Além dos Trilhos- HQ de Mika Takahashi

Mika Takahashi é um fenômeno. Dona de um dos traços mais lindos que já vi, ela trabalha o nanquim com um domínio absoluto e um estilo com raízes no mangá, porém todo seu. Formada em Design, a Mika já trabalhou como ilustradora pra algumas das maiores editoras do país. Agora, ela decidiu que é hora de contar a sua própria história em Além dos Trilhos.
Na HQ, acompanhamos a jornada de um coelhinho que, deixando tudo pra trás, parte em busca de algo que não sabe bem o que é, mas que sente que lhe falta. O traço delicado da artista casa admiravelmente bem com as sombras marcadas e as linhas escuras, surpreendendo a cada quadro. O cenário, que no início da história parece ser meio industrial, me remeteu a Metropolis, até mesmo pelo contraste com os personagens graciosos. Contudo, a história vai enveredando por caminhos cada vez mais inusitados, e o cenário vai mudando de acordo.
Eu conheci o teu trabalho de ilustração através da série Ink StoriesAlém dos Trilhos é teu primeiro quadrinho? De onde surgiu a vontade de contar uma história através dessa linguagem?
Eu costumava desenhar e escrever muitas histórias em quadrinhos quando era criança, mas depois de um tempo acabei parando por pressão dos professores e colegas que diziam que isso afetava minhas notas ( e afetava mesmo rs ).
Só fui redescobrir os quadrinhos depois de começar a trabalhar com ilustração. A vontade sempre existia, mas a coragem me deixava na mão. Foi quando em 2014 participei do meu primeiro evento, a CCXP, e lancei o Ink Stories. Ouvi muitas pessoas dizendo que adorariam ler uma HQ minha e recebi convite de diversos roteiristas para participar de projetos. Dois deles foram a Mylle Silva, autora de “A Samurai” [projeto que está em sua segunda edição aqui!] e Felipe Cagno, autor de “321 Fast Comics” (entre outros). Para “A Samurai” desenhei 8 páginas e “321 Fast Comics” apenas 3, mas senti uma alegria enorme desenhando quadrinhos novamente e foi como se tivesse 10 anos novamente. Desde então surgiu essa vontade de fazer algo do zero, com uma historia minha e com o meu jeito de desenhar, sem me preocupar com clientes nem com pagamentos.
Pelo que pude ver no vídeo de apresentação da história, não há diálogos. O que te fez optar por essa forma de narrativa? E por que a decisão de usar coelhinhos, gatinhos e peixinhos como personagens?
A história surgiu a partir de dois contos que escrevi em meados de 2011/2012. Inicialmente teriam falas, mas senti que elas empobreciam a narrativa e resolvi adaptar as cenas para que elas fluíssem como uma animação.
Em Ink Stories tentei explorar uma narrativa visual que permitisse dar ao leitor a chance de interagir com a obra, dando novos significados a cada imagem. Em “Além dos Trilhos” estou tentando levar esse conceito adiante e estou curiosa para ver o resultado. Escolhi usar personagens antropomórficos pois sinto que dessa forma consigo abordar temas mais pesados com mais sutileza e também para que as pessoas se identifiquem com os personagens pelos seus sentimentos e não por sua raça ou gênero. Me refiro ao protagonista como “o” coelho, mas a verdade é que esse personagem não tem um gênero definido. Aconteceu de alguns amigos identificarem o coelho como sendo fêmea e eu amei isso.
Página de Além dos Trilhos
Página de Além dos Trilhos
Quais são as tuas referências em matéria de HQ, tanto mainstream quando independentes?
Eu cresci lendo mangá. Meus avós sempre me davam aqueles mangás enormes e mesmo não entendendo nada eu olhava as imagens e ficava tentando adivinhar sobre o que era a história. Tenho muito carinho por obras que marcaram a minha infância como Doraemon, Sailor Moon, A Princesa e o Cavaleiro, Ranma 1/2…
Hoje em dia minhas principais referências no mangá seriam as obras de Taiyo Matsumoto ( Sunny, Preto e Branco e Samurai Bamboo), Yuki Urushibara (Mushishi e Waters), Daisuke Igarashi ( Witches e Children of the Sea ) e Takehiko Inoue ( Vagabond ).
Outras obras que amo de paixão são “The Arrival” do Shaun Tan (amo tudo o que esse cara faz), “This one summer” da Jillian e Mariko Tamaki, “Chemin Perdu” de Amélie Flechais,”Beautiful Darkness” da dupla Kerascoet….e a lista seria muito longa se continuasse haha
No âmbito nacional amo de paixão as obras da Fefê Torquato, Lu Caffagi, Bianca Pinheiro entre outras autoras que me inspiraram a seguir esse caminho.
Também gosto muito do trabalho do Wagner William, Guilherme Petreca, Magenta King e Vencys Lao.
Na internet acompanho as webcomics  da Gata Garota, Bear, Thunder Paw: In the ashes of fire montain, e as histórias de terror da Emily Carrol. Também leio bastante coisa no Webtoon como o “Distant Sky”, “Shoot Around”, “Salty Studio” e “All that we hope to be”.
A tua história com as meninas da Pingado-prés, que estão cuidando da editoração do livro, é bem interessante: vocês se conheceram na faculdade de Design e o interesse em publicações independentes acabou fazendo com que trabalhassem juntas no Ink Stories e, agora, em Além dos Trilhos. Tu acha mais interessante trabalhar com editoras independentes e financiamento coletivo do que com editoras grandes? Ou ambas as experiências foram satisfatórias?
Acho que cada projeto pede um tratamento diferente. Eu já fiz trabalhos para grandes editoras, mas sempre foi para ilustrar textos e histórias de outros autores, por isso não sei como seria publicar algo autoral. A experiência sempre foi muito boa e o relacionamento com os editores me ensinou muito.
Para o “Além dos Trilhos” eu cheguei a receber proposta de uma editora maior e eles até me pagariam adiantado, mas senti que o projeto gráfico que eles propuseram não combinava com a história. Acho que o livro como objeto também faz parte da experiência da leitura e o formato, papel, costura e até o cheiro do livro são como uma extensão do conteúdo. Conheço a Bianca há anos e sei que ela e a Ivy compartilham do mesmo pensamento, por isso sei que essa foi a melhor escolha para esse projeto.
Arte de Mika Takahashi
Arte de Mika Takahashi
O teu desenho é fenomenal: tu consegue trabalhar o  preto-e-branco e as linhas marcadas de forma suave ou impactante, conforme a narrativa pede. Também fico impressionada com o volume e textura que tu consegue dar às imagens. Tu tem cursos físicos ou online pra recomendar pra quem quer aprimorar a técnica?
Obrigada! haha
Eu cheguei à essa técnica estudando pinturas japonesas e chinesas de sumiê e também as xilogravuras, mas não conheço muitos cursos online a respeito desse tema…
Sei que na Skillshare a Yuko Shimizu, uma ilustradora japonesa fantástica, disponibiliza video-aulas.
Eu aprendi sumiê com um mestre chinês que dá aula em um instituto no bairro da Liberdade, aqui em São Paulo. Para quem quiser conhecer, eu recomendo muito.
E também dou aula de ilustração na Quanta Academia de Arte 😛
E os projetos pro futuro? Há mais HQs a caminho?
Siiimm! Com certeza! Fazia tempo que não me divertia tanto desenhando e já tenho algumas histórias que quero tirar da gaveta.

A Mika lançou o projeto no Catarse, que é um site de arrecadação de fundos que funciona como uma pré-venda do livro. Caso o valor da impressão seja alcançado, todos os apoiadores receberão as recompensas escolhidas, que incluem, além do livro, pôsteres com artes fantásticas, cadernos, desenhos originais, kits de ilustrações e até mesmo a trilha sonora composta especialmente para o quadrinho! Por outro lado, caso o valor não seja arrecadado, nada tema: todo mundo recebe o dinheiro de volta, e isso é assegurado pelo próprio site (apesar de que, com apenas alguns dias no ar, o projeto já alcançou metade da meta, então já dá pra sonhar em ter o seu exemplar nas mãos!).

Você tem até o dia 06/10 pra garantir o seu exemplar. Apoiando o projeto com R$ 50,00, você já leva o livro e a trilha sonora original!

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Acompanhe o trabalho da Mika Takahashi em:

Os artigos aqui publicados são de total responsabilidade de suas autoras e editoras.

Laura Athayde

Após terminar a pós graduação em Direito Tributário, em 2014, passou a dedicar-se à ilustração e ao quadrinho. Participou de diversas publicações coletivas, como o livro Desnamorados, Revista Farpa, Revista RISCA!, Antologia MÊS 2015 e Catálogo FIQ 2015. Lançou também HQs solo, algumas das quais podem ser lidas online em issuu.com/lauraathayde. Como se não bastasse fazer quadrinhos, resolveu escrever sobre eles na coluna HQ Arte do MinasNerds.