Bel Pesce, empreendedorismo e celebridade

Por Lizandra Magon de Almeida

Ainda é cedo para dizer quais serão as consequências da exposição a que a empresária e empreendedora Bel Pesce foi submetida nas últimas semanas – e é possível que não haja nenhuma. Na atual polarização de torcidas – que faz tempo não é mais privilégio de times de futebol – quem defende um lado continua defendendo, e quem ataca idem. Entre os dois extremos, alguns ficam indiferentes e outros bandeiam para o lado de quem ataca. Assim tem sido desde que as redes sociais se tornaram o principal meio de comunicação de massa, então logo saberemos o destino da moça.

E o que isso tem a ver com o MinasNerds?

Bom, a ideia desta coluna é abordar questões de trabalho e empreendedorismo para mulheres, então tem tudo a ver. Para quem não acompanhou a polêmica, um breve resumo: a moça, autora do best-seller A Menina do Vale, que tem uma empresa que promove cursos chamada FazInova, coluna na rádio CBN e está entre os líderes mais admirados do país pelos jovens pelo ranking da consultoria Cia. de Talentos, foi superexposta nas redes depois que se uniu ao vencedor do programa Masterchef, Leonardo Young, para criar uma campanha de crowdfunding para complementar os recursos necessários para montar o restaurante dele, no caso uma hamburgueria.

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O timing foi péssimo, diante de toda a confusão política em que estamos, e o texto “vendedor” ironicamente comentado pelo Huffington Post é um escárnio. No meio de uma das piores crises econômicas que já vivemos, o texto feliz e contente que tenta convencer você a doar dinheiro para uma lanchonete gourmet é tão ridículo que parece tirar sarro da sua cara. Sim, eles pisaram feio na bola. Foi absurdo.

Mas… sobrou pra ela. Encarnação brasileira da geração de empreendedores de tecnologia, as famosas start-ups, Bel Pesce virou alvo fácil dos haters. Teve quem tenha se dado ao trabalho de fazer textão e vídeo para demonstrar que ela inflou seu currículo de diplomas e realizações dúbias.

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Mas é preciso ir um pouco além da espuma da Internet, de um lado e do outro.

Logo depois do sucesso do livro, fiz uma entrevista com ela para a revista HSM Management, voltada a diretores e executivos de grandes empresas. Ela me contou que vem de uma família de classe média baixa de São Paulo, estudou em um colégio particular na zona sul da cidade e só descobriu a existência do Massachusetts Institute of Technology – o famoso MIT – no último ano do Ensino Médio. Decidiu prestar em cima da hora. Mas conseguiu o apoio de um ex-aluno – o que é uma condição para estudar lá – e deu a sorte absoluta de uma pessoa ter faltado no dia da prova, permitindo que ela fizesse o teste em seu lugar. Ela passou. E ficou mais seis meses trabalhando muito para guardar dinheiro para pagar a matrícula e as primeiras mensalidades e conseguir se manter por lá enquanto não arrumava uma fonte de renda nos Estados Unidos.

Ela não concluiu o curso e fez vários estágios em grandes empresas e não esconde isso. Talvez até por não ter conseguido se bancar. Ou seja, existe uma dose de competência e esforço nessa história. E por ser uma em um milhão a entrar no MIT, soube usar seu exemplo para se projetar, com o e-book que foi inicialmente distribuído gratuitamente e depois se tornou livro impresso.

O que sobra de tudo isso é que na loucura do mundo das celebridades de hoje, ela foi capaz de construir sua imagem e virar referência. Como qualquer blogueiro. Por isso, talvez tenha tantos defensores quanto tem detratores – e o tal episódio pode até não ser tão danoso.

Ter empresa em qualquer lugar, não só no Brasil, é ralar muito e ela mesma é uma pessoa que rala, porque nem sempre a fama traz resultados financeiros rápidos. Tudo isso para dizer que Bel Pesce talvez não seja realmente tudo isso que ela mesma pintou (e a mídia comprou, vendendo barato por aí), mas também não é necessariamente uma pessoa mal intencionada e mentirosa.

Em um país em que a instabilidade é tão grande que muita gente só consegue sentir um mínimo de segurança prestando concurso público, se ela inspirar meia dúzia de gatos pingados a abrir uma empresa de uma forma um pouco mais embasada (é isso que a empresa dela faz), já estamos no lucro. E, com toda a polêmica envolvendo a hamburgueria, com certeza menos aventureiros vão usar o crowdfunding para tentar financiar um negócio que seja mais do mesmo ou dúbio ou infundado.

Oremos.

 


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