Mês de conscientização dos cânceres de ovário e útero

O mês de setembro é o mês dedicado a conscientização dos cânceres relacionados a estruturas do aparelho reprodutor feminino: ovário e útero. Apesar destes tipos de tumores se desenvolverem em órgãos muito próximos, possuem características muito distintas que estão associadas a fatores de riscos, índice de letalidade, tipos de tratamento e obstáculos no desenvolvimento de terapias efetiva.

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Mulheres diagnosticadas com câncer se reúnem e fundam organizações para auxiliar a descoberta de novas terapias e ainda ouvir outras mulheres que estão convivendo com o diagnóstico e a doença. Tive o prazer de conhecer uma destas mulheres, Joan Wyllie, que fundou a organização Nine Girls ask?que dá suporte para mulheres com câncer de ovário e também financia testes com novas drogas.

Há quase 10 anos, trabalho na Universidade da Califórnia, na área de oncologia especializada no estudo da descoberta de novos medicamentos para cânceres que ocorrem em mulheres. É extremamente importante entender a doença, divulgar informações científicas e assim assessorar as pacientes, famílias e amigos.

Câncer de ovário

Câncer de ovário não está na lista dos 10 cânceres mais comuns detectados em mulheres, porém está na quinta posição entre os cânceres mais letais nos Estados Unidos. Já no Brasil, a incidência de mulheres diagnosticadas é aproximadamente metade dos Estados Unidos.

Dados mostram que 70% das mulheres vêm ao óbito durante o período de 5 anos após o diagnóstico. Clarice Lispector foi uma das mulheres que faleceu por causa da progressão desta doença. Por ter um prognóstico ruim, pacientes com câncer de ovário podem apresentar depressão e pensamentos suicidadas.

O tipo mais comum de tumor de ovário é denominado seroso. Ainda é muito discutido a origem deste tipo de tumor, alguns cientistas acreditam que o início de tudo está na transformação de células presentes na trompas de falópio, enquanto outros sugerem que a origem está associada às células da superfície do ovário.

Mulheres com câncer de ovário apresentam sinais clínicos inespecíficos como distensão e dor abdominal, constipação, que também podem estar presentes em doenças que acometem o trato gastrointestinal. Não há um diagnóstico sensível e eficaz suficiente para a detecção de câncer de ovário precocemente. CA-125 é frequentemente utilizado como um dos indicadores de recorrência tumoral, porém não é capaz de detectar quando o foco tumoral é pequeno. Dados mostram que cerca de 70% dos casos são diagnosticados em estados mais avançados, isto é, quando as células tumorais não estão somente localizadas nos ovários e estão distribuídas em diversas regiões das cavidades abdominal  e/ou torácica.

Os tratamento é baseado em cirurgia e administração de quimioterápicos. Infelizmente, não ocorreu nenhum progresso visível em relação a terapia para esta enfermidade, uma vez que a mesma porcentagem de pacientes vão a óbito quando comparada com a década de 80. Este fato está associado as peculiaridades deste tipo tumoral. Diferentemente dos outros tumores que somente se disseminam pelos vasos sanguíneos e linfáticos, no câncer de ovário, as células tumorais podem se descolar do tumor, se agregar e sobreviver no interior da cavidade abdominal.

Estes agregados celulares, chamados de esferas tumorais, podem se tornar flutuantes ou aderir a outros órgãos da cavidade abdominal. Neste estágio, as células presentes nas esferas tumorais apresentam baixa capacidade proliferativa e podem ser resistentes a tratamentos, como quimioterapia, que são direcionados a células que se multiplicam intensamente. Além disso, este tipo de tumor podem apresentar uma uma grande quantidade de mutações e constituem uma população muito heterogênea. Dessa forma, encontrar tratamentos que atinjam e eliminem todas as células tumorais é desafiador.

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Fatores de risco

O risco de desenvolver câncer de ovário aumenta com idade. É raro uma mulher com menos de 40 anos ser diagnosticada com esta doença. Metade das pacientes apresentam idade ao redor ou superior 63 anos.

Mulheres que apresentam algumas mutações de caráter hereditário de certos genes envolvidos na reparação de defeitos no DNA têm maior risco de desenvolver câncer de ovário. Algumas destas mutações também estão associadas ao aumento do risco de câncer de mama, como aconteceu com o caso da atriz Angelina Jolie. Dados mostram que 10-15% dos cânceres de ovário são associados a estas mutações e em alguns casos aconselha-se a retirada dos ovários e tuba de falópio. Mesmo que este procedimento seja muito polêmico, dados sugerem diminuição na ocorrência de tumor de ovário em 80%.

Câncer de útero/ corpo do útero

Câncer de útero decorre da transformação de células que formam a camada mais interna da parede deste órgão. Trata-se de um dos cânceres ginecológicos mais comuns, sexto tipo de tumor mais frequente no território brasileiro, segundo dados do Instituto Nacional do câncer (INCA) e o terceiro mais comum nos Estados Unidos. Há uma tendência de aumento na incidência do câncer de útero, principalmente em países mais ricos como os Estados Unidos e países da Europa. Cientistas sugerem que este aumento está ligado com o crescimento do índice de obesidade da população.

A faixa de idade de mulheres diagnosticadas é de 50-60 anos e somente uma pequena porcentagem (5%) apresentam idade inferior aos 40 anos. Os sintomas mais comuns são: sangramento uterino e corrimento vaginal. Em estágios mais tardios, as pacientes podem apresentar distensão e dor abdominal, sintomas também relatados por pacientes com câncer de ovário. Informações sobre o histórico da paciente aliadas a exames de ultrassom podem indicar o diagnóstico sendo este somente confirmado após o resultado de biópsia.

Como é observado em outros tumores, a taxa de sobrevida das pacientes diagnosticadas com câncer de útero está relacionada a agressividade das células tumorais e felizmente, esta taxa é alta, ao redor de 80%. O tumor de útero é classificado em dois tipos:  endometrioides: mais comuns e de caráter não agressivo e taxa de sobrevida de 5 anos é 85% e  não endometrioides: são mais agressivos, com mais chances de reincidência e taxa de sobrevida de 5 anos é 55%. Para 75% das mulheres diagnosticadas, o câncer é somente localizado no útero e nestes casos, o tratamento é cirúrgico e a probabilidade de recorrência é baixa. No entanto, quando há diagnóstico da presença de metástases em outros órgãos, o tratamento consiste na combinação de procedimentos cirúrgicos com radioterapia e quimioterapia.

Fatores de risco

Por que a obesidade está conectada ao câncer de útero? O tecido adiposo é responsável por converter o hormônio masculino, andrógeno, em hormônio feminino, estrógeno, e o aumento de conversão de estrógeno, eleva os níveis de estrógeno que estão associados ao aumento do risco de desenvolvimento desta enfermidade.

Terapias de reposição hormonal terapias, que visam minimizar os sintomas causados durante a fase de menopausa, podem aumentar de 2 a 20 vezes a probabilidade da mulher de ser diagnosticada com câncer de útero. Outros medicamentos como a droga, tamoxifeno, prescrito para alguns tipos de câncer de mama, estimulam a células do endométrio e portanto, eleva a probabilidade de 6-8 vezes da mulher ser diagnosticada com câncer de útero. Mulheres portadoras de algumas mutações que também estão associadas com câncer hereditário de intestino (síndrome de Lynch) também apresentam riscos mais elevados.

Há esperança!

Muitos estudos estão sendo realizados com o objetivo de desenvolver novas drogas para o tratamento destas enfermidades. Eu e muitos outros profissionais trabalham intensamente para desenvolver tratamentos mais eficazes. O grupo com quem eu trabalho, participou no desenvolvimento de um novo medicamento para câncer de mama e ovário. Atualmente, esta droga está sendo testada em pacientes com tumor de ovário. Aguardamos ansiosamente os resultados deste estudo e de muitos outros.

Revisão de texto: Helen Miranda.

Figura de destaque: Servier Medical Art e DeepArt


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Isabelle Tancioni

Sou veterinária, cientista, hipster, Tiki, nerd, geek. Gosto de comics, música, cartoons, animais, plantas.