Good Morning Call e os Estereótipos de Relacionamentos em Shōjos

Ohayo capivarinhas de chapéu e lontrinhas de polâinas! 😉

Main Characters
Nao Yoshikawa e Hisashi Uehara

Hoje vamos discutir algo que me incomoda bastante, apesar de saber apreciar o que há de bom nas produções japonesas tão queridas e adoradas por todes nós. A pauta da vez é um dorama chamado Good Morning Call. E como a gente costuma dizer: não é por gostarmos de algo e acharmos legal que vamos ignorar o que deve ser problematizado. Então, simbora comigo nessa viagem pra nossa desconstrução em grupo?! ^^~

Mas antes de mais nada, algumas infos importantes pra vocês: Good Morning Call é uma série de TV recente, de 2016, com uma temporada de 17 episódios realizada pela Fuji Television em parceria com a Netflix.

Ficha técnica: escrita por Keiko Kanome, Yuna Suzuki e Rieko Obayashi; Com música de Megumi Sasano; Produzida por Mayuko Okamoto e Akimitsu Sasaki; Dirigida por Yo Kawahara e Takashi Fuji.

Baseada em um mangá shōjo homônimo de 11 volumes, escrito por Yue Takasuka e lançado por SHUEISHA desde Setembro de 1997 até Abril de 2002 em uma revista feminina chamada Ribon, é claro que o dorama está disponível na Netflix, essa linda lacradora das nossas vidas e que só investe em coisas incríveis. (Vide Stranger Things! *sim, sou uma das fãs apaixonadas, se não viu: veja!* xD)

Existe uma sequência do mangá chamada Good Morning Kiss, lançada também pela SHUEISHA, agora na revista Cookie, desde Maio de 2007 e com 10 volumes até o momento… Mas isso não vem ao caso agora. xD

Os personagens principais são esses dois aí em destaque na imagem acima. Sendo baseado em um mangá shōjo é claro que o romance (e o drama! *haha*) é a palavra de ordem e por isso nós temos de ter um casal principal, né? 😉 Aquela dinâmica básica onde um é pura maravilhosidade e o outro é alguém “ordinário”, colocado em aspas pois com o passar do tempo percebemos ter seus encantos, é a fórmula básica (e bem clichê) usada aqui. Que fique bem claro, não estou criticando o uso de fórmulas ou clichês… Acredito que já disse isso várias vezes aqui, mas torno a repetir: (pra mim) nesse mundo nada se cria, tudo se copia. A vida, o universo e tudo o mais (42!) são feito de ciclos intermináveis, interligados e why not? repetitivos. A diferença é no como fazemos isso. A originalidade, ao meu modo de ver, é atingida justamente nas particularidades que investimos nas personagens e na história, em sua profundidade e, claro, em ser construídos de maneira crível. Opa! Muitas palavras destacadas, né? Mas fique tranquila, é só pra ter umas ideias de efeito maneiras, tipo as “entradas triunfais” dos animes, saca?! *hoho*

Depois de tudo isso, podemos dizer que a questão dos estereótipos já começam por aí. Em muitos trabalhos feitos pelos japoneses, podemos ver o uso dessa ideia de que “apesar de você ser alguém comum, de beleza comum, notas comuns… (alguém também lembrou do Shikamaru? xD) tudo beeem “ordinário”, você também tem algo de especial e pode sonhar alto pois a vida lhe reserva surpresas incríveis”. Talvez eles façam isso em uma tentativa (efetiva?…) de compensar o alto índice de suicídios… Já que muitas pessoas, principalmente os jovens, que não conseguem alcançar e cumprir o padrão altíssimo das expectativas das famílias e da própria cultura/sociedade, acabam escolhendo “o além do aquém da onde véve os mortos” como saída. Não que esse seja o assunto de hoje, mas é algo que nos faz pensar, não acha? =/

Enfim, não vamos entrar nessas bad vibes agora. Esse ano já está trevoso demais por si só, não preciso colaborar mais. ><‘ Por isso, bora conhecer um pouco mais de cada um dos personagens principais? ^^~

Nao Yoshikawa

Yoshikawa é uma adolescente de 17 anos muito fofa e responsável. (E vamos combinar, se nos guiarmos pela atriz, dá pra dizer facilmente que ela é linda. O que novamente me faz questionar quantas “adolescentes comuns, de belezas comuns, de habilidades comuns (ou na média, como preferir) beeem ordinárias” ela de fato consegue representar… Hã? Okay, prosseguindo.) Logo no primeiro episódio descobrimos que seus pais tiveram de se mudar para a fazenda da família que fica no interior e, depois de muita insistência, a garota consegue autorização pra ficar em Tóquio morando sozinha e assim terminar o colégio. Ao chegar no tão sonhado apartamento novo, e diga-se de passagem bem amplo e aconchegante (o que me surpreende, pois sabemos que espaço é algo bem disputado no japão), Nao não demora a descobrir que foi vítima de uma fraude no contrato de aluguel. Não vendo outra alternativa a não ser dividir o apartamento com Uehara, nossa heroína inicia sua nova vida cheia de aventuras e obstáculos bem típicos de novelas mexicanas. Sim, é um dorama, eu sei, mas o Japão e o México (e o Brasil, né? xP) tem essa paixão por dramalhão/comédia meio pastelão em comum. *hihi*

No quesito personalidade, o que me incomodou é que a Yoshikawa é a contraparte ordinária e bobinha do casal. Ela é a pessoa de notas não tão boas, mas encantadora e fofinha que vai conquistando o público, o galã e mais meio elenco no processo. O que era esperado, pois nos shōjos, a personagem principal é a garota (afinal a série é voltada para o público feminino) e por isso ela tem que ser a bobinha da história (sobre aquele lance de representatividade que comentei lá em cima). E veja bem, essa não é apenas a minha visão, é inclusive como a personagem é descrita na imagem que colocarei ao final da matéria (e retirada do site oficial): como “avoada e descontraída”.

A moça realmente teve uma vida bem comum se a compararmos com a do rapaz. Vem de uma família com pai e mãe, vive uma vida de classe média alta, estuda em boa escola e tem bons amigos. Inclusive tem um ótimo amigo de infância que é um ano mais velho e de quem falarei melhor mais adiante. Esse background ajuda a compor nossa visão da personagem.
Hisashi Uehara

Uehara é o típico queridinho do colégio. Como em toda historinha do tipo, ele é o príncipe encantado que toda garota sonha em ter como namorado. Incrível como as garotinhas de colégio japonesas só consideram o combo Bonitão+Super Inteligente+Fodão dos Esportes elegível como príncipe ou, no caso, TOP+ do rolê. E aí existe até fã clube com leis de como se portar ao abordar um dos TOP e de como eles são um “bem da sociedade escolar” e não podem ser abordados por nenhuma garota específica. Meh… Isso me cansa, mas enfim, é um dos preços a se pagar por gostar dessas coisas. *haha*

É interessante dizer que ao ler a sinopse dessa série na Netflix, tive a nítida impressão de já ter visto isso antes… (Procure pelo anime+mangá+dorama chamado Itazura na Kiss, inclusive disponível no Crunchyroll) Mas que agora, depois de ter visto a temporada toda, posso dizer que com algumas semelhanças, considero Good Morning Call muito melhor! O fato de eu ter conseguido assistir até o final já é um ótimo começo! xD Sabe, o relacionamento abusivo do casal de Itazura na Kiss é demais pra mim e a personagem principal é por demais irritante com sua ingenuidade e submissão em excesso. O que curiosamente ficou muito mais nítido e forte quando eu tentei assistir ao dorama no Chrunchyroll, talvez por agora serem pessoas de carne e osso. Pois quando assisti ao anime, alguns anos antes, até tinha gostado do todo. Essa é outra coisa que fiquei pensando: o quanto nós realmente conseguimos nos ver em personagens que são apenas desenhados e não pessoas reais quando vemos algo que não gostamos. Será que a falta de pessoas ali faz com que coisas ruins sejam mais aceitáveis? Comecei a perceber que tenho essa maior facilidade em me desassociar daquilo que vejo, quando algo me incomoda, ao assistir animações. Mas isso é papo pra uma outra hora, só joguei aí o questionamento. De novo. Tô só esquivando as jogadas tensas hoje, hein? *haha*

Voltando ao Hisashi, que a essa altura vocês quase esqueceram, sua personalidade já é descrita lá na imagem que comentei como “bonitão e inteligente”. E o que me deixa surpresa é a facilidade como perdoam o fato dele ser frio e grosso. Sim, o cara é grosso pacas. E só por ser o primeiro do ranking lá dos TOP e possuir o combo arrasa corações que descrevi a pouco, tá tudo bem. Tá tranquilo, tá favorável você ser um cara que não tá nem aí com o sentimento da garota a quem faz o favor de namorar, pois afinal você é a última bolachinha do pacote, o gole de coca-cola no deserto e ela tem é mais que estar agradecendo aos deuses por isso, né não?! É… NÃO. Nope, Insira aqui o meme do Hitler gritando nein, nein, nein… (Não que eu seja fã do personagem histórico em questão, mas esse meme já foi tão zoado e o ator foi tão incrível nessa cena que é aceitável vai e só assim pra você entender o nível da minha frustração. xD) Ou seja: aí temos outro clichê dessas historinhas, o cara cobiçado é sempre assim.

Admito que em Good Morning Call ele não é um absoluto infeliz *insira aqui uma palavra feia*. O fato de conhecermos um pouco mais do passado dele—ao descobrirmos que perdeu os pais de forma trágica bem cedo (mas ele não vira o Batman, fique tranquila xP) e que passa por mais uma situação difícil por ter perdido seu primeiro amor pra ninguém mais do que o próprio irmão mais velho—faz com que nossa visão da personagem seja suavizada. Afinal, quem não fica amargo por um tempo ou por muito tempo, vivenciando experiências como essa. Agora, o que o redime de forma mais justa é que vemos como ele vai aprendendo com os erros e toma decisões mais acertadas. Podemos dizer que o cara é perfeito? Nem de longe! *haha* Faz um monte de cagada bem fedida, mas é um romance, né… Aí a gente vai querendo ver como que a história vai ficar e ele compensa hora ou outra. 😉

Chega de falar da dupla dinâmica! Que tal discutirmos um pouco as personagens secundárias que compõe esse elenco lindo? ^^~

School Related
Da esquerda para a direita: Daichi, Mitsuishi, Marina e Abe.

Bora começar com a trupe do colégio! *hehe* Como eu já disse, a Nao tem bons amigos na escola. A Marina é sua melhor amiga. Ela é divertida, vive dando conselhos (amorosos também) pra nossa heroína, mas nem sempre são ideais… Contudo, ela é adorável. No dorama, é muito engraçado ver a devoção dela em sempre estar admirando os caras bonitões do pedaço. Uma amiga fiel e, devo dizer, aquela que salva a Nao de muita roubada, botando um pouco de noção dentro da cabeça da garota. Sim, essa mana dá uns foras, mas eu adoro ela. xD O Mitsuishi é meio que o sidekick da Marina. Ele é apaixonado por ela, então é meio difícil ver um sem o outro. Ele quase sempre concorda com as loucuras da moça e tem bom coração. O Abe é o alívio cômico do grupo. Conhecido como Rei das Declarações, pois não pode ver uma moça bonitinha que já se apaixona e vai se declarar. Depois de alguns acontecimentos ele se denomina o melhor amigo do Uehara. Lembra do Daichi? Mencionei ele mais cedo, é o amigo de infância da Yoshikawa. Suas famílias são amigas e passavam muitas datas festivas juntos por isso. Acho que já deu pra perceber que ele, apesar de ser o senpai do grupo, será o (primeiro) rival do galã. É o cara apaixonado desde sempre pela mocinha e que só toma coragem pra se declarar quando vê que agora tem competição. Algo bem típico nas relações amorosas dessas criações. Perceba que todos são bem caricatos e isso é proposital. Faz parte do estereótipo de grupo secundário dessas séries. Não vão ser personagens bem desenvolvidos, pois eles estão em cena sempre pra complementar algo em relação aos personagens principais.

Isso não impede em nada de que gostemos deles! *haha* Inclusive, eu queria muito ver uma side story com o Daichi. Queria ver ele encontrando uma moça que correspondesse seu amor, pois ele é um fofo. Outro fato curioso, sempre fico com o coração doído pelos caras dispensados pela mocinha. Pra variar, isso faz parte da fórmula: criar esses caras adoráveis que, na maior parte do tempo, seriam escolhas muito mais acertadas por serem mais carinhosos e tal. O que faz parte, afinal tudo é feito de caso pensado: 1 – afirmar que o coração não escolhe por quem se apaixona (por mais que a gente queira), 2 – eles estão ali pra reforçar o quanto a mocinha é adorável e encantadora mesmo sendo uma pessoa comum e 3 – a mocinha é a redenção do príncipe frio e distante, o motivo pelo qual ele vai deixar de ser um babaca. É o plot que a gente já conhece, mas que acabamos vendo de novo e de novo por causa das particularidades de cada história. 😉

Mean GirlsLembra do filme Meninas Malvadas? Esse é o trio cinematográfico versão nipônica. xD Tem até uma cena engraçada nos episódios iniciais explicando que cada uma delas é a líder de uma tribo específica da sociedade escolar. O que me fez lembrar mais ainda do filme. *haha* Essas seriam as primeiras rivais da nossa heroína. Apesar de ser um elemento mais que esperado, elas não são tão chatas, pois o Uehara toma certas atitudes logo no início que limitam um pouco as ações do trio. Mas sempre que é preciso uma desculpa pra dramatizar um pouco mais a história, elas ressurgem. Afinal, uma grande preocupação do casal desde o início é não deixar que ninguém da escola descubra que estão dividindo um apartamento. Vale ressaltar, na cultura japonesa dois alunos menores de idade de sexos opostos, colegiais, morando junto e ainda sendo um casal é algo impensável, quem dirá aceito com bons olhos. Elas tem um papel maior perto do final da história, porém o desfecho da situação se dá de maneira tão fraca que achei frustrante. Queria vê-las pagando pelos seus atos, contudo nesse ponto entendo que elas não sejam exatamente vilãs. Elas são fruto das altas expectativas sócio-culturais do meio onde vivem e acabam permeando a área cinza da vida. Sabe, nem branco e nem preto, mas cinza. Então a forma anti-climática como as coisas se encerram é até compreensível.

Concluindo…

Ri, chorei, me diverti e me irritei durante o processo. Os estereótipos e clichês, velhos conhecidos desse mundo shōjo de ser, estão todos aí em sua glória sem fim. *haha* Têm coisas ruins, mas também têm coisas muito boas. Quero que se lembrem do que disse lá no comecinho: hoje em dia muita coisa que assistimos vai ter problemas. E isso não é algo ruim. Vivemos na área cinza, lembra? Ninguém é só bom ou só ruim, assim como nada é perfeito ou horrível. O importante é a gente aproveitar de tudo pra se desconstruir e aprender continuamente. Podemos sim usar estereótipos e clichês a nosso favor, recriando fórmulas que dão certo de forma criativa e inusitada.

Claro que não falei de tudo o que acontece na série, pois quero muito que vocês assistam! Assim eu vou ter com quem conversar! *haha* Mas pq eu gostei sim, não foi um dos casos onde grito com a TV pedindo minhas horas de vida de volta. xD

Por isso estou encerrando por aqui e deixo com vocês uma imagem que vai atiçar mais um pouquinho sua curiosidade… *hoho*

Relationship Scheme
*Joga a bomba e sai correndo xD*

Jaa Ne! 😉

 

Fontes:
http://www.goodmorning-call.com/english/sp/index.html
https://en.wikipedia.org/wiki/Good_Morning_Call


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Sarinha Tomoyo-chan

Um bichinho fofo saltitante cor de rosa que ama chocolate, cafuné e abraços. *o* Ávida gamer de jogos da Steam, Blizzard e Level Up! Apaixonada <3 por Harry Potter, Star Trek/Wars, Indiana Jones, Karekano, Gankutsuou, Clannad, Fate Stay Night… E muitas outras toneladas de filmes, animes, mangás, games, séries e livros. Sites como Netflix e Crunchyroll, tanto quanto lugares como FNAC e Livraria Cultura têm fortuna garantida nas mãos dela! xD | EMAIL: sarinha.tomoyo-chan@minasnerds.com.br