudando um pequeno barco que observa baleias, enquanto a câmera da equipe filma o cenário.

Comecei meus estudos na área de oceanografia participando de muitas aulas de ciências. Eu amei os cursos de ciências e mesmo que eu me sentisse intimidada a fazer tais cursos intensivos, eu nunca os achei entediantes. Meus estudos eram de natureza interdisciplinares. Para de resolver os problemas globais complexos, você precisa de treinamento interdisciplinar rigoroso. Oceanografia é interdisciplinar; seria difícil para estudar o oceano sem saber sobre a física, biologia, química, história e economia do sistema que você está investigando.

Se sua faculdade ou universidade não oferece cursos de ciências marinhas, não se preocupe! É muito importante obter conhecimento de ciência básica mesmo que este seja ou não chamado de “marinha”. Os princípios básicos da ciência e da biologia não mudam a nível fundamental se você estudar baleias, as plantas ou microorganismos. Portanto, se você receber uma bom conhecimento ao estudar qualquer ecossistema, você ainda pode se tornar um(a) bióloga(o) marinha(o) ou oceanógrafa(o)!

Eu sou a filha de imigrantes vietnamitas que queriam que eu tivesse sucesso na faculdade e seguisse um caminho mais tradicional da medicina. Eu estudei na Universidade da Califórnia Berkeley e comecei a fazer cursos de ciências preparatórios para o ingresso da faculdade de medicina (do inglês, pre-med). No entanto, nunca me tornei oficialmente uma “pré-med”, porém, eu passei tempo fora da classe de aula, aprendendo sobre a área interdisciplinar da ciência ambiental. Enquanto eu estava na Universidade de Berkeley, eu estudei no exterior em Sydney (Austrália), onde aprendi a mergulhar e a naveguei no meu primeiro cruzeiro de investigação científica. Depois, eu completei um estágio em Woods Hole (Estados Unidos) e fui exposta a área de estudos sobre o canto das baleias. 

A vida de trabalho de campo, estar em barcos e fazer ciência no mundo real foram coisas que me fisgaram!

Eu vivenciei muitos momentos surpreendentes, como assistir as baleias jubarte durante o por do sol e também estar cercada por icebergs magníficos na Antártida. Eu também tive muitos dias longos de trabalho intenso dentro do laboratório na frente do computador. Ora mágico ora estressante, estas experiências tornaram o trabalho divertido e emocionante! Sou realmente grata pela oportunidade de observar o maravilhoso ambiente bizarro em torno de mim. Você, também, pode obter uma carreira se questionando sobre a natureza.

Trabalho de campo no barco
Embora o trabalho de campo é uma das melhores partes de ser um cientista especialista em baleias, muito poucas pessoas trabalham no campo todos os dias. Muitos dos meus dias foram gastos dentro do laboratório ou na frente do computador. Aqui estou analisando uma amostra da presa em que as baleias se alimentam.

Estágios são a melhor maneira de mergulhar a área do qual você deseja fazer parte. É a melhor forma de participar na ciência do mundo real, fazer trabalho físico, e aprender com aqueles que você espera seguir no futuro.  Mesmo se você oferecer seu tempo de graça, você irá aprender mais do que você possa imaginar e espero que você pegue o vírus para se ter a vida de um cientista e explorador. O Brasil é o lar de muitas espécies únicas de cetáceos, incluindo o recém-descoberto Boto do Araguaia. Há muitos aspectos da sua ecologia que ainda temos de ver e ouvir!  Estou ansiosa para ver mais cientistas brasileiros que estudam baleias compartilhar com o mundo os conhecimentos adquiridos provenientes de estudos de suas espécies nativas surpreendentes.

Sotalia_redu
Sotalia guianensis (boto-cinza) habita o rio Suriname. Embora esta foto foi tirada no Suriname, esta espécie tem uma cobertura de habitat que se estende em águas brasileiras.

Tradução e revisão: Isabelle Tancioni e Helen Miranda.

Imagem de destaque: Wikipedia

Texto original:

Where do whales go during different times of the year? I spent the last 6 years working as a biological oceanographer mapping the distribution of baleen whales by listening to the sounds they make. I conducted my research in the waters off Southern California at the Scripps Institution of Oceanography.

Studying whales require many resources. Going out on researches cruises and looking for them by eye is an expensive venture because you need a ship, a crew, and lots of patience with no guarantee of seeing whales at all! I used acoustics as a tool to study whales because it is less expensive way to study such an elusive group of animals.  I was inspired to work with acoustics because it is non-invasive and can provide additional insights to whale ecology that we hadn’t discovered using traditional research methods. For this, I drop recording devices in the water for months at a time to be picked up later for processing in the laboratory. Besides, whales are loud creatures and capturing their songs is easier than you might think!

I began my studies in oceanography with taking as many science classes as I was able. I loved science courses and even though I was intimidated to take such intensive courses, I never found them to be boring. My studies were interdisciplinary in nature. In order to solve complex global problems, you need rigorous interdisciplinary training. Oceanography is interdisciplinary; it’d be hard to study the ocean without knowing about the physics, biology, chemistry, history, and economics of the system you’re studying.

If your school or university does not offer marine science courses, do not worry! It is very important to get a basic science education whether or not it is called “marine”. The basic principles of science and biology don’t change on a fundamental level whether you study whales, or plants, or microorganisms. Therefore, if you get a good education studying any one ecosystem, you can still become a marine biologist or an oceanographer!

I am the daughter of Vietnamese immigrants who wanted me to succeed in school and pursue a more traditional path of medicine. I attended UC Berkeley and started to take “pre-med” science courses. However, I never officially became “pre-med” and instead spent more time outside, learning about the interdisciplinary field of environmental science. While I was at UC Berkeley, I studied abroad in Sydney, Australia, learned to scuba dive, and sailed on my first research cruise. Then, I completed an internship in Woods Hole, MA and was exposed to the field of whale acoustics.

The life of fieldwork, working on boats, and doing real-world science got me hooked!

I have experienced many amazing moments, such as watching humpback whales breach in the sunset, and being surrounded by magnificent Antarctic icebergs. I’ve also had many long days of hard work inside the laboratory in front of the computer. Whether magical or stressful, these experiences make the job fun and exciting! I am truly grateful for the opportunity to observe the wonderful, bizarre environment around me. You, too, can get a career asking yourself questions about the natural world.

Internships are the best way to immerse yourself in the field of which you want to be part. It is the best way to participate in real-world science, do physical work, and learn from those who you hopefully want to emulate in the future. Even if you volunteer your time for free, you’ll learn more than you could ever imagine, and hopefully catch the bug for the life of a scientist and adventurer. Brazil is home to many unique species of cetacean, including the recently discovered Boto-do-Araguaia. There are many aspects of their ecology we have yet to see and hear! I look forward to seeing more Brazilian whale scientists share with the world the knowledge they gained from studying their amazing species.

Photo 1: Elizabeth Vu on a research vessel off the coast of Southern California

Photo 2: In order to observe whales in their natural habitat, I went on many research cruises. From a boat, I use binoculars to identify whales in the area. Here I am assisting a small boat with whale observations while a camera crew films in the background.

Photo 3: Although field work is one of the best parts of being a whale scientist, very few people are able outside every single day. Many of my days were spent inside the laboratory or in front of the computer. Here I am analyzing a sample of the prey on which whales feed.

Photo 4: Sotalia guianensis is the Suriname River. Although this photo was taken in Suriname, this species has a habitat range which stretches into Brazilian waters.


Os artigos aqui publicados são de total responsabilidade de suas autoras e editoras.

Isabelle Tancioni

Sou veterinária, cientista, hipster, Tiki, nerd, geek. Gosto de comics, música, cartoons, animais, plantas.