Star Trek: Sem Fronteiras

“Sem Fronteiras” acerta em homenagear o clássico Star Trek no aniversário de 50 anos do lançamento do primeiro episódio de série, mas sem parecer um reboot qualquer. – SEM SPOILER!

Existem alguns assuntos que são tabus: time de futebol, religião, política, Marvel vs D.C. e claro, Star Wars vs Star Trek. Sem falar que “trekker” que é fã de verdade, vai sempre ter muita expectativa – para o bem ou para o mal – de um novo filme. Eu não chego a ser uma “trekkie”, mas tenho a minha carga horária suficiente de episódios da série original, filmes da primeira tripulação e claro, sou Geração Piccard, para conhecer alguma coisa da saga. Além disso estou ansiosa para a chegada do novo seriado “Star Trek Discovery”, criado pelo genial Bryan Fuller em parceria com a Netflix, então obviamente não fiquei desatualizada sobre os “problemas” que muitos imaginaram que “Star Trek: Sem Fronteiras” teria.

A mais recente polêmica envolveu a música cantada por Rihanna. Muitos reclamaram que a música e o vídeo clip não combinavam com ST. Ok, não costumava ser uma tradição dos filmes ter uma música, ou até uma trilha sonora, diferenciada (além, é claro, da música tema clássica). Entretanto, com a escolha de Justin Lin para a direção, começaram a chover comparações de que o filme estaria parecido com filmes de Star Wars. A escolha de uma música tema para a essa nova fase, não só difere as duas sagas, mas trás pela primeira vez uma preocupação em como ir além da história que se passa na tela. Ao criar uma música tema, você claramente trás para dentro da casa das pessoas parte do filme, especialmente se a música for boa. Trilhas sonoras sempre foram importantes para filmes e estava mais do que na hora de Star Trek se atualizar nessa área também.

Spock, Jaylah e Bones - Imagem oficial Paramount
Spock, Jaylah e Bones – Imagem oficial Paramount

A mais nova tripulação da Enterprise, em seu terceiro filme, tem uma excelente química entre si. Aliás, ao assistir o filme, temos a sensação de que é um trabalho feito por pessoas que se respeitam e que gostam de trabalhar umas com as outras. E talvez seja por isso que, apesar de a ideia de um outro ator que não fosse o Nimoy como Spock, Zachary Quinto se sai razoavelmente bem no papel, especialmente quando contracena com Karl Urban, que está perfeito como Bones. E me desculpem os fãs de Shatner, mas Chris Pine me convence muito mais como James T. Kirk, um capitão imperfeito e impulsivo, mas que daria a vida pela sua tripulação.

O maior problema dos filmes originais era a falta de representatividade. Apesar da Tenente Uhura ser uma mulher e negra, muitas vezes seu papel é secundário. Zoe Saldana, que me pareceu mais confortável e dona da personagem, se mostra mais decidida e em comando – apesar de o seu tempo de tela ainda ser menor que de outras personagens. Essas falhas foram melhoradas em algumas das séries antigas como a Voyager, mas ainda falta espaço para mais mulheres no universo da Federação. Em “Sem Fronteiras” temos outra personagem feminina forte, Jaylah. Aliás, Jaylah é uma das melhores personagens que já vi em Star Trek e não me incomodaria nada de vê-la em futuros filmes.

Uhura e Sulu - Imagem oficial Paramount
Uhura e Sulu – Imagem oficial Paramount

Continuando com as polêmicas, talvez vocês tenham ouvido o mimimi a respeito de finalmente colocarem um personagem homossexual no filme. Como comentei, Sem Fronteiras é uma homenagem aos filmes originais e portanto, escolheram o Sr. Sulu, antigamente interpretado por George Takei, para ter uma família “não tradicional”. A questão gerou tanta polêmica, que o próprio Takei, homossexual assumido, foi contra a escolha de seu antigo personagem alegando que “Sulu não era homossexual na série original”. Muitos acharam que deveriam escolher um novo tripulante, mas eu sou do time que acredito que escolher Sulu é uma forma de dizer que Takei, independente do que os fãs possam ter dito no passado, não deve ser apenas um “ativista de internet” ou “meme”, mas que sempre foi aceito por todos, mesmo que a época dos filmes originais não permitissem tanta liberdade para que Sulu pudesse ter um marido. Representatividade é importante e mesmo que o novo Sulu tenha uma relação extremamente sutil com seu marido, acho extremamente importante a inclusão e a escolha da personagem para ser o primeiro tripulante homossexual. E o ator John Cho não mudou em nada sua interpretação, o que tornou a homenagem ainda mais significativa para mim.

Com uma bela “fotografia” – o filme é extremamente bonito – Lin não decepciona e trás o Universo de Star Trek – cujos filmes e séries também eram cheios de ação em suas épocas – para a atualidade. Suas escolhas estéticas com um estilo bem único acertam, minha única reclamação são algumas cenas que me deixaram ligeiramente tonta, mas a opção pela técnica é incrível e muito bem aplicada. E acredito que sim, esse filme é um filme de Star Trek com tudo que um filme da saga merece: incluído um bom vilão.

Kirk e Krall - Imagem oficial Paramount
Kirk e Krall – Imagem oficial Paramount

Após o sucesso do britânico Benedict Cumberbatch como Khan em “Além da Escuridão”, a produção decidiu escalar outro inglês para o novo vilão da história. Idris Elba assumiu essa responsabilidade e criou um vilão interessante do que poderia ser um papel extremamente chato. Seu personagem, que me lembrou fisicamente o personagem de Louis Gosset Jr em “Inimigo Meu”, poderia ser mais um alienígena que tem por objetivo atrapalhar Kirk. Mas o carisma de Elba, mesmo por debaixo de maquiagem ou computação gráfica, torna Krall um vilão poderoso e assustador.

Sou obrigada a confessar que o filme foi mais do que eu esperava e me deixou com gosto de quero mais. O único problema nele, é lembrar das perdas que tivemos. Leonard Nimoy, o eterno Spock, faleceu antes das filmagens e claro teve uma bela homenagem no filme. Mas pensar no trágico acidente de Anton Yelchin, o navegador Chekov, que tirou sua vida um mês antes do lançamento do filme, deixa tudo mais amargo. Seu personagem, o navegador Russo, cheio de vida na história, com um ator aparentemente querido por toda a produção, deixou todos arrasados. Espero que no próximo filme decidam o destino de Chekov de uma maneira que honre tanto o ator quanto o personagem.

Anton como Chekov- Imagem oficial Paramount
Anton como Chekov – Imagem oficial Paramount

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Silvia RC Almeida

Dona da coluna Filmes da Sil no blog F-utilidades