Precisamos de pesquisa feminista no canteiro de obras

Por Fernanda Rios,

Na área de engenharia e construção sustentável, são raríssimas as pesquisas que buscam contribuir de alguma forma para a sustentabilidade social! Estas questões não são exclusivas às políticas sociais e ciências relacionadas: são interdisciplinares e urgentes.

Este texto é um alerta para que prestemos atenção às áreas de pesquisa que abordem questões sociais, especialmente às causas feministas.

Você sabia que, nos EUA, as mulheres representam apenas 8.9% da indústria da Construção Civil?

É um número muito baixo uma vez que este dado inclui também o número de operárias com cargos “de escritório”.

Por não vemos mulheres trabalhando como operárias da construção (pedreiras, encanadoras, eletricistas, pintoras, soldadoras, carpinteiras, maquinistas)?

Os dois mitos mais usados como resposta são: 1) As mulheres não querem trabalhar como operárias, e 2) as mulheres não podem trabalhar como operárias (porque não teriam a “força física” necessária).

Durante as Guerras Mundiais I e II, milhares de mulheres trabalharam nas obras nos EUA. Elas provaram que podiam substituir os homens nas diversas ocupações no canteiro de obras e muitas se apaixonaram pelo trabalho (com salários muito acima de profissões “tradicionalmente femininas”). Após as guerras, a maioria das operárias foi demitida para dar lugar aos veteranos das Forças Armadas. Através de sindicatos e ativismo, elas (então 2% da indústria) conseguiram pressionar o Governo, e em 1978 foi determinada uma cota mínima de 6.9% de operárias nos canteiros de obra.

operarias EUA
Operárias ativistas durante manifestação (EUA).

Apesar da cota ínfima, a porcentagem nacional de operárias continua abaixo de 3% até hoje, quase quarenta anos depois! Elas vêm sendo mantidas longe do canteiro de obras através de práticas discriminatórias dentro dos sindicatos empregadores, do assédio sexual sofrido no canteiro e da falha na execução de leis existentes (Moir et al. 2011). No resto do mundo, a luta das operárias não é diferente. Este ano, aconteceu em Chicago uma conferência que reuniu mais de 1500 operárias e palestrantes de diversos países. Elas discutiram sobre legislações, questões contratuais, sindicatos, e principalmente sobre os desafios que sofrem no trabalho.

Operárias canada
Operárias no Canadá.
Operárias Chicago
Operárias em Chicago (EUA).

E quais são estes desafios?

Discriminação de gênero e assédio sexual são apenas parte do problema diário. O isolamento torna tudo pior: 88% das operárias afirmaram que sempre foram a única mulher no canteiro durante suas carreiras (NIOSH, 1999)!

Além de assédio e discriminação, elas enfrentam problemas em relação à segurança no trabalho. Os mais comuns são os equipamentos de proteção individual (EPI) que não são ajustáveis à maioria, a falta de higiene nos sanitários, e substâncias químicas que possivelmente podem afetar a gravidez e a amamentação (NIOSH, 1999; Goldenhar & Sweeney, 1996).

E onde estão as operárias no Brasil?

A participação feminina no canteiro de obras cresceu durante as obras da Copa do Mundo e das Olimpíadas. O Estádio do Maracanã empregou 230 mulheres nos canteiros de obra (Prado, 2012). O Projeto Mão na Massa, no Rio de Janeiro, até 2013 já havia contado com a participação de mais de 600 mulheres nos seus cursos de qualificação profissional gratuitos para mulheres de baixa renda. O projeto foi criado após um diagnóstico feito em uma comunidade da zona norte do Rio de Janeiro. Mais de 80% das mulheres entrevistadas (n=216) responderam que gostariam de fazer de cursos de qualificação para a construção civil (Portal Brasil, 2015). Entre as beneficiadas, muitas são vítimas de violência doméstica (Portal Brasil, 2015) ou mães solteiras. Em 2012, a estimativa era de que 12% dos operários do setor da construção fossem mulheres (Bubniak, 2012). Outro projeto nacional é o Mulher em Construção, uma ONG criada no Rio Grande do Sul em 2006 e que já treinou quase 900 mulheres em seus cursos de formação!

Projeto mao na massa
Operárias formadas pelo Projeto Mão na Massa.

As brasileiras também vêem no salário um grande incentivo para investir na carreira da construção civil. As atividades de pedreira, carpinteira, ou encanadora rendem salários de até 3.800 reais ao mês, enquanto mestres-de-obras podem ganhar até 5.400 reais por mês. Empregos tradicionalmente femininos, por outro lado, rendem salários de cerca de 700 a 1.400 reais mensais (Prange, 2013).

Seja pelo orgulho de participar de uma profissão dominada por homens, seja pela independência financeira, ou seja pela possibilidade de garantir às mulheres em situações de vulnerabilidade uma alternativa liderar as próprias vidas… é importante termos mulheres nos canteiros de obra, SIM!

Por que precisamos de pesquisadores feministas na área da engenharia e construção sustentável?

Uma das principais metas da pesquisa feminista é apoiar a justiça e transformação social através do estudo das diversas desigualdades e injustiças sociais que continuam dificultando a vida de milhares de mulheres e suas famílias (Hesse-Biber, 2014). Problemas como assédio sexual e discriminação no ambiente de trabalho, segurança e saúde da mulher são centrais à pesquisa feminista (Hesse-Biber, 2014).

Feminismo
“Eu preciso do Feminismo porque ‘Quem contratou uma stripper?’ não deveria ter sido a primeira coisa que ouvi no meu trabalho de soldadora” (EUA).

Pesquisas que contemplem a situação específica das mulheres são essenciais especialmente nas áreas em que as mulheres constituem notável minoria, como é o caso da Engenharia e Construção.

E o que a tão falada (e comercializada) “sustentabilidade” tem a ver com isso?

Questões intricadas ao desenvolvimento sustentável são democracia ecológica, feminismo e questões de gênero, pesquisa participatória, entre outras. Sustentabilidade, portanto, é uma questão de essência política mais que técnica e tecnológica (Agyeman et al. 2003).

Em 1994, o Reino Unido divulgou os resultados de uma pesquisa para identificar indicadores de sustentabilidade, e 60% das áreas identificadas eram relacionadas a aspectos sociais (Jacobs, 1999). Mais tarde, surgiu o que é chamado de “sustentabilidade social”, que se relaciona como igualdade, participação social, e qualidade de vida (Jacobs, 1999).

Sustentabilidade
O famoso (e bem batido) tripé da sustentabilidade

Fernanda_red

Fernanda Rios é formada em Arquitetura e Urbanismo (UFBA) e faz doutorado em engenharia e construção sustentável na Arizona State University, nos Estados Unidos.

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Referências:

Agyeman, J., Bullard, R. D., & Evans, B. (. (2003). Just Sustainabilities: Development in an Unequal World. Cambridge, Massachusetts: The MIT Press.

Bubniak, T. (2012, Janeiro 31). Elas também cuidam do canteiro de obras. Retrieved from Gazeta do Povo: http://www.gazetadopovo.com.br/imoveis/elas-tambem-cuidam-do-canteiro-de-obras-7osr33w51fto3s8p64wpr8d3i

Goldenhar, L., & Sweeney, M. (1996). Tradeswomen’s perspectives on occupational health and safety: A qualitative investigation. American Journal of Industrial Medicine, 29, 516-520.

Hesse-Biber, S. N. (2014). Feminist Research Practice: A Primer. Thousand Oaks, CA: SAGE Publications.

Jacobs, M. (1999). Sustainable Development: A contested concept. In A. Dobson, Fairness and Futurity: Essays on Environmental Sustainability and Social Justice (pp. 21-45). New York: Oxford.

Martin, M. (1997). Introduction. In M. Martin, Hard-hatted women: Life on the job (pp. 3-15). Seattle: Seal Press.

Moir, S., Thomson, M., & Christa, K. (2011). Unfinished Business: Building Equality for Women in the Construction Trades. Labor Resource Center Publication.

NIOSH. (1999). Providing safety and health protection for a diverse construction workforce: Issues and ideas. National Institute for Ocupational Safety and Health.

Portal Brasil. (2015, Novembro 06). Projeto “Mão na Massa” capacita mulheres na construção civil. Retrieved Abril 14, 2016, from Portal Brasil: http://www.brasil.gov.br/cidadania-e-justica/2015/11/projeto-mao-na-massa-capacita-mulheres-na-construcao-civil

Prado, B. (2012, Outubro 15). Reforma do Maracanã tem 230 mulheres. Retrieved Abril 14, 2016, from BAND Notícias: http://noticias.band.uol.com.br/emprego/noticia/100000541799/reforma-do-maracana-tem-230-mulheres-entre-os-55-mil-trabalhadores.html

Prange, A. (2013, Fevereiro 3). Mulheres conquistam setor de construção civil no Brasil. Retrieved Abril 14, 2016, from Deutsche Welle: http://www.dw.com/pt/mulheres-conquistam-setor-de-constru%C3%A7%C3%A3o-civil-no-brasil/a-16570982

Silva, M. R. (2013). Canteiro de Obras, lugar de mulher? Um estudo das relações de gênero e trabalho no âmbito da construção civil de Fortaleza-CE. Fortaleza: Universidade Federal do Ceará.

Taylor, D. E. (2000). The rise of the environmental justice paradigm: Injustice framing and the social construction of environmental discourses. American Behavioral Scientist, 43(4), 508-80.

Revisão de texto: Isabelle Tancioni e Helen Miranda,

Fontes das Imagens:

Imagem de detaque

Operárias em Chicago

Projeto Mão na Massa

Operárias ativistas

Operárias no Canadá

Soldadora com cartaz do feminismo

Tripé da sustentabilidade


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Isabelle Tancioni

Sou veterinária, cientista, hipster, Tiki, nerd, geek. Gosto de comics, música, cartoons, animais, plantas.