Wicked – O Musical: o poder feminino e entrevista com ator

A história do Mágico de Oz é, claro, um clássico da literatura e do cinema que atravessou gerações e, se você não conhece, com certeza pelo menos já ouviu falar. Não à toa: a aventura da menina Dorothy levada por um tornado a uma terra fantástica estreou nas telas em 1939, e desde então foi montada, desmontada e remontada algumas vezes, mas suas lições e significados mágicos nunca se esgotam. E com um simbolismo superinteressante, um outro lado da história ganha uma gigantesca relevância no contexto de hoje: Wicked – A História Não Contadas Das Bruxas de Oz.

O musical, produzido pela Broadway, está em cartaz no Brasil desde março e não existe outra maneira de começar a comentar sobre ele senão ressaltando que a qualidade está impecável: não perde em nada para montagem norte-americana. O espetáculo já foi assistido por mais de 48 milhões de pessoas no mundo e a temporada não para de se estender tamanho sucesso. E você vai entender por que é tão bom.

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Reprodução: Wickedomusical.com.br

A história de Wicked

Wicked conta a história da origem dos personagens mais icônicos de Oz antes da chegada de Dorothy e de sua história clássica. Acompanhamos o surgimento e desenvolvimento das bruxas Glinda e Elphaba e entendemos que, por trás do clichê bem versus mal, existe uma relação complexa e incrível entre as duas. A história é contada por Glinda que, com uma memória meio confusa, começa a relembrar como conheceu Elphaba e como tudo se encaminhou para o surgimento da Bruxa Má do Oeste. Nesse meio tempo, temos uma visão interna dos acontecimentos que desencadearam a “maldade” de uma feiticeira e o reinado de outra.

E a mensagem não podia ser mais bonita: a sororidade entre duas pessoas que são grandes líderes, para bem ou para mal, é de encher os olhos. A relação delas com a família, com o amor (é surpreendente o papel do Príncipe Encantado nesse caso) e com o protagonismo da própria vida também são intensas e muito pautadas na inteligência, no carisma e na cumplicidade entre as personagens. Além disso, as metáforas sobre governos e lideranças tiranas e opressoras, preconceitos e divisões sociais, tornam o espetáculo uma obra de formação que impressiona em todos os aspectos.

Reprodução: Wickedomusical.com.br
Reprodução: Wickedomusical.com.br

Montagem brasileira

Como as grandes produções da Brodway, o visual é de encantar qualquer um e, correndo o risco de ser piegas (e não ligando pra isso), é como virar criança de novo e ter aquele pensamento de “como é que eles fizeram isso?” a cada meia-dúzia de cenas. Já que fica difícil comentar toda a produção técnica de Wicked, que conta com centenas de profissionais das mais diversas áreas,  vale aqui tirar o chapéu para o talento das protagonistas Fabi Bang (Glinda) e Myra Ruiz (Elphaba), que sustentam as três horas de espetáculo no alto amparadas por um elenco e coro de bailarinos que enchem o palco de vida.

Para entender melhor como funciona a montagem de um musical de peso como este,  o MinasNerds conversou com o educador físico Sandro Conte, que é ator, cantor e bailarino em Wicked. A preparação começa já na escolha do elenco, que passa por um processo de seleção rigoroso. ”Todos os atores passaram por um longo processo de audições – eu, particularmente, passei por 11 fases de testes, que ocorreram entre setembro e novembro do ano passado [mais ou menos quatro meses antes da estreia]. Nessas fases, passamos por uma seleção com uma equipe brasileira para testes de dança, canto e interpretação e, mais tarde, com a banca de diretores e coreógrafos internacionais, representantes da companhia original de Wicked”, explica. Escolhido o elenco, a rotina de ensaio durou dois meses.

Além disso, mais do que reproduzir uma obra, existe um trabalho complexo de adaptação para adequar o espetáculo ao perfil do público brasileiro. “Todo o elenco assistiu ao filme original de 1939, estudamos as cenas e ainda pudemos criar e atribuir novos significados em cima do texto com o apoio dos diretores e coreógrafos. Cada espetáculo segue rigorosamente o esqueleto consagrado da peça, mas cada adaptação é única”, conta o ator.

Reprodução: Wickedomusical.com.br
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Durante a temporada, Sandro ressalta que o cuidado com o corpo e com a voz é redobrado. “Temos academia de ginástica para treinamento e fisioterapia à disposição. Além disso, aulas de canto são indispensáveis para qualquer ator de musical e, se necessário, acompanhamento fonoaudiólogo e otorrinolaringológico”, disse.  Em dia de espetáculo, a preparação começa uma hora antes, com aquecimento vocal e corporal, maquiagem, figurinos, perucas, microfones e muita concentração.

Ingressos

A consideração final é de que é uma tristeza e uma perda gigante que o acesso a uma produção cultural de qualidade tão boa ainda seja tão restritas. Os ingressos variam entre R$ 50 e R$ 230 o que, claro, nem sempre cabe no bolso.  Mas, se posso deixar aqui um conselho muito pessoal (tocado e emocionado), se você, que está lendo isso aqui, pode gastar esse dinheiro, o programa vale a pena. São três horas para se desligar totalmente da realidade e se deslumbrar com um mundo mágico que parece estar acontecendo bem ali, na sua frente.


Os artigos aqui publicados são de total responsabilidade de suas autoras e editoras.

Aline Pereira

Mestre Pokémon e jornalista. Amante do cinema (e da pipoca com manteiga), compro camiseta de super-herói na seção infantil e nas horas de tédio tento mover objetos com o poder da mente. (Tô no Twitter @alineperr)