Mulheres nas Geociências: mudando a maneira como entendemos o mundo

A ciência que estuda a Terra

Imagine estudar o chão onde pisamos diariamente. Mas, para estudar este chão, pense que ele é apenas a casquinha bem fina de uma camada rochosa que se estende por vários quilômetros abaixo de nós. Pense, ainda, que esta camada rochosa está sempre mudando, pois faz parte de gigantescas placas continentais que estão em constante movimento e reciclagem, dançando sobre uma camada viscosa de rocha derretida. E mesmo indo tão fundo, não chegamos nem a alcançar 10% da profundidade do núcleo do planeta (1). É isso que estudam as Geociências: a parte efetivamente terrestre da nossa Terra, incluindo sedimentos, rochas e magmas, e os processos que desenvolveram e continuam a modificar a paisagem. Estes são conceitos pouco ensinados nas escolas e ainda menos divulgados ao público, mas com os quais estamos familiarizados pelo interesse natural em temas como dinossauros, erupções vulcânicas, terremotos, deslizamentos de terra, entre outros, todos abrangidos pelas Geociências.

 

O papel das mulheres

De maneira similar a outras áreas de STEM (inglês para Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática), os conceitos envolvidos em Geociências nasceram a partir da curiosidade sobre a origem do planeta e processos naturais, e podem ser identificados desde a Grécia Antiga. A Geologia começou a se desenvolver como ciência a partir do século 17, e por uma questão de contexto social nos séculos passados sempre foi dominada por homens. Apesar dos direitos das mulheres terem evoluído desde então, ainda em 2016 as mulheres trabalhando em Geociências e áreas de STEM em geral, em especial em pesquisa, são minoria (2,3). A necessidade de discutir a inclusão das mulheres na Geologia levou à organização do congresso “Role of women in the history of Geology” em Novembro de 2005 em Londres, Inglaterra, o primeiro a se dedicar ao tema. Trabalhos apresentados e subsequentes são de grande valor ao destacar a importância da participação de mulheres no desenvolvimento da ciência e analisar a situação atual em busca de maior representatividade (4). Dentro deste tema, seguem algumas cientistas da terra pioneiras no campo de estudo.

 

Florence Bascom e o ensino da Geologia

1Florence Bascom (1862-1945) foi a segunda mulher a conseguir um Ph.D. em Geologia nos EUA e primeira mulher contratada pelo renomado Serviço Geológico do país (USGS), além de primeira mulher eleita ao Conselho da Sociedade de Geologia do país (GSA). Bascom foi contratada pela Bryn Mawr College e fundou o departamento de Geologia, onde se formou a maioria das geólogas no começo do século 20. Bascom se especializou em cristalografia, mineralogia e petrografia e fez contribuições importantes ao entendimento de processos de formação de montanhas. Suas publicações sobre a geologia das montanhas Piedmont (Apalaches) ainda são utilizadas por quem trabalha na região (5).

 

Marguerite Williams: quebrando barreiras

2Marguerite Thomas Williams (1895-1991) foi a primeira mulher negra a obter um Ph.D. em Geologia nos EUA. Foi professora no Miner Teachers College, em Washington, principal escola especializada no treinamento de professores negros em boa parte do século 19. Williams estudou processos erosivos que afetaram a bacia do rio Anacostia. Seus interesses iam além da Geologia, Margueritte também se dedicou ao ensino de Ciências Sociais e Geografia (6, 7).

 

Marília Regali na Petrobras

3Marília da Silva Pares Regali, nascida em 1930 em Mogi Mirim, SP, foi a primeira geóloga formada por uma universidade brasileira a ingressar na Petrobras, uma das maiores empresas de exploração de petróleo e gás, em 1960. Regali se especializou no estudo de rochas sedimentares e fósseis e realizou estudos bioestratigráficos em bacias localizadas no Nordeste. Participou dos estudos dos primeiros poços perfurados na plataforma continental brasileira, desempenhando um papel importante no entendimento da evolução das bacias sedimentares nacionais (8, 9).

 

Representatividade importa

É importante conhecer e divulgar o que mulheres brilhantes fizeram e fazem pela ciência, em especial em areas como a de Geociências que ainda são predominantemente masculinas. Além de excelentes cientistas com contribuições importantes para o entendimento de minerais, rochas, fósseis e processos de formação e evolução da paisagem atual, estas mulheres abriram oportunidades para que muitas outras, como eu, pudessem e possam se dedicar ao estudo da Terra. Rock on!

 

4Renata Barros é geóloga formada pela USP em 2013 e atualmente doutoranda na University College Dublin, Irlanda. Apaixonada por música, fotografia, viagens e idiomas.

 

 

 

Revisão

Helen Miranda & Isabelle Tancioni

 

Referências

 

  • Assumpção, M. & Dias Neto, C.M. (2009) Sismicidade e a estrutura interna da Terra. In: Teixeira, W., Fairchild, T.R., Toledo, M.C.M. & Taioli, F. [org] Decifrando a Terra, 2a edição, 624 p.
  • United Nations Statistics Division (2015) The World’s Women 2015: trends and statistics, http://unstats.un.org/unsd/gender/worldswomen.html
  • Glass, J.B. (2015) We are the 20%: update statistics on female faculty in Earth Sciences in the U.S. In:. Holmes, M.A., O’Connell, S. & Dutt, K. [eds] Women in the Geosciences: practical, positive practices toward parity. AGU, 192 p.
  • Burek, C.V. & Higgs, B. (2007) The role of women in the history and development of geology an introduction. Geological Society, London, Special Publications, 281, 1-8.
  • Schneiderman, J.S. (1997) Rock Stars, a life of firsts: Florence Bascom. GSA Today, 8-9.
  • UCI Webfiles about Marguerite Thomas Williams, https://webfiles.uci.edu/mcbrown/display/marguerite_williams.html
  • History of the University of the District of Columbia, http://www.udc.edu/about_udc/history_university_district_columbia
  • Memória Petrobras, Marília da Silva Pares Regali, http://memoria.petrobras.com.br/depoentes/marilia-da-silva-pares-regali#.V73Ov61oCPI
  • Mendonça, P.M.M. (2007) Os Geólogos da USP e sua contribuição para a exploração de petróleo na Petrobras. In: Gomes, C.B. [org] Geologia USP 50 anos, Editora da USP, 544p.

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Helen Cristina Miranda

curiosa de nascença/ cientista de profissão