January Jones: a modernidade de uma heroína vintage

É claro que fui imediatamente atraída pela capa de January Jones: Corrida contra a Morte. A capa tem a ilustração de uma mulher loura, de botas e culotes, fugindo de uma explosão. Ela não parece ter medo. Nem sequer parece assustada. January é uma figura de ação, cheia de adrenalina e segurança. E ela está levemente irritada.

Capa da revista "January Jones, Corrida Contra a Morte" mostra a personagem sendo lançada longe por uma explosão.
Lançamento da AVEC Editora.

Vários sites saudaram a publicação, trazida para o Brasil pela jovem AVEC Editora. Foi neles que descobri que January Jones foi criada em 1986 e que já é considerada uma heroína clássica. Que tem características de Tintim e Indiana Jones, e foi inspirada em Amelia Earhart e Mata Hari. Mas sobre tudo isso e as características da “linha clara” e da bande dessinée  (ou banda desenhada, como se tem traduzido) você pode ler em vários locais, como o Universo HQ e o Nerd Geek Feelings. Não vou repetir.

Quero falar sobre o que li e como li.

A bela edição da HQ chegou lá em casa num fim de tarde, quando eu não estava. Pude observar uma reação diferente da minha assim que pus os pés em casa. Meu filho de 7 anos estava em volta do livro, revirando-o por todos os lados, curioso, embora um pouco envergonhado da pequena e discreta cena de nudez na história. Contudo, estava interessadíssimo nas aventuras da moça que, sem saber (apenas pelas referências de época e pelo nome), ele classificou como prima do Indiana Jones. Combinamos que leríamos juntos após a minha leitura. A trama, acredito, é um pouco sofisticada para ele, mas não é impossível.

De fato, na trama geral ficou meu único “senão”, pois se demora um pouco a compreender qual é a missão da personagem. Nada que atrapalhe, afinal, o forte da história são as aventuras da aviadora e de seu Havilland Comet vermelho. O mesmo que explode na capa do livro e a coloca no centro do Rally Talin–Monte Carlo. Nesse ponto, a mistura entre nostalgia e a novidade de uma heroína de ação nos anos 1930 é um ingrediente arrebatador. Leitura de uma sentada, com gosto de Sessão da Tarde (aquela clássica, dos anos 1980/90).

A cosplayer Gi Pausa Dramática caracterizada como a personagem January Jones, com traje de aviadora.
Gi Pausa Dramática encarna January Jones.

Como historiadora, formadora de professores e professora de História Contemporânea, adorei a decisão do tradutor e do editor de colocarem muitas notas na HQ para situar os lugares e a época. O bom das notas é que você pode decidir lê-las ou não, elas estão ali para aprofundar sua experiência de leitura. Só a presença delas já me faz indicar com maior ênfase o uso da obra numa sala de aula de ensino médio para introduzir e seduzir alunos para o estudo do entreguerras. A sacada genial é que, de forma superdivertida, o material pode ter, inclusive, um bom uso didático.

Uma das páginas internas da revista em quadrinhos "January Jones, Corrida Contra a Morte".
Uma página interna da HQ.

Mas não li January Jones apenas como diversão e por ser uma professora em busca de materiais interessantes e adequados. Li também como menina nerd, feminista e alguém que estuda e pensa História das Mulheres e questões de gênero. Aí, novamente, tenho de dar uma nota alta para January Jones.

Não, não há discursos feministas, nem defesa das mulheres ou o que quer que o valha. January realmente não está a fim de gastar seu tempo com isso. Aliás, quase dá para imaginá-la falando: “Deixo os discursos para a Amelia” (referindo-se a Earhart, a aviadora e feminista estadunidense). Mas, mesmo sem discursos, ela ouve um bocado de besteiras. Não devia estar ali, não devia se vestir daquele jeito, não é algo que uma mulher faça. Suas reações são igualmente interessantes. Quando as reprimendas vêm de mulheres, ela rola os olhos e ignora. Se vêm de homens, bem, January não gosta de mal-educados e tem um belo gancho de direita para os inimigos e para os que tentam manipulá-la também. Uma personagem dona de si, como aquelas com que a gente sonhava, lá em 1986 (quando eu tinha 13 anos), mas que só agora nos alcançam.

Gi Pausa Dramática encarna January Jones.
Gi Pausa Dramática encarna January Jones.

Realmente, espero outros livros e uma boa coleção da January Jones.

A Avec Editora fez um lançamento no capricho, com book trailer e um belo ensaio feito pelo fotógrafo Gabriel Fox com a cosplayer Gi Pausa Dramática, que você confere nesta resenha.


January Jones: Corrida Contra a Morte, Martin Lodewijk e Eric Heuvel, AVEC Editora. Tradução de Paulo Henrique Tirre.


Nikelen Witter é escritora, historiadora, pesquisadora de gênero, feminista desde a época em que isso era palavrão. Autora da obra acadêmica “Dizem que foi Feitiço” e do romance “Territórios Invisíveis”. Ser andarilha no tempo e no espaço é minha definição de sanidade.


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